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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O TEMPO, O VENTO E UM AMOR QUE NÃO TEM JEITO - DENISE FRANÇA

CURITIBA, 26 DE FEVEREIRO DE 2015


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Anfiteatro da Casa Estrela
PUC-PR


26/02 PRIMEIRO DIA DE AULA: LITERATURA DRAMÁTICA - PRODUÇÃO DE TEXTO
Volto de bike, a noite está linda, as cigarras e esta lua comovem meu coração que já não sabe do amor mais do que a partida, Mas esse conhaque, essa lua, deixam a gente comovida como o diabo...

O TEMPO, O VENTO E UM AMOR QUE NÃO TEM JEITO
Dessa primeira que se foi, muitas outras virão.... Eis a resposta que te dou, indelicadamente como quem tem o propósito de dissimular o amor e libertar o coração, em asas aladas, para socorrer este prisioneiro e sua liberdade cativa.
Ardor e dor juntos contemplam a ausência e a saudade.
Um desamparo e um primeiro vazio soçobram, escoltados pela lua nua e terna. Ainda aquele abraço envia seu calor ao corpo, lembrança é uma esquina sem encontro.
Ass,: Denise França

FREUD COM NIETZSCHE: MALDITO HOMEM - DENISE FRANÇA

CURITIBA, 19 DE NOVEMBRO DE 2014.


por Denise França
Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Filosofia I




            Friedrich Wilhelm Nietzsche, nasceu em Rocken em 15 de outubro de 1844 e morre em Weimar em agosto de 1900. Filósofo, crítico cultural, poeta e compositor alemão do século XIX.
            Obras:
            O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música
            Humano Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres
            A Gaia Ciência
            Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém
            Além do Bem e do Mal, Prelúdio a uma Filosofia do Futuro
            Genealogia da Moral, uma Polêmica
            O Anticristo, Praga contra o Cristianismo
            Ecce Humano, de como a gente se torna o que a gente é
            Nietzsche contra Wagner

            Sigsmund Schlomo Freud, nasceu em Freiberg in Mahren, 06 de maio de 1856, e more em Londres em 1979. Médico, psiquiatra, neurologista criou a Psicanálise.  

            Obras Completas de Sigmund Freud


             

            Nietzsche precedeu a Freud. Nas obras do primeiro, Além do Bem e do Mal, Demasiado Humano, Genealogia da Moral, observamos  peculiariades da mesma natureza dentro da obra de Freud : Mal-estar na Cultura (1930). Nietzsche fez o que até então, ainda não se tinha observado no campo da filosofia. Observemos em Humano Demasiado Humano:


“43. Homens cruéis, homens atrasados. — Devemos pensar nos homens que hoje são cruéis como estágios remanescentes de culturas passadas: a
cordilheira da humanidade mostra abertamente as formações mais profundas, que em geral permanecem ocultas. São homens atrasados, cujo
cérebro, devido a tantos acasos possíveis na hereditariedade, não sedesenvolveu de forma vária e delicada. Eles mostram o que todos nós fomos, e nos infundem pavor: mas eles próprios são tão responsáveis como um pedaço de granito é responsável pelo fato de ser granito. Em nosso cérebro também devem se achar sulcos e sinuosidades que correspondem àquela mentalidade, assim como na forma de alguns órgãos humanos podem se achar lembranças do estado de peixe. Mas esses sulcos e sinuosidades já não são o leito por onde rola atualmente o curso de nosso sentimento.”


            Assim em Freud, falando sobre a origem da  consciência, sobre os estatutos do ego (o mestre em sua potência),  sobre o superego, sobre a culpa.
            O mal-estar na cultura se dá em razão deste véu que encobre a verdade que precede a história do sujeito. O esquecimento, o recalque primordial, coloca no sujeito este véu, que o faz entrar nesta vida pelo seu viés, a insatisfação, o sofrimento, o desprazer, o sintoma. Este viés o lança para a vida, além de sua pretensão de dar uma identidade ao desconhecido, faz mais do que isso, produz o espetáculo de uma aparência estrangeira na terra de ninguém.
            Assim é o homem, para Nietzsche e para Freud. A compulsão de repetição, um dos conceitos fundamentais da psicanálise, nos garante que o sujeito humano erra, ele produz essa falta a ser, no tempo de vida, através da vida que subsiste a ele, ao seu tempo, no desejo que virá a ser, no outro.
            O sujeito humano deixa suas pegadas neste deserto, solda o seu motivo, e o seu motivo tem o saldo da culpa.
            Nesta paráfrase do Deserto, não menos que o deserto e a sarça ardente que ali esteve presente: “Eu Sou Aquele que Sou”.

            O homem andou por aqui, Nietzsche quizera falar assim: o homem andou por aqui. E por isso, escreve também Zaratustra, o super-homem. Nesse abismo onde ecoa a voz: “Eu Sou Aquele que Sou”, o silêncio submete o homem a viver neste deserto, a produzir e a subsistir neste silêncio e nesse impasse, depois que o homem morreu: Deus morreu!
            E a trilha que lhe resta é esta: Deus está morto.... Uma notícia: Deus está morto!  Este assassínio do homem pelo homem ocorre nessa migração espontânea do êxodo, onde as tábuas dos mandamentos são jogadas ao fogo, pelas mãos de Moisés. Freud, lança o último texto: Moisés e o Monoteísmo.
                        A alma de Freud, Freud sabe que está morrendo, e escreve esse texto como arcabouço de toda sua obra, como um legado imprescindível a esse outro, ao que virá. E nos deposita a maior de todas as pérolas: a história dos judeus. O ferro e a face de Deus impregna a sua pena. Literalmente a sua pena,  porque Freud está morrendo do câncer que o corrói em dores violentas.... 
            Ecce Homo, Nietzsche escreve para Wagner, é para Wagner que Nietzsche escreve: O nascimento da tragédia no espírito da música, A ARTE. Amar a quem se ama, que destino cruel: amar a Wagner. Contra Wagner, última obra de Nietzsche. Amar a quem se ama, que destino cruel do homem, neste deserto entregue depois que proclamou que Deus está morto.       
            Amar a quem se ama: AMAR AO PRÓXIMO COMO A TI MESMO. Entregue ao homem na mesa do holocausto, na última ceia, comendo com os seus, o filho do Homem disse:  AMAR A QUEM SE AMA. Porque sabia, exatamente o que lhe sucederia naquela noite, atravessando a face da verdade, o viés do humano, no sortilégio do beijo
            O sortilégio do beijo, encontramos na obra de Freud, o sonho da Injeção de Irma. O sonho dos sonhos. Onde aparece a fórmula da trimetilamina, onde Freud vai de encontro à morte. A descoberta do INCONSCIENTE. Freud nos diz aqui: PARA SEMPRE.  A via RÉGIA PARA O INCONSCIENTE SÃO OS SONHOS ( AInterpretação dos Sonhos). 
            Uma pena que tenham traduzido tão mal a obra dele. A ironia com que a pena de Freud tece seus pensamentos, e a ternura com que deposita ali as mais tênues impressões do humano, são perdidas. Os psicanalistas não sabem o que fazem...
            Nietzsche atravessou a música, escreveu sobre o espírito do homem, a música de Wagner. Aliás, a obra de Nietzsche é uma composição, é uma letra. E nisso, Freud é fecundo: a letra morta funda o apelo do homem ao título de Deus.
            Já estava escrito, há nisso em Nietzsche o maior de todos os sortilégios: O Anticristo, praga contra o Cristianismo. O cajado, este cajado que faz do homem, virulento em seu fastídio, pela submissão à perseverança dos males, introduz o Anticristo, como uma função tempo, neste espaço de sua letra.
            Já estava escrito, o livro. O livro da Vida, já está escrito. Nietzsche escreve para todos e para ninguém, assim falou Zaratustra, o profeta. Falar para todos e para ninguém, novamente, em sua letra, percebemos o que há de mais fundamental na fala humana, a escuta.  Que a música nos entre pelos ouvidos, pelos sentidos, e nos obture a alma, com o amálgama do inanimado, temos o sortilégio de morrer pelo esquecimento, através do esquecimento, somos conduzidos à morte.
            Somos artífices do BEM e do MAL, onde, só onde, nesta função do tempo, colocada irrisoriamente em lugar do esquecimento:”Assim Falou ZARATUSTRA” . Um livro para todos e para ninguém.  Espaço. Ele lançou aí o mesmo que Freud: O INCONSCIENTE É UM LUGAR.
Freud depois, nos diz: “Wo Es war, soll Ich werden” (1932 p. 86). Lembremos da sugestão de Lacan para a tradução:
Là où c’était, il me faut advenir. (Lá onde isso estava, devo (-me) advir.)
E Garcia-Roza em seu Freud e o Inconsciente (1994): “Ali onde se estava, ali como sujeito devo vir a ser. “

            Freud nos diz:  “uma força pela qual somos vividos, acreditando vivê-la.”
            E Nietzsche em seu Além do bem e do mal (1992), “um pensamento vem
quando isso [es] quer e não quando eu [ich] quero”.
            Que a nossa transcendência dependa disto. Quais os meios pelos quais o humano atravessa a linha da vida, chegando à morte. A morte de si mesmo, todos ros dias sendo viceralmente vivificada na transmissão deste sentido. O seu “falecer”: fale-ser, como dizia Lacan. Através da fala, atravessando a morte.
            Sua aparência de ser: o sentido. A construção de um saber. Freud decifrou através desta pedra de roseta, na comparação entre três línguas, o repertório do inconsciente:
“O inconsciente também é uma articulação de significantes e podemos ver Freud, na prática, produzindo este campo da investigação, ao notar na fala de seus pacientes aquilo que aparece repetidas vezes em seus sonhos e parapraxias. Freud, desse modo, inventa sua própria Pedra de Roseta, assinalando sua própria versão do cartucho de Champollion. Assim Freud observa ocorrências repetitivas, Lacan inicialmente marca o inconsciente como um tropeço, mas também enfatiza a repetição do inconsciente que sempre diz o mesmo.” (FINK, FELDSTEIN, JAANUS, 1997)

            Este aturdito, interditado, este ditado é um promessa, um voto. Um significante que remete a outro significante. A língua mãe, os judeos o sabem. Naquela época, a transmissão oral. E Jesus, o rei dos Judeus o fazia pelo povo, através do povo, seu ato era público, emancipado: o aramaico. Mas em Jesus não havia separação entre a fala e o ato.Ecce Homo trazia a marca do seu sinal, in corpo.

         E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério;  E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando. E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?  Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra. E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra. Quando ouviram isto, redarguidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e a mulher que estava no meio. E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais.” (João 8:3-11)


            Movia o pó da terra, a função tempo. Freud, nos fala em pensamento manifesto e pensamento latente. Entre o ato e a palavra, já se passaram séculos. O pensamento se faz ato.
            E escreveu no chão:  o lugar mais próximo do homem é o coração.



  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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FREUD, Sigmund.  O Mal-estar na Cultura. Ed 1. Coleção L&PM Pocket.  São Paulo:  2010.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano Demasiado Humano, Um Livro para Espíritos Livres.Ed 1. Local: Coleção L&PM Pocket, São Paulo:  2010.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealigia da Moral, Uma Polêmica. Ed 1. Local: Coleção L&PM Pocket, São Paulo:  2010.

TEATRO: A CONSTRUÇÃO DO HUMANO NO PAVILHÃO DA LOUCURA - DENISE FRANÇA

Denise França
Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Produção Científica


Resumo

No pavilhão da loucura, o homem está à mercê de um constructo lógico forjado da necessidade social de separar, rotular, padronizar comportamentos.  No teatro, o homem produz uma possibilidade de relativizar os traumas humanos através de uma construção em nome da arte. Quando estes dois quadros se juntam, a vida adquire um outro formato, com plasticidade viva, o ser humano cria, tece em uma palheta de cores variadas. A orientação deste percurso através da loucura e do teatro nos indica outros meios e mecanismos para ressarcir ao louco o seu lugar e a sua propriedade dentro da sociedade e dentro dos variados discursos. Visitamos a obra de Antonio Quinet, Freud, Lacan, Foucault, Viola Spolin. Um artigo de  Nadja Cristiane Lappann Botti e Michele Cecília Silva Torrézio, falando sobre o Festival da Loucura em Barbacena, Minas Gerais, Brasil. Utilizando técnicas de improviso, espontaneidade, partitura corporal, este pavilhão da loucura torna-se um espaço de produção de sentido. Como resultado, a loucura cede ao desejo que a funda, suspende o espaço da instituição que se apropria dela, produz um outro espaço onde o modo humano encontra sua raiz na criação de um novo sujeito, devolvendo-lhe seu rosto submerso em trevas.

Palavras-chave: Teatro. Loucura; Partitura-corporal; Imagem.



Sommario

Nel padiglione della follia , l'uomo è in balia di un costrutto logico forgiato di bisogno sociale di separare, etichetta, uniformare i comportamenti. Nel teatro, l'uomo produce la possibilità di relativizzare il trauma umana attraverso un processo in nome dell'arte. Quando queste due tabelle sono unite, la vita prende un altro formato , con la plasticità in diretta, l'essere umano crea, tesse in una tavolozza di colori diversi. L'orientamento di questo viaggio attraverso la follia e il teatro ci mostra altri modi e mezzi per risarcire il posto pazzesco e le loro proprietà nella società e nei vari interventi. Abbiamo visitato l'opera di Antonio Quinet , Freud , Lacan , Foucault , Viola Spolin. Un articolo di Nadja Cristiane Lappann Botti e Michele Cecilia Silva Torrézio, parlando del Festival Madness in Barbacena, Minas Gerais, in Brasile. Utilizzando tecniche di improvvisazione, la spontaneità, il punteggio del corpo, questo flag di follia, diventa uno spazio di produzione significat. Di conseguenza, la follia concede il desiderio che la fionda, sospendendo lo spazio della istituzione che se ne appropria produce un altro spazio in cui il modo umano è radicata nella creazione di un nuovo soggetto, lui tornando la faccia immersa nelle tenebre .
Parole chiave: Teatro; Madness; Score - corpo ; Immagine .





Nos séculos que precedem a nossa contemporaneidade, observamos o universo dos fenômenos alucinatórios, delírios, automatismo mental, comportamentos curiosos e incompatíveis com a realidadade ordinária serem tratados como anomalias, até mesmo fenômenos demoníacos e serem rechaçados pela sociedade logo em seguida.
A construção do humano não se dá de maneira gratuita, sem nenhum esforço. A condição humana, o repertório humano é extremamente complexo. Imaginamos o ser humano, seu destino, suas vicissitudes e nos deparamos com grandes problemas, lacunas, processos pouco sanados, frustrações no que diz respeito às pesquisas nesta área.
O repertório científico é elaborado pelo pesquisador, sofrendo da mesma forma os seus revezes. Os paradigmas criados no âmbito científico tem um prazo de validade, os conceitos são reformulados, os aparelhos tecnológicos mudam a realidade de vida deste humano homem, gerando efeitos em seu próprio comportamento.
Desde os mais remotos tempos, a compreensão da humanidade não nos parece tranquila, o modus vivendi,a inter relação entre as pessoas se tornou caótica.
Segundo Antonio Quinet; “O ator como agente do ato, se dirige ao outro numa cena que faz laço. Todo ato é teatral. “Quem é você no momento do ato? Quem fala? A quem se dirige? Para quê?” Isso corresponde aos papéis que desempenhamos na vida, na relação com os outros – tema central das práticas teatrais.” A contrução e restituição deste sujeito, principalmente in corpo, é função desta prática, desta linguagem do teatro. O empenho do teatro em relação ao sujeito psicótico, desenvolvendo  práticas e jogos teatrais que produzam esta imago identificatória do sujeito.

Observamos o quanto os jogos, as dinâmicas do teatro, em sua linguagem e aplicação, produzem nesta esquize do psicótico, a constituição de sua imagem, enquanto sujeito e pertencente ao grupo social.

O interesse nesta pesquisa surgiu do estudo da Psicanálise, no que se refere á Psicose em específico, e dos instrumentos e ferramentas empregadas na tentativa de manutenção dentro das instituições psiquiátricas.
Ao contrário, a linguagem teatral propicia a produção de uma imago e  estabelece um laço social, lugar de pertença, orientação referente.
Existe um vasto repertório bibliográfico, centenas de autores entre psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, filósofos, educadores, falam sobre esta temática específica, a psicose. No entanto, escolhemos para o nosso objetivo, alguns autores.
Antonio Quinet, nasceu em 1951, no Rio de Janeiro, se formou em medicina, com especialização em psiquiatria. Foi para Paris, em 1979, onde se tornou membro da École de la cause Freudienne  . Voltou ao Brasil, em 1989, e participou de várias iniciativas, culminando na fundação da Escola Brasileira de Psicanálise do Campo Freudiano em 1995. Depois, enveredou pelo Teatro, como dramaturgo. Criando a Cia Inconsciente Em Cena. Fundada por Antonio Quinet em 2007 a Cia. Inconsciente em Cena cria e apresenta seus espetáculos baseados em pesquisas sobre a relação do teatro com a psicanálise junto ao Mestrado e ao Doutorado de Psicanálise, Saúde e Sociedade da UVA , com o objetivo de trazer ao grande público numa linguagem teatral as descobertas da psicanálise.
Umas das obras de Antonio Quinet, Psicose e laço social, discute a partir da obra de Freud,O mal-estar na civilização, o mal estar dos laços sociais, onde se erigem os quatro discursos, segundo a proposta do psicanalista Jacques Lacan: o discurso do mestre, o discurso do universitário, o discurso da histérica, o discurso do analista.
Segundo Quinet:

“A noção de representação vem do conceito de mimesis, de “A Poética”, de Aristóteles, que ele define como o próprio da arte: representar – e não imitar – a natureza. Quando vemos uma maçã num quadro, não está em questão se aquilo é ou não é uma “verdadeira” maçã. A representação artística é uma maneira de se expressar a verdade da maçã ou, no caso do teatro, de uma ação. O teatro é uma verdade feita de mentiras; a histeria é uma mentira feita de verdades. O teatro encontra a histeria ao nos propor um rompimento da barreira entre verdade e mentira, entre realidade e ficção, pois coloca ali no real do instante o sujeito-ator-personagem com suas contradições e paradoxos, fantasias e sonhos, histórias e estórias.” (QUINET, Artigo, O GLOBO, 2013)

            Segundo Lacan, “em relação ao simbólico, se o esquizofrênico se especifica por “não ter o socorro de nenhum discurso estabelecido”, no paranoico “o significante representa o sujeito para outro significante”, indicando-nos a tentativa do sujeito de se inserir num discurso como laço social.”
             Em O mal estar e a civilização, Freud nos deixou um importantíssimo legado sobre a cultura, a arte e as manifestações expressivas do humano como uma forma de manutenção do sujeito dentro desta sociedade e sua constante reivindicação de dar ordem a este não senso, através do seu ato, produzindo e reconstruindo uma história onde ele se autorize, seja autor, saindo assim da sua postura de objeto, desejo do outro, esquize.
            A foraclusão do nome-do-pai, nos casos de esquizofrenia, paranoia, melancolia, assim referida na obra de Lacan, indica a necessidade desse vetor e função dentro da estrutura humana, onde o sujeito possa advir, representar-se em lugar do abastecimento desta falta, deste significante que em sua ausência, promove a precariedade das relações.
            A sociedade contemporânea norteia uma demanda de apoio no ato de dominação que constitui o discurso em sua origem, os laços sociais se expressam no ato de governar e ser governado, educar e ser educado, no ato de se fazer desejar, o ato histérico, o ato espistêmico da ciência contemporânea, onde o saber é aquele que manda. “Imperativo epistemológico: ‘Não importa o que aconteça, continue avançando, continue trabalhando para o saber.’ (QUINET) Saber obedecer e saber produzir.
            Segundo Antonio Quinet , todo discurso é discurso de dominação. Em nossa civilização moderna, o mestre, o universitário e o capitalista. Não há como escapar deste laço senão pela produção de um outro discurso que cumpra a função de suspender esta demanda inicial do sujeito, dada pela sua própria existência, e produzir um outro significante, dentro desta cadeia simbólica. O teatro, a linguagem teatral, a formatação do personagem, a ficção, a produção de uma partitura corporal, especifica a possibilidade deste sujeito se inserir, estar presente, e se constituir em sua fala de outro modo.

            As instituições psiquiátricas atualmente, se deparam com essa inércia que vige neste sistema fechado, e observam a necessidade de outro tipo de suporte, na tentativa de amenizar o sofrimento destes indivíduos.  A demanda de recuperação de um sujeito dentro de uma instituição psiquiátrica requer toda uma estrutura, através de enfermeiros, terapeutas, psiquiatras, psicólogos, funcionários, e ainda assim, a manutenção deste sujeito não corresponde a um tratamento adequado.
            A familiarização com novas técnicas que se originam de uma orientação dentro do mundo artísitico, a prática da pintura, do artesanato, favorecem que este sujeito produza elementos significativos no caminho de sua “cura”. Observamos a imensa dificuldade inerente à estrutura psicótica, deste indivíduo se relacionar com o mundo ao seu redor e consigo mesmo. A consciência do seu próprio corpo, e a sua avaliação imagética se encontra prejudicada em decorrência desta fragilidade estrutural, e por isso, é necessário o trabalho com o corpo e a aproximação deste indivíduo com outros do mesmo grupo, do grupo com outros grupos. A diferença se produz em função desta interelação humana. O sujeito isolado, excluído, não produz qualquer tipo de tecido expressivo.
      O mal-estar na cultura se faz presente em todos os setores e todos os grupos sociais, embora percebamos que a tecnologia proporcionou um saber sobre o organismo humano, em seu funcionamento, esse mesmo organismo humano desconhece este funcionamento, no sentido de que a consciência de si mesmo se aparta daquilo que o corpo fabrica e produz como reação aos estímulos externos, e em relação aos acontecimentos que norteiam a vida deste indivíduo. O rechaço é uma característica deste sujeito dentro do núcleo social, em qualquer forma de estrutura, e em qualquer forma institucional. Isso se dá, no mundo moderno, a construção ordenada em torno de um vazio.
Essa esquize do sujeito permanece intacta em seu fundamento, se conecta com a realidade, produz ou tenta produzir elementos de assimilação, os significados, gera novos juízos de valoração, uma ordem para ser ingressa, mesmo assim este furo, o foracluído ocasiona toda espécie de sintomatologia, e inclusive, as somatizações perenes em nossa vida. A produção da ciência é o próprio vírus inoculado no espírito desta coletividade.
            Na esquizofrenia, o delírio persecutório, as alucinações, a melancolia, elementos do foracluído, o impossível, o não significável, a perda e o encontro com esse vazio tornou-se hoje, o sintoma de uma violência que se faz presente todos os dias, a violência é nossa agregada permanente. Freud em o Mal-estar na cultura, já estabelecia esta conexão com a ordem contemporânea, ou seja, a esquizofrenia, a paranoia, a melancolia, não seriam mais um quadro particular, delineado pela excelência de sua estrutura, mas a própria ordem estabelecida, na fronteira deste  homem proibido e manipulável, onde os efeitos da fala, o domínio e a submissão, a coerção o excluem do exercício de sua humanidade.

            Falamos de estruturas e sistemas, habitamos a linguagem, produzimos outro homem no lugar deste impossível, o real. Isto é um fato.
            Observamos outra autora, Viola Spolin, em sua obra Improvisação para o Teatro,ela rompe o silêncio dizendo: “Todas as pessoas são capazes de atuar no palco. Todas as pessoas são capazes de improvisar. “ O tempo, o espaço, e a ação. Atenhamo-nos à partitura corporal do esquizofrênico, atenhamo-nos à partitura corporal de um obsessivo, melancólico ou compulsivo... Não nos deixa mentir sobre essa consideração do signo presente no corpo do sujeito, enquanto um corpo isolado, construído. E o sintoma não é mais do que ISSO.
            O estranho, o corpo estranho fala, o sintoma é esse corpo inerte, insignificável que recobre a pele do sujeito, inominável talvez, mas presente e concreto no dia a dia. Produzindo seus efeitos, fornecendo a esta realidade coletiva um modo e uma especificadade de relação e relações.
            Voltamos a Freud, em o Mal estar na cultura:

“Toda renúncia ao instinto torna-se agora uma fonte dinâmica de consciência, e cada nova renúncia aumenta a severidade e a intolerância desta última. Se pudéssemos colocar isso mais em harmonia com o que já sabemos sobre a história da origem da consciência, ficaríamos tentados a defender a afirmativa paradoxal de que a consciência é o resultado da renúncia instintiva, ou que a renúncia instintiva (imposta a nós de fora) cria a consciência, a qual, então, exige mais renúncias instintivas. “


                A memória, a lembrança: o esquecimento é o efeito correlato de uma atitude do homem organizada a partir da coletividade. O espaço de produção, essa fissura lógica na construção de um saber, subntende que a expressão humana se volta para uma calterização deste rechaço e deste esquecimento.
            A consciência humana, portanto, ou pelo menos esta parca noção que temos sobre nós mesmos, subverte nossa natureza primária, da necessidade, criamos a insurreição do desejo. Esse lado obscuro que a psiquiatria não alcança, no que diz respeito às psicoses, o pode bem marcar e considerar a linguagem do teatro.  E porque a psiquiatria não o alcança, porque ela se estende na organicidade funcional deste corpo. A tentativa de promoção de uma alteridade neste sujeito, pela toxidade  da forma, O REMÉDIO E O RECEITUÁRIO CLÍNICO, se encontra também como resultado desta patologia ainda maior, fruto da relação deste sujeito psicótico com o médico, o sistema que o condiciona. 
            Toxidade da forma: e a natureza de toda droga, desde aquela droga que se atribuiu no início dos estudos de Freud, em A interpretação dos sonhos, o sonho dos sonhos, oSonho da Injeção de Irma, faz alusão a esse complexo que se estende a nossa contemporaneidade, como droga diluída à alma do sujeito.

“Dois anos antes de Lacan escrever sua tese sobre a paranoia, Dali define a paranoia crítica: ‘Uma atividade com tendência moral poderia ser provocada pela vontade violentamente paranoica de sistematizar a confusão. O fato mesmo da paranoia, especialmente a consideração do seu mecanismo como força e poder, conduz-nos às possibilidades de uma crise mental de ordem, talvez equivalente, mas, em todo caso, nas antípodas da crise a qual nos submete igualmente o fato da alucinação.” A “vontade violentamente paranoica de sistematizar a confusão” situa o delírio na paranoia, em oposição à alucinação, como um forte mecanismo mental. Dali continua: “Creio estar próximo o momento em que, por um processo de caráter paranoico e ativo do pensamento, será possível (simultaneamente ao automatismo e a outros estados passivos) sistematizar a confusão e contribuir ao descrédito total do mundo da realidade.” (QUINET, pg. 109)

            O delírio, a alucinação, o fenômeno psicótico e seus mecanismos, reencontrados sob esta perspectiva do espaço da cena, descobrem este avesso, a vontade de domínio, o silêncio coercitivo, as implicações da verdade testemunhada, não dita, identificada aos contornos e faces da expressividade.  A demarcação desse tempo remoto, o lapso do vazio emudecendo as bocas, o grito e o pânico , a ausência desta ordem,  o imperativo do gozo, constituem outro deslocamento do sujeito, numa agressividade construída e menos dilacerante. Verificamos com este trabalho o quanto neste sujeito existe uma possibilidade de se inserir e consequentemente produzir um referencial que o permita viver, quando o beneficiamos com as técnicas provenientes do teatro.

A REFORMA PSIQUIÁTRICA
            Em 1970, surge no Brasil, o Movimento de Trabalhadores em Saúde Mental, depois na década de 80, o movimento sanitarista, e só na década de 90 esses movimentos caminharam para as primeiras iniciativas no sentido de desinstitucionalização dos manicômios (Amarante, 1995). O processo de Reforma Psiquiátrica no Brasil vem acontecendo aos poucos, ainda existem resistências no sentido de manter tais instituições, mas hoje em dia, até mesmo as camadas da população mais carentes, até elas já começam a entender a “loucura”, as doenças mentais, de outra forma. Trata-se portanto de uma quebra de paradigma.
            Assim como Antonio Quinet identifica os discursos como estruturas sociais, e sua relação com o poder, assim também o faz Michel Foucault, em sua obra “Microfísica do poder”:
“Não se trata de libertar a verdade de todo sistema de poder − o que seria quimérico na medida em que a própria verdade é poder − mas de desvincular o poder da verdade das formas de hegemonia (sociais, econômicas, culturais) no interior das quais ela funciona no momento.”

“O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas
que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve−se considerá−lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir.”


          Outro belo trabalho foi realizado pelas alunas da Universidade Federal de São João Del Rei, Minas Gerais, Nadja Cristiane Lappann Botti e Michele Cecília Silva Torrézio:Festival da loucura e a dimensão sociocultural da Reforma Psiquiátrica. Neste artigo elas fazem uma exploração sobre as Instituições Psiquiátricas em sua origem, a instrumentação destas instituições e, posteriormente, descrevem o primeiro manicômio de Barbacena, suas condições, seu funcionamento, Esse artigo produzido por elas deixa bem claaro o quanto a problematização da loucura tem relação com o poder, assim como o demonstra Michel Foucault.
          Cada vez mais, observamos esse pensamento sobre o discurso institucional e o poder estar em pauta na pena dos intelectuais, na análise daqueles que se comprometem com a verdade e seus saberes.
          No artigo de Botti e Torrézio:
“Historicamente no país organiza-se no dia 18 e ao longo do mês de maio, o Dia da Luta Antimanicomial, com inúmeras atividades culturais, artísticas e científicas em várias cidades do país, com o objetivo de sensibilizar e envolver novos atores sociais para a questão (Pitta, 2011). Sabe-se que variadas produções artístico-culturais têm sido o palco da construção da nova relação entre a sociedade e a loucura, apontando para maior protagonismo dos sujeitos tradicionalmente limitados ao papel de doentes mentais e objetos do saber psiquiátrico (Basaglia, 2005).”

            Protagonismo este indicando maior auteridade, independência em relação a esses mecanismos de poder em torno do qual a sociedade se organiza. Outra vez, observamos a  necessidade de atualização dos conceitos, uma leitura mais autêntica acerca da realidade de vida de quem vive sob esse estigma da doença mental.
            E sem dúvida, coletamos os resultados desta mobilização que vem acontecendo já há algum tempo.  O psicótico e sua partitura corporal mostram signos  variados, a serem trabalhados e perpetuados dentro do espaço cênico. A atemporalidade da loucura nos adverte sobre o tempo deste véu que no impede de ver claramente. Foucault nos fala emHistória da Loucura:

         “O espírito do homem, em sua finitude, não é tanto uma fagulha da grande luz quanto um fragmento .de sombra. A verdade parcial e transitória da aparência não está aberta para sua inteligência limitada; sua loucura descobre apenas o avesso das coisas, seu lado noturno, a imediata contradição de sua verdade. Elevando-se até Deus, o homem não deve apenas superar a si mesmo, mas sim desgarrar-se completamente de sua essencial fraqueza, dominar de um salto a oposição entre as coisas do mundo e sua essência divina, pois o que transparece da verdade na aparência não é o reflexo dela, mas sua cruel contradição.”



         Lembramos também as considerações feitas por Freud acerca do inconsciente. Encontramos categorias próprias a este espaço,  uma dessas categorias se refere à antítese, ao par de opostos que não , a existência de um nega a existência do outro.
        E seguindo:

“Qual é esse ato? Ato de crença, ato de afirmação e de negação
— discurso que sustenta a imagem e ao mesmo tempo trabalha-a,
cava nela, estende-se ao longo de um raciocínio e organiza-a ao
redor de um segmento de linguagem. O homem que imagina ser de vidro não está louco, pois todo aquele que dorme pode ter essa
imagem num sonho. Mas será louco se, acreditando ser de vidro,
concluir que é frágil, que corre o risco de quebrar-se e que portanto não deve tocar em nenhum objeto demasiado resistente, que deve mesmo permanecer imóvel, etc..55 Este raciocínio é o de um louco, mas deve-se observar que, em si mesmo, não é nem absurdo nem ilógico. Pelo contrário, as figuras mais coercitivas da lógica estão, nele, corretamente aplicadas.” (FOUCAULT)


         No curso dessa pesquisa bibliográfica, contatamos com vários pontos de conexão entre um autor e outro, Confirmando nossos argumentos acerca da postura das instituições psiquiátricas no que diz respeito à loucura. A transformação dos conceitos ao longo do tempo, procurando estabelecer um nível de compatibilidade com a realidade histórica. Mudando gradativamente a formatação, atualizando lá onde se faz necessário um rigor lógico e conceitual, para que o sujeito dentro desta estrutura, não seja vítima do poder e do desmando daqueles que estabelecem leis coercitivas.
            Principalmente, fornecer a estes indivíduos novos instrumentos de produção do sentido, corpo e voz, a partitura corporal deles mesmos, a expressividade humana em sua riqueza e diferença. Essa plasticidade dos fenômenos psíquicos pode enriquecer o nosso repertório mimético: 
o idêntico. Os animais se camuflam para enganar ao predador. Ora são plantas, ora são folhas, e depois, saem deste recorte e deixam ali uma lição. Existe nessa esfera da sobrevivência, o campo e o limite. Algo a ultrapassar, quando o predador é o próprio homem.
            O teatro é esta pele, esta reentrância e esta fita moebiana por onde passam os filamentos das sensações mais sutis; E esse véu que se abre em asas para alçar um voo através da imaginação. O teatro perpetua os segredos da alma, as miragens da paixão, e nesse recuo ínfimo do silêncio e do aprisionamento da carne ao homem, do aturdito, esse mistério sublime se delineia mais uma vez.






  Referências


FOUCAULT, Michel. A Microfísica do Poder. 25ª Ed. São Paulo: Editora Record, 2014
FOUCAULT, Michel. História da loucura. São Paulo: Editora Perspectiva S.A.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na cultura. Porto Alegre: L&PM, 2010.
LACAN, Jacques. . O Seminário de Jacques Lacan,  Livro 3: As Psicoses. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda., 1988.
QUINET, Antonio. Psicose e laço socialesquizofrenia, paranoia e melancolia.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda., 2010.
SPOLIN, Viola. Improvisação para o Teatro . São Paulo: Perspectiva, 2005.
Botti, N. C. L. & Torrézio, M. C. S. (2014). Festival da loucura e a dimensão sociocultural da Reforma Psiquiátrica. Psicologia & Sociedade, 26(n. spe.), 212- 221.

LOUVAÇÃO DA NOITE - JORGE COLI

CURITIBA, 27 DE FEVEREIRO DE 2015.


“O historiador debruçado sobre o objeto artístico, tentando compreendê-lo.segundo diversas configurações históricas, poderá deparar-se com duas sensações imprecisas e frustrantes. A primeira, é a de um poço sem fundo; por menos que se ofereça a vazão às associações livres, por mais que se restrinja aos quadros de percepção de uma ou de outra época, rigorosos que sejam os parâmetros determinados para a análise, sobrará a convicção de que mesmo dentro dos limites impostos e escolhidos, a matéria examinada é instável e não se revela por inteiro. A segunda é de que sejam sutis fluídos e finos, os instrumentos abstratos empregados nesta tarefa, eles se mostrarão grotescos e desproporcionados diante do objeto fugacíssimo. Apreender a obra ou fazê-la, são artes que pressupõe o que depende do mistério, as certezas cientificistas de nosso tempo, os racionalismos poucos sábios, não toleram a ideia de que algo lhes escape, temem as trevas e creem na luz universal tão enganadoramente torva, entretanto é inútil excluir o mistério, ele está em nós e em torno de nós. E as obras de arte nos ensinam a dura tarefa a conviver com ele. A razão oferece etapas a serem compridas para o seu aprendizado, com o método não há porquê desesperarmos de atingir o universal. Entretanto, como descobrimos os caminhos do mistério? Não há método para tanto. No que precedeu, constatamos sensibilidades, intuições, emoções, atitudes, comportamentos, extasias, e quase uma estética. Não é possível prescindir nesses domínios do trabalho da razão, da busca metódica, da exatidão comparativa ou analítica. Eles esclarecem, situam, permitem que o pensamento não enverede pela indignidade do arbitrário. Revelam-se também como modos de frequentação. Está bem claro porém, que eles não substituem o legítimo contato. Os imperceptíveis vasos comunicantes entre cada um e a sinfonia, ou quadro, ou a estátua, ou o poema, estabelecem-se por meio da relação privilegiada capaz de criar ainda laços invisíveis entre os espectadores, ouvintes, leitores, de uma mesma obra: não exatamente os mesmos sentimentos, não os comportamentos unânimes, mas ligações complexas, possivelmente até emaranhadas e contraditórias. Com essa natureza específica, chegamos aqui ao centro de uma religioarte. No seu sentido mais precisamente etimológico. Os instrumentos racionais então se prestam como uma das maneiras, e dentre as mais elevadas, da aproximação. Desde que eles se encontrem submetidos ao principal: o humilíssimo servus. Assim como contemplador que se submete e se entrega às trevas insondáveis.”


domingo, 15 de fevereiro de 2015

PROFILAXIA EM RELAÇÃO À VERDADE - DENISE FRANÇA

CURITIBA, 15 DE FEVEREIRO DE 2014.




         Eis aqui outro vídeo colocado na internet, motivo de muitos comentários.
                Esse foi o instante onde o Camburão com os deputados entrou na Assembleia Legislativa do Paraná.
                O Delegado Franscischini foi afastado do carro por um manifestante....
                Assisti a esse vídeo e achei engraçado mesmo.... Mas há razões para isso. O manifestante afastou o Francischini do camburão. Não vi nenhuma atitude de agressividade em relação a esse Delegado. Se fosse para ser agressivo, teria no ato agredido diretamente. Ele foi até o Delegado e o afastou, impedindo-o de ter acesso ao Camburão.
                Eu estava lá esses três dias de greve, manifestação.  A APP SINDICATO E A CUT realizaram uma manifestação surpreendente, histórica, e muito bem organizada. Em nenhum momento, principalmente no momento crucial de tomada da Assembleia, os líderes deste sindicato, não atiçaram os professores para a violência, ou coisa do gênero. Muito pelo contrário. E todas as pessoas que estavam dentro da Assembleia, eram pessoas cadastradas, justamente para evitar infiltração de outras pessoas que pudessem incitar à violência.
                Nesse momento derradeiro, os líderes pediram que os professores não recuassem, entrassem, mas não jogassem nenhum objeto contra os policiais, só palavras de ordem. E foi o que os professores fizeram.
                Por isso mesmo, só houve relato de 3 pessoas machucadas.
                Fico pensando o seguinte, não dá para negociar a verdade, nem dá para rechaçar todo esse movimento, é impossível. 
                Cabe dizer mais uma vez:  os deputados eleitos pelo povo para representa-los na Assembleia, cumprem seus mandatos sem responsabilidade, sem saber o que estão fazendo, sem maturidade para isso.
                Eu estava conversando com duas mulheres que trabalham ali há mais de 20 anos, e as duas disseram a mesma coisa:   “eles se transformam.....”.  Eu perguntei a ela se as pessoas mudam depois que são eleitas e começam a exercer o cargo ali dentro.... E ela continuou: “mudam completamente....”.
                Ninguém precisa aqui ser um estudioso do comportamento humano, doutor em psiquiatria, psicologia, etc e tal, para perceber a coisa mais obvia do mundo. Essa manifestação, indica tudo isso.  A distância existente entre aquele que faz a legislação e aquele que sofre as consequências dos atos destes deputados.
                Essa distância entre o povo e aquilo que ali se executa, o comportamento e a atitude do Deputado, é óbvia. A manifestação tornou isso a coisa mais evidente:  os deputados se refugiaram no restaurante da Assembleia para dar continuidade à sessão. Tiveram medo do que ali estava acontecendo. Não estão preparados e nem tem maturidade para lidar com situações desta natureza. Diante do medo e do risco que sentiram, os deputados mais novos ficaram apavorados, temeram por suas vidas. Alguns insultaram o povo que ali estava, como se a manifestação do povo não fosse legítima.  Não dá para negociar a verdade, sinto muito.
                São omissões à fidedignidade da realidade do povo, saúde, educação, etc  e tal. Usam e abusam de sua autoridade, e se isso não bastasse, tem plena convicção de que possuem alguma espécie de poder sobre aqueles  que o elegeram. Usam a palavra poder de forma distorcida e  incomensuravelmente descabida. Não tem poder nenhum, estão iludidos acerca do que possa significar essa palavra “poder”. Mas se sentem poderosos ao longo do cumprimento dos seus mandatos, e em razão disso, projetam sobre o povo, atitudes e comportamentos de forma profilática.
                Criam uma distância em relação ao povo, se apartam da realidade, e esse vazio existente entre eles e aquilo que se passa na realidade ordinária de que cada pessoa, é ocupado e suplantado pela burocracia reinante. Burocracia que não é nada mais do que um adiantado estado de putrefação deste cadáver fabricado e produzido por eles mesmos e sua incompetência para exercer e representar o povo.
                Nessa manifestação eu senti isso:  o retorno: o poder volta para  quem o é de direito
                : O POVO. O poder emana do povo, a ele pertence. Qualquer outra formação secundária, arbitrária, já traz em sua natureza o sintoma de que o poder caduca em mãos de pessoas que não sabem administrar esta graça e esta fé.
                Essa distância, esta margem em relação ao povo, este “medo de tocar”, de se deparar com a verdade, de romper o segredo, tudo isso está VISÍVEL NESTA MANIFESTAÇÃO. Os muros, as grades, as barricadas, etc. são indícios, de que algo não anda bem.  E estou sendo boazinha, algo não está nada bem.
                Mas, a maior falta de vergonha em relação ao povo, que fere a dignidade de qualquer pessoa humana, extorquir aquilo que lhe é de direito, o salário, a previdência, os benefícios, para tapar um buraco  produzido e cultivado ao longo dos anos pelo capital desenfreado e selvagem.... o neoliberalismo.
                “Tudo vai mal?!  Tudo!!!”  E assim diz a música e esta é a letra. As medidas profiláticas em relação à verdade, não adiantam e não adiantarãoPORQUE NÃO DÁ PARA NEGOCIAR A VERDADE.


Ass.:  Denise França

           Aquela que tudo vê e tudo sabe.



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O ESTADO DO PARANÁ É O SEU POVO - DENISE FRANÇA

CURITIBA, 13 DE FEVEREIRO DE 2015.


MANIFESTAÇÃO DOS PROFESSORES DO ESTADO DO PARANÁ, APP SINDICATO E CUT.





DIA 12 DE FEVEREIRO DE 2015
INSTANTES ANTES DO CAMBURÃO ENTRAR NA 
ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO
ESTADO DO PARANÁ,
LEVANDO OS DEPUTADOS ESTADUAIS EM SEU INTERIOR.



MOMENTO HISTÓRICO! 



Os professores estavam sentados na frente  dos portões da Assembléia Legislativa do Paraná. A resistência foi pacífica durante o tempo todo desta manifestação.
O Governador deste Estado, Beto Richa, disse à imprensa que se tratava de baderneiros infiltrados.... Lêdo engano! Mas é compreensível porque o Governador não estava presente nesta manifestação dos professores, de forma que não sabe absolutamente nada do que ali se passava.

Todas as pessoas presentes nesta manifestação, professores, ou pessoas do povo, são unânimes em dizer: MANIFESTAÇÃO PACÍFICA E MUITO BEM ORGANIZADA.

Não podemos dizer o mesmo quanto aos Deputados e sua fuga para os subterrâneos da Assembléia na tentativa de realizar a sessão.... Fico imaginando esta "cena" como parte de um roteiro de  filme: digna de uma comédia hilariante.... Porque não esperamos essa atitude de uma personagem que representa o POVO.... Atitude completamente contraditória aquilo que imaginamos e pensamos para alguém que representa o povo de um Estado ou País.

Os professores a todo tempo se mostraram tranquilos, coerentes, solidários, unidos, sem nenhuma atitude que comprometesse a condição deles. A dignidade destes professores a todo tempo esteve presente.

MOMENTO POÉTICO.  Além de histórico, poético, porque eu estive ali à noite, no dia 11 de fevereiro, e pude contemplar as luzes da Praça Nossa Senhora Salete acenderem ao cair da noite, e nos jardins desta praça, as tendas onde os professores ficavam, os grupos conversando ao redor da esperança, o silêncio, as cigarras cantando, noite linda de PAZ E BEM!!!





Os professores estavam secos do sol escaldante durante esses dias, mas não deixavam a ternura da sua existência se esvair.... Observei pessoas de todas as idades, irem e virem, rodas de professores, lideranças organizadas, cidades do Paraná, camisetas coloridas, estandartes de vitória, coragem, vontade. Não havia tristeza mas persistência lúdica, a mesma persistência que acompanha a carreira vocacional destes seres.

E assim como eles se conduzem em suas vidas diárias, ali conduziram a manifestação legítima de suas reivindicações. 

A Assembléia Legislativa e seus representantes deveriam agradecer o PRIVILÉGIO DESTA OCUPAÇÃO DE PROFESSORES DO NOSSO ESTADO DO PARANÁ.  Nenhum constrangimento em receber milhares de professores nestes 3 dias de manifestação, deveríamos AGRADECER A PRESENÇA DESTES PROFESSORES!

O ESTADO DO PARANÁ NÃO É UMA ENTIDADE ALEATÓRIA. O ESTADO DO PARANÁ  É A FORMAÇÃO DA UNIDADE DO SEU POVO!

A todo momento, a PRAÇA NOSSA SENHORA DA SALETE recebeu em seus braços de mãe Maria, os pais, mães, educadores deste POVO. E em seu seio maternal foram discutidas as propostas e reivindicações, EXPRESSÃO E MANIFESTAÇÃO Á ALTURA DE UM EDUCADOR LEGÍTIMO, o PROFESSOR.

Aos líderes desta manifestação, APP E CUT, também minhas congratulações, porque organizaram a Greve destes professores com total coerência, responsabilidade, comprometimento e PRESENÇA. Os líderes estavam presentes a todo momento.

A DIFERENÇA ENTRE UM LÍDER LEGÍTIMO E UMA LIDERANÇA MENTIROSA É ESTA: A PRESENÇA DO LÍDER NO CAMPO DE BATALHA.

Os professores nos concederam esta "lição":  PRESENÇA EFETIVA, CORAGEM, PERSISTÊNCIA. Esta lição deveria ser repassada a esses DEPUTADOS, porque foram eles que se refugiaram nos subterrâneos da Assembléia. Foram eles que não mostraram seu rosto, sua face. Com exceção dos Deputados Solidários aos Professores. Estes estiveram presentes junto ao Povo, sem medo. 

A VERDADE É ASSIM:  Não adianta esconder, a verdade APARECE lá onde existe a contradição, a mentira, a insensatez, o abuso.... A VERDADE SE FAZ PRESENTE. Não é possível esconder, ou (se) esconder dela. 

Infelizmente, estes Deputados mostraram completa incapacidade para lidar com uma situação que exige calma, inteligência, compreensão, diplomacia, maturidade. O comportamento destes Deputados indica aquilo que eles pensam, aquilo que eles fazem em suas vidas privadas, e irão fazer no decorrer de sua carreira política....  

Quanto ao GOVERNADOR DO ESTADO DO PARANÁ, eu não tenho palavras para dizer o que sinto e o que percebo desde há muito tempo. O depoimento dele, totalmente incoerente, inábil para um governante.... E obviamente, não dá para esperar outra coisa de alguém que não se faz presente, de alguém que não sabe o que significa REPRESENTAÇÃO DO POVO, não sabe qual a diferença entre uma autoridade de fato e uma autoridade de direito.... Não, ele não sabe.  NÃO SABE FAZER. E possivelmente  sua arrogância e insensibilidade seguirão com ele ao longo de sua vida.

Quanto aos Policiais Militares que ali estiveram, cumpriram sua função, não usaram de violência, usaram a autoridade que cabe a eles, com inteligência, e foram solidários aos professores, estavam presentes nesta manifestação, conversavam com os professores, andavam pela praça, observavam as pessoas ali. Os policiais militares ficaram nestes 3 dias, sem descanso, em pé, e foram confortados por muitos professores, com comida, e diálogo.

MOMENTO DE GLÓRIA.  Dia 12 de fevereiro, às 14:34 horas.  Neste momento, os líderes da Greve pediram aos professores que se sentassem no chão, em frente aos portões da Assembléia Legislativa do Paraná, para impedir a entrada dos Deputados. E impedir assim a votação do pacote de maldades....

Os professores assim se colocaram. Todos sentados. E, inesperadamente, ouvi um estouro vindo detrás da Assembléia.  Logo após, a manifestação ficou conturbada, os professores se levantaram para saber o que estava acontecendo: um Camburão da Polícia, trazia em seu interior os Deputados apartados do bando, e entraram desta forma na Assembléia, junto à tropa de choque. 

Os líderes da manifestação pediram aos professores que não saíssem da Assembléia, não recuassem e ficassem ali, sem violência. Pediram aos policiais também, que mantivessem a paz.... Ouvi mais dois estouros. Eram bombas de lacrimogênio.... Os líderes pediram aos professores que não arremessassem qualquer objeto nos policiais, a não ser palavras de ordem.

 Grande parte dos professores ficou dentro da Assembleia, com coragem. E outra parte dos professores, subiu até o Palácio. E ficaram embaixo da marquise. Se anunciava a chuva.

O mais belo momento que tive o privilégio de assistir e participar. A hora em que os professores deram o passo derradeiro em direção à Assembléia Legislativa do Paraná.

Fosse a mão de Deus, a conceder-lhes resistência e coragem. A chuva começou a cair, e inesperadamente tornou-se forte junto ao vento. Eu vi a inclinação da rajada de vento e chuva junto aos professores, fosse a mão de  DEUS PRESENTE A DAR-LHES A DIREÇÃO. 

E assim foi. Um campo de batalha e de VITÓRIA!!!!

Logo depois que a Assembleia foi tomada, foi anunciada a suspensão da votação. E um grito de vitória se deu unanimemente em toda a PRAÇA, POR TODOS....

Depois, a chuva parou, e os ânimos foram ficando mais tranquilos. O PACOTE FOI RETIRADO!!!!!

ALEGRIA E VITÓRIA DE TODOS AQUELES QUE ESTAVAM ALI PRESENTES..... 

VITÓRIA DO POVO DO ESTADO DO PARANÁ. DESTES REPRESENTANTES DIGNOS DE ASSIM SER CHAMADOS, EDUCADORES DOS FILHOS DESTA NAÇÃO....




TENHO DITO E ASSINO EMBAIXO.

ASS.:  DENISE FRANÇA
          AQUELA QUE TUDO VÊ, E TUDO SABE.