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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

PALAVRAS DE BENTO

SOLENIDADE DO NATAL DO SENHOR



HOMILIA DO SANTO PADRE BENTO XVI



Basílica Vaticana

24 de Dezembro de 2009





Amados irmãos e irmãs,



«Um Menino nasceu para nós, um filho nos foi concedido» (Is 9, 5). Aquilo que Isaías, olhando de longe para o futuro, diz a Israel como consolação nas suas angústias e obscuridade, o Anjo, de quem emana uma nuvem de luz, anuncia-o aos pastores como presente: «Nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lc 2, 11). O Senhor está presente. Desde então, Deus é verdadeiramente um «Deus connosco». Já não é o Deus distante, que, através da criação e por meio da consciência, se pode de algum modo intuir de longe. Ele entrou no mundo. É o Vizinho. Disse-o Cristo ressuscitado aos Seus, a nós: «Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20). Nasceu para vós o Salvador: aquilo que o Anjo anunciou aos pastores, Deus no-lo recorda agora por meio do Evangelho e dos seus mensageiros. Trata-se de uma notícia que não nos pode deixar indiferentes. Se é verdadeira, mudou tudo. Se é verdadeira, diz respeito a mim também. Então, como os pastores, devo dizer também eu: Levantemo-nos, quero ir a Belém e ver a Palavra que aconteceu lá. Não é sem intuito que o Evangelho nos narra a história dos pastores. Estes mostram-nos o modo justo como responder àquela mensagem que nos é dirigida também a nós. Que nos dizem então estas primeiras testemunhas da encarnação de Deus?



A respeito dos pastores, diz-se em primeiro lugar que eram pessoas vigilantes e que a mensagem pôde chegar até eles precisamente porque estavam acordados. Nós temos de despertar, para que a mensagem chegue até nós. Devemos tornar-nos pessoas verdadeiramente vigilantes. Que significa isto? A diferença entre um que sonha e outro que está acordado consiste, antes de mais nada, no facto de aquele que sonha se encontrar num mundo particular. Ele está, com o seu eu, fechado neste mundo do sonho que é apenas dele e não o relaciona com os outros. Acordar significa sair desse mundo particular do eu e entrar na realidade comum, na única verdade que a todos une. O conflito no mondo, a recíproca inconciliabilidade derivam do facto de estarmos fechados nos nossos próprios interesses e opiniões pessoais, no nosso próprio e minúsculo mundo privado. O egoísmo, tanto do grupo como do indivíduo, mantém-nos prisioneiros dos nossos interesses e desejos, que contrastam com a verdade e dividem-nos uns dos outros. Acordai: diz-nos o Evangelho. Vinde para fora, a fim de entrar na grande verdade comum, na comunhão do único Deus. Acordar significa, portanto, desenvolver a sensibilidade para com Deus, para com os sinais silenciosos pelos quais Ele quer guiar-nos, para com os múltiplos indícios da sua presença. Há pessoas que se dizem «religiosamente desprovidas de ouvido musical». A capacidade de perceber Deus parece quase uma qualidade que é recusada a alguns. E, realmente, a nossa maneira de pensar e agir, a mentalidade do mundo actual, a gama das nossas diversas experiências parecem talhadas para reduzir a nossa sensibilidade a Deus, para nos tornar «desprovidos de ouvido musical» a respeito d'Ele. E todavia em cada alma está presente de maneira velada ou patente a expectativa de Deus, a capacidade de O encontrar. A fim de obter esta vigilância, este despertar para o essencial, queremos rezar, por nós mesmos e pelos outros, por quantos parecem ser «desprovidos deste ouvido musical» e contudo neles está vivo o desejo de que Deus Se manifeste. O grande teólogo Orígenes disse: Se eu tivesse a graça de ver como viu Paulo, poderia agora (durante a Liturgia) contemplar um falange imensa de Anjos (cf. In Lc 23, 9). De facto, na Liturgia sagrada, rodeiam-nos os Anjos de Deus e os Santos. O próprio Senhor está presente no meio de nós. Senhor, abri os olhos dos nossos corações, para nos tornarmos vigilantes e videntes e assim podermos estender a vossa proximidade também aos outros!



Voltemos ao Evangelho de Natal. Aí se narra que os pastores, depois de ter ouvido a mensagem do Anjo, disseram uns para os outros: «"Vamos até Belém" (…). Partiram então a toda a pressa» (Lc 2, 15s). «Apressaram-se» : diz, literalmente, o texto grego. O que lhes fora anunciado era tão importante que deviam ir imediatamente. Com efeito, o que lhes fora dito ultrapassava totalmente aquilo a que estavam habituados. Mudava o mundo. Nasceu o Salvador. O esperado Filho de David veio ao mundo na sua cidade. Que podia haver de mais importante? Impelia-os certamente a curiosidade, mas sobretudo o alvoroço pela realidade imensa que fora comunicada precisamente a eles, os pequenos e homens aparentemente irrelevantes. Apressaram-se… sem demora. Na nossa vida ordinária, as coisas não acontecem assim. A maioria dos homens não considera prioritárias as coisas de Deus. Estas não nos premem de forma imediata. E assim nós, na grande maioria, estamos prontos a adiá-las. Antes de tudo faz-se aquilo que se apresenta como urgente aqui e agora. No elenco das prioridades, Deus encontra-Se frequentemente quase no último lugar. Isto – pensa-se – poder-se-á realizar sempre. O Evangelho diz-nos: Deus tem a máxima prioridade. Se alguma coisa na nossa vida merece a nossa pressa sem demora, isso só pode ser a causa de Deus. Diz uma máxima da Regra de São Bento: «Nada antepor à obra de Deus (isto é, ao ofício divino)». Para os monges, a Liturgia é a primeira prioridade; tudo o mais vem depois. Mas, no seu núcleo, esta frase vale para todo o homem. Deus é importante, a realidade absolutamente mais importante da nossa vida. É precisamente esta prioridade que nos ensinam os pastores. Deles queremos aprender a não deixar-nos esmagar por todas as coisas urgentes da vida de cada dia. Deles queremos aprender a liberdade interior de colocar em segundo plano outras ocupações – por mais importantes que sejam – a fim de nos encaminharmos para Deus, a fim de O deixarmos entrar na nossa vida e no nosso tempo. O tempo empregue para Deus e, a partir d'Ele, para o próximo nunca é tempo perdido. É o tempo em que vivemos de verdade, em que vivemos o ser próprio de pessoas humanas.



Alguns comentadores observam como os primeiros que vieram ao pé de Jesus na manjedoura e puderam encontrar o Redentor do mundo foram os pastores, as almas simples. Os sábios vindos do Oriente, os representantes daqueles que possuem nível e nome chegaram muito mais tarde. E os comentadores acrescentam: O motivo é totalmente óbvio. De facto, os pastores habitavam perto. Não tinham de fazer mais nada senão «atravessar» (cf. Lc 2, 15), como se atravessa um breve espaço para ir ter com os vizinhos. Ao contrário, os sábios habitavam longe. Tinham de percorrer um caminho longo e difícil para chegar a Belém. E precisavam de guia e de orientação. Pois bem, hoje também existem almas simples e humildes que habitam muito perto do Senhor. São, por assim dizer, os seus vizinhos e podem facilmente ir ter com Ele. Mas a maior parte de nós, homens modernos, vive longe de Jesus Cristo, d'Aquele que Se fez homem, de Deus que veio para o nosso meio. Vivemos em filosofias, em negócios e ocupações que nos enchem totalmente e a partir dos quais o caminho para a manjedoura é muito longo. De variados modos e repetidamente, Deus tem de nos impelir e dar uma mão para podermos sair da enrodilhada dos nossos pensamentos e ocupações e encontrar o caminho para Ele. Mas há um caminho para todos. Para todos, o Senhor estabelece sinais adequados a cada um. Chama-nos a todos, para que nos seja possível também dizer: Levantemo-nos, «atravessemos» , vamos a Belém, até junto d'Aquele Deus que veio ao nosso encontro. Sim, Deus encaminhou-Se para nós. Sozinhos, não poderíamos chegar até Ele. O caminho supera as nossas forças. Mas Deus desceu. Vem ao nosso encontro. Percorreu a parte mais longa do caminho. Agora pede-nos: Vinde e vede quanto vos amo. Vinde e vede que Eu estou aqui. Transeamus usque Bethleem: diz a Bíblia latina. Atravessemos para o outro lado! Ultrapassemo- nos a nós mesmos! Façamo-nos viandantes rumo a Deus dos mais variados modos: sentindo-nos interiormente a caminho para Ele; mas também em caminhos muito concretos, como na Liturgia da Igreja, no serviço do próximo onde Cristo me espera.



Ouçamos uma vez mais directamente o Evangelho. Os pastores dizem uns aos outros o motivo por que se põem a caminho: «Vamos ver o que dizem ter sucedido». Literalmente o texto grego diz: «Vejamos esta Palavra, que lá aconteceu». Sim, aqui está a novidade desta noite: a Palavra pode ser vista, porque Se fez carne. Aquele Deus de quem não se deve fazer qualquer imagem, porque toda a imagem poderia apenas reduzi-Lo, antes desvirtuá-Lo, aquele Deus tornou-Se, Ele mesmo, visível n'Aquele que é a sua verdadeira imagem, como diz Paulo (cf. 2 Cor 4, 4; Col 1, 15). Na figura de Jesus Cristo, em todo o seu viver e operar, no seu morrer e ressuscitar, podemos ver a Palavra de Deus e, consequentemente, o próprio mistério do Deus vivo. Deus é assim. O Anjo dissera aos pastores: «Isto vos servirá de sinal: achareis um Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura» (Lc 2, 12; cf. 16). O sinal de Deus, o sinal que é dado aos pastores e a nós não é um milagre impressionante. O sinal de Deus é a sua humildade. O sinal de Deus é que Ele Se faz pequeno; torna-Se menino; deixa-Se tocar e pede o nosso amor. Quanto desejaríamos nós, homens, um sinal diverso, imponente, irrefutável do poder de Deus e da sua grandeza! Mas o seu sinal convida-nos à fé e ao amor e assim nos dá esperança: assim é Deus. Ele possui o poder e é a Bondade. Convida a tornarmo-nos semelhantes a Ele. Sim, tornamo-nos semelhantes a Deus, se nos deixarmos plasmar por este sinal; se aprendermos, nós mesmos, a humildade e deste modo a verdadeira grandeza; se renunciarmos à violência e usarmos apenas as armas da verdade e do amor. Orígenes, na linha de uma palavra de João Baptista, viu expressa a essência do paganismo no símbolo das pedras: paganismo é falta de sensibilidade, significa um coração de pedra, que é incapaz de amar e de perceber o amor de Deus. Orígenes diz a respeito dos pagãos: «Desprovidos de sentimento e de razão, transformam- se em pedras e madeira» (In Lc 22, 9). Mas Cristo quer dar-nos um coração de carne. Quando O vemos a Ele, ao Deus que Se tornou um menino, abre-se-nos o coração. Na Liturgia da Noite Santa, Deus vem até nós como homem, para nos tornarmos verdadeiramente humanos. Escutemos uma vez mais Orígenes: «Com efeito, de que te aproveitaria Cristo ter vindo uma vez na carne, se Ele não chegasse até à tua alma? Oremos para que venha diariamente a nós e possamos dizer: vivo, contundo já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim (Gal 2, 20)» (In Lc 22, 3).



Sim, por isto queremos rezar nesta Noite Santa. Senhor Jesus Cristo, Vós que nascestes em Belém, vinde a nós! Entrai em mim, na minha alma. Transformai- me. Renovai-me. Fazei que eu e todos nós, de pedra e madeira que somos, nos tornemos pessoas vivas, nas quais se torna presente o vosso amor e o mundo é transformado.







© Copyright 2009 - Libreria Editrice Vaticana



URBI ET ORBI

ANO 2010

Quero te amar, e posso te amar. EU TE AMO. EU TAMBEM TE AMO. So isso...

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A HORA DOS CAMELOS

Essas crianças mágicas que chegam a hora do Ângelus, com suas estruturas metálicas, puxando atrás de si armações de papelão, pequenos blocos estacionados aqui e acolá, ao redor do resto do dia, os picos de lixo.
São povos desérticos, são camelos de outrora. São fibras de couro, músculos esparsos, estendidos para a periferia das grandes cidades, em seu êxodo, em sua descoberta deste oásis residual, mecânico.
A hora dos camelos... De uma ponta a outra ponta, as pedras douradas de luz soletram a chegada do inverno, as folhas secas caem neste canteiro de uma cidade, o seu centro, a sua capela onde param esses anônimos, para entoar uma oração ao entulho. Fenômeno que pertence exclusivamente a raça humana.
Os camelos descansam, dormem, guardam... São a memória, o tempo de um outro relógio. Sem descanso, precipitados de matéria inerte, ficam isolados e aquecidos no inverno dessa metáfora poética dos fardos, fardos pesados, os carrinheiros, camelos do asfalto.
Um escudo ou uma couraça, tampões do cheiro acre, revelam para o mundo, ou para nada, a curtição no fundo das latas. Quando chegam ao cair da tarde, e se misturam ao povo, nesta avenida de lampiões e de costumes europeus, os camelos sonham, junto a tudo aquilo que carregam.
Conseguem carregar... Os seus sonhos são realizados em outro tempo, outro espaço. Poderiam procurar pela utopia, mas a utopia não os socorre.
Então, atentamente, através desta vidraça, aonde me leva o entusiasmo dessa realidade, vejo, deslumbro nesses movimentos, outros movimentos, meninas ginastas correm e saltam sobre esse tapete, afastam e diluem esses fardos, e ambas as realidades se confundem, se misturam, ultrapassam seu próprio prazo de assimilação.
Como entender a perfeição?

Em outra dimensão, cabe o perfeito. Escrever corretamente não me é perfeito. Falar corretamente não me é perfeito. Cumprir a etiqueta não me é perfeito. Seguir o protocolo não me é perfeito.
Há sobre mim um efeito da língua. A palavra que me chega quase incorreta, interiorana, a palavra mais humilde, ou até a palavra de baixo calão, esta palavra, posso dizer que eu a quero. Como a quero, a esta palavra, que serve minha humana parte, onde minha pele entende o seu ruído e propósito. Sensibiliza minha atenção, esta palavra caluda.
Nenhuma obra é tão certa quanto aquela, que se arrasta por uma dolorida causa e, a beira de precipitar-se, acha seu destino, entende sua glória. Mostra-se, não incorreta, mas cabível.
Um corpo sem glória, destituído de procura. Os calos e as feridas de um mendigo, chegam sem palavras, ou, contando todas as palavras, ao menos uma, ou sem nenhuma, sinto em dizer, é onde encontro o razoável insensato dos que se vestem com gravatas de seda, as que se apresentam mascaradas sob falsa arte, em públicos políticos do povo, sem nenhuma devoção e com as bocas repletas de vocábulos.
No chão de barro, as trincas do sertão. Até aquele momento perfeito, o mais esperado: um dia há de chover...



Denise França.

LIVRO 06: A ESFINGE - Exercício de Leitura da Obra de Clarice Lispector (Ano de 1998)

Prefácio: A ROSA DO NILO

A cada três anos, as margens do Rio Nilo, uma espécie de rosa tem ali seu renascer. Ela se distingue por ser uma espécie sem relação com as demais espécies. Diria ainda melhor, esta rosa caracteriza esse rio e por isso, é chamada Rosa do Nilo.
Essa rosa marca um mistério profundo, fecundo, desses mistérios que não encontram revelação. A Rosa do Nilo só pode ser colhida se seu colhedor tiver apetência para tanto, pois é ele que lhe dá seu nome. E dando tal nome, não é fácil de dar, a flor marca um florescimento anterior para ele e é só assim que a encontra em meio as demais.
Pois é de um encontro que se trata, respondendo por um chamado que vem de entoar o nome da Rosa de maneira a garantir-lhe a abertura e deparar-se com o traço onde é descoberto esse nome. Esse traço, no desenrolar desses três anos é inscrito como risco no corpo de tal colhedor. Esses três anos podem corresponder a décadas ou simplesmente a meses, dependendo da envergadura do sujeito para receber em reconhecimento o traço dela.
O traço da Rosa corresponde a uma formação que lhe é peculiar, como quando a imagem vista corresponde aquilo dela falado. Nesse sentido já ai entendamos que há uma Rosa do Nilo para cada um. Não se trata de individualismo, muito pelo contrário, apenas um modo de aproximação para cada um que tenha correspondido ao que dela emana. Pois não existe mais de um método para isso acontecer.
Existe antes um a menos que ai se coloca. Assim como se coloca uma derivada para cada operação.
Portanto é por procedência que se pode chegar até ela. De uma procedência incalculável... Daquelas que marcam a origem justamente pela inconveniência de ter de ler um enunciado milhares de vezes, deslocando a primeira pontuação a cada palavra, até aceder aquilo que a primeira frase afirmativa contestava nas demais.
De contestação afinal, a Rosa do Nilo anda cheia. Mas afinal, contestações que lhe são favoráveis. Pois o que mede em vista não são suas ações, mas o tributo dessas ações a um terceiro. Uma delas é de ninguém ter dito que haviam Rosas do Nilo, mesmo que soubessem. Enquanto procuram por rosas, perdem-se machucados nos espinhos. Há uma rosa, apenas uma, ainda que se falem de rosas. E se procurarem pelo lado fácil, o dos espinhos, não encontram traço algum. Pois o traço da rosa não tem nada a ver com o que dela emana, mas com o que lhe falta para ser e que constitui sua essência.
Falar muito não ajuda a achá-la, desvia a atenção. Ainda mais quando se comete a imprudência de falar a dois e os dois conversam a esse respeito. Com ela não há conversa e muito menos, conversa respeitosa. E é sem respeito que nós a tratamos e ela nos coloca tanta dificuldade. A Rosa do Nilo, saibamos, não diz respeito a ninguém. Por um nome se trata, porque muitos achados antes passaram por ser procurados. São muitos e poucos os escolhidos...
Se um retalho nos foi dado da procedência da rosa, foi dado a nós por procuração daqueles que ficaram sabendo. Sabendo ficaram, pelos efeitos da rosa sobre eles. São os efeitos que nos garantem sua existência. Efeitos familiares que servem para ser vistos, pois a mãe não reconhece no filho seus defeitos, antes que lhe insurjam como não tendo nada a ver com ela; mas influências é o que sempre dizem. Mas se falamos aqui em influências perniciosas da Rosa do Nilo, estaremos mentindo quanto ao status que ela poderia gozar diante de nós. Aliás, se em status falamos, jamais descobriremos seus efeitos verdadeiros. Colaterais. Pois sua verdade é a de nos apresentar os defeituosos esforços de uma inverdade dita insana para o Homem.
A Rosa do Nilo nos coloca diante de uma quarta hipótese, já que seu aparecimento está em via dos três. De ela ter sido cortada, pois o sujeito que a colheu pela primeira vez, colheu-as para si. Enganou-se redundamente, pois colher alguma coisa não acarreta em arrancar, mas em plantar. Perdeu-se em meias verdades. Planta-se trigo para colher, planta-se verde para colher maduro. Se ela foi cortada não estava ainda no seu tempo, não nos dava nenhuma garantia. Só se pode cortar algo que nos de garantia e mesmo assim a cortada, é ainda uma “sacada”. O sujeito a cortou por estar ela assim, sozinha, deve tê-la achado coitada. Imprudência sua, pois seu estatuto não é de ser sozinha, mas única. E coitada, de geração para geração, ficou pra que tivéssemos um álibi ao cometer esse mesmo ato, cortando-a também. Seu estatuto é sua estrutura. A Rosa do Nilo tem sua medida, antes de mais nada. Depois entendemos essa medida como sendo um pagamento. Paga-se o devido preço por obter sua visada. Obtém-se a visada atropelando-nos em cima de um monte e berrando, “olhe ela ali, nas margens do Nilo...”. E isso afinal é muito gozado, pois o Nilo passa a ser secundário então em relação a ela. Fica-se com certeza de que sua procedência verdadeira não é a do Nilo, não veio do Nilo. Veio sim da descoberta do Nilo, mas com ele não tem relação direta. Relação inversa caberia melhor aqui, por dizê-la.
Rosa que se veste para nós de seu revestimento tão mentiroso. Minto. Nós a vestimos, a travestimos embaixo dos cabelos de “nossas” mulheres. Uma coisa não tem a ver com outra e isso, é o que se pode pôr como conclusão. Tratar-se de outra coisa, não é a mesma coisa de maneira diferente como pensava. E é ver que o pensamento é coisa diversa do pensado, já dizia um colhedor da rosa: diferente e sempre vai ser assim que a pensemos, pois ela é denúncia dessa limitação. Que aparece como limite para nos introduzir em algo a mais desse limite. Como um ovo fechado. Quem já não sentiu, ao abrir um ovo, a sensação de desperdício? Desperdiçou-se ali a forma mesma do ovo, mas ao menos se teve a noção vivida dessa forma. Do contrário jamais saberíamos a respeito de seu exterior. Um exterior compacto, concentrado nele mesmo. Não confundir concentração com conteúdo: o conteúdo, como antes já falamos, está para a forma assim como o Nilo está para a rosa. Cometer um pecado ai é chegar a se sentir tapeado em alguma coisa.
Concentração portanto é ter uma direção lógica para algo já nascido, e que se mantém apartado. Sua concentração pode ficar como sendo ate obstáculo, chega-se ali e daí? E daí digo o que já me disseram, é que não posso dizer por não fazer parte dela. Ou não fazer parte do bando. Sou uma coitada nessa história dos coitados. E é nisso que a aproximação dela pode acontecer, pois um coitado é um pouco mais apartado do bando que os demais. Um coitado sem pena de ser coitado. Quem sente pena jamais se aproxima, é esquecido também, ainda faz parte de alguma geração. A geração faz a cria apenas, fica pondo ali sem saber nada do criado. Fica assim, criado-mudo, apenas servindo.
De depósito a Rosa do Nilo não tem nada, haja visto sua concentração. E é nisso que um saco-vazio não para em pé. Necessário, o saco-vazio, mas para encher bastante, no sentido de aporrinhar-se o suficiente. “Ficar de saco-cheio”, quem fica assim não produz nada, mas também não se desvia do bando. Quando de saco-cheio o sujeito só comete besteiras, das boas, e ai sua felicidade, felicitação, final na ação. Ação cometida por outro, onde ele se intromete, sem deixar nome. Se intromete ali, nos tropeços, faz causa, dos causos criados pela mente. O aporrinhado sai pela porta dos fundos sem querer saber de mais nada, sem se comprometer com o mal-estar alheio: se não se compromete, também não deixa o outro comprometido, com promessas.
O aporrinhado da Rosa-do-Nilo, seu defeito, é um (a)-porrinhado. Ele não volta, só faz, porque a comeu todinha.


A FREUD e sua descoberta do INCONSCIENTE... ANO de 1998.

Denise França.


Colégio Freudiano de Curitiba. .

A SEMENTE


Uma árvore é semente. Semente ainda que finita. Infinita árvore, de galhos infinitos.
Infinitas folhas, ainda que finitas.
Finitas estações.
Estações de chuva.
Estações de dia.
Um único dia, uma única noite.
Uma única noite num dia, há cem dias atrás.
Há cem dias numa única noite, nesta noite secular.
Falem-me de sentimentos, senhores, provoquem ou provem a existência de um único sentimento que seja. Não é que eles, os sentimentos, foram provocados?
Os sentimentos sentidos não são o menor dos sentimentos. Não são o menor dos sentidos. Que se lhe sintam a eles, os sentimentos, em cintura, para responder na forma dessa resposta.
Entanto resposta caluda ou calada. Resposta que acaso me ocorre escutar primeiro. Neste TERCEIRO, que no entanto é quarto, desse encarte, é o mais próximo que nos pode chegar.
Lacan, o mais próximo, ao menos um que o distinga o sentido, é este ao lado, outro sujeito.
Outro sujeito de fundo, outro sujeito de história, que pode menos contar, que pode menos ao ver-se. Ao ver-se-lhe este, que deste isto transcende, isto suposto ocorre neste efêmero.
Não me ocorre dizer letra que caiba. Letra que se ajuste a isso. Letra suspensa que decorre de um passado e se afirme neste limiar de um presente quase futuro. Mas ao modo deste futuro que apenso particular, é um gesto que deixa a essa presença, este ao menos um ao lado.
Ao menos um ladeado, lado a lado, quase amado. Quase ao pouco para amar, na aparência de qualquer outro sentimento.
Mas entanto parecido, não é igual. Jamais será ao lado igual a este. Embora este familiar e esquecido.
Agora que me lembro, não poderia esquecer. Mas esqueceste? Eis que este c’est. O que foi a tua semente, esqueceste?
Não me importa mais o que isto foi ou é. Mas que isto será. Mais que isto, só pode ser. E portanto e, para tanto, errar sem destino. Errar numa órbita ausente. Outra árvore, outro ramo.
Velozmente, Velloso... Sempre estranho, sempre antes a esse, outro sujeito deste ramo. Que fica nesta coluna, um segmento desta idade. E desta ida a l’una de outros tantos. Aluna desta lida sem descanso ao imprevisto.
Nossa conversa, nossa adversa, nostra palestra. A nós sempre adversa palavra que ao fundar um sentimento, um outro sentimento conhecido em aparência. A transferência. Ao acaso deste limite da lembrança, que não permite que sobre com eficiência, outra palavra. A que faz a diferença, a que esta ciência, a Psicanálise, procura.
O menor dos sentidos. Aquele que menos sente, cogita. Aquele que menos sente, o aprimora e provoca. PROVOCA.
Aquele, um dos mais recentes. Quanto ao que ressente, todos nos ressentimos. Um ressentimento que acaso guardas. Guardas um ressentimento numa idade, noutra idade provoca o mesmo ressentimento? Pra onde o estavas levando? Se o sentido que o sentimento procura ter se prende em aparência, não é de duvidar que a aparência desse sentimento seja outra. A aparência da culpa. Sentimento de culpa.
Há dois tipos de sentimento: os sentimentos produzidos e os sentimentos provocados. Alados...
Os sentimentos produzidos são os ressentimentos, dos quais toda fantasia tem sustentação. Os sentimentos provocados, dos quais a ironia é um modelo, se sustenta na idéia ou no pensamento. Se sustenta numa forma de raciocínio que invoca uma situação. Provocados, como a própria palavra diz: incitados, estimulados, e “vocar”, que significa colocar voz aonde não há ainda nenhum elemento de distanciamento .
Existiam os sátiros que censuravam ou criticavam um discurso de maneira chistosa. A ironia, no entanto, é um apelo a resposta do outro, resposta ao mesmo nível de raciocínio do sujeito. Freud era irônico, Lacan também era irônico. Os dois falavam e sustentavam um discurso do qual muito pouca gente tinha capacidade de responder ou manter uma dialética dentro daquele nível de raciocínio. Tanto isso era verdade que, ao serem escutados, produziam as mais diferentes reações no público. E, dos que ouviam, alguns se mantinham ali e continuavam e outros saiam e produziam pensamentos ou idéias. Porque ali, o que estava em causa era o Outro. E por ser assim, os que não escutavam, só poderiam produzir idéias e pensamentos, nada além disso, nada além daquilo que constitui o interesse humano em essência: valores objetivos.
“O objeto de interesse humano é o objeto do desejo do outro.” (LACAN, “As psicoses”, pg.50).
A religião transforma esses objetivos preliminares em valores espirituais. Onde se pretende que se possa encontra-los alem, sempre mais além e co - extensivamente ao sujeito.
Discordância fundamental: a história do Ego é uma, a história do Sujeito é outra. O SUJEITO não é aquele que conta. Aliás, não conta mesmo. Porque o Ego é um repositório de ilusões, e o sujeito sempre se encontra, alhures... Num vago sentimento, aquele sentimento passageiro... Aquele pequenino mal-estar.
Falem-me senhores, de acaso. Somos o acaso de um sentimento? As servas da emoção, as palavras que me destituem deste poder aonde meu mando é a loucura da escravidão. Falem-me de acaso, senhores. O ACASO não existe.

Colégio Freudiano de Curitiba – Associação Cultural Jacques Lacan.
ANO DE 1999.


Denise França.

ATALHO

O tempo perdido, o tempo passou, foi um desatino. No tacho lustroso da memória, perpassado de voltas, arre, escandido o espelho mostra. Não há mais bronze nem escudo, do que o escudo chapado no toque do pulso. Pois eu digo, quantas voltas eu dei para chegar aqui, nesse ponto. Se o tempo de repasse, foi o tempo perdido.
Valha-me DEUS, se as migalhas da miséria não se encontram ai, nesse atrelado do tempo, onde não volta o mesmo aquilo que se foi. Quando a gente sabe se chegou, o ponto sabido se parece com a memória. E olhando e vendo: me lembro, por aqui já passei, se a pegada é morna, dá a distância, presta para ver e antever.
Os olhos podem descobrir, coisa que se aprende depois de muito chão. Os olhos podem descobrir... Os olhos podem descobrir o falso ouro, companheiro, o desdito, aquilo mesmo de não vivido depois do tempo descasca, e aparece no fundo o ranço da mentira bruta.
A estrada mesmo se decompõe na urdidura, no faz faz dos anos idos. A estrada mesmo desaparece, quando a história toma outro rumo. O lampejo que se acende de uma prece ouvida, as vezes da uma outra condição de vida, e na dobra do caminho, a surpresa do encontro.
O descampado da visão, quando a estrada se estreita, e se acaba. Acabado rumo, feito o peito, um brejo essa desesperança. Mas o atalho urge, se achado é por força da desgraça ou por abandono mesmo.
Percebo aquele silêncio dentro de mim. Madrugada escura, a neblina tange o caminho. Se espaça a batida do coração, haja chegado o momento. De vis a vis, encontrar a face do meu destino, onde ela se apresenta feito mostrando um outro acordo, de uma outra sorte. Como se esse acordo estando ali, para uma outra natureza servisse.
Esbarra nessa impossibilidade. As patas do cavalo estacam, o arreio puxa, o bicho relincha, e as patas não arredam. E o peso que vem, todo peso, o animal percebe o sentido, existe outra força, a presença advertida que se levanta.
Nesse momento, nem seja por precaução do avisado da hora, mas por respeito a grandeza maior, descer do cavalo, segurar o arreio e conduzir o bicho. Tudo se espera, porque é crido o momento de atravessar.
No escuro, tocando o corrimão da própria sorte. Quando se ajunta a essa hora, o derradeiro. Os olhos podem descobrir. Descobrem o outro rumo, de igual passagem. Outra pessoa, no curso dessa estrada como em favor de um aviso. O tempo tem muitos modos, a fração de um instante, a luz que pisca, o vaga-lume está ali no seu ir, a sentença de um estado. O caminho nem sempre é a estrada, a estrada pode enganar, o rumo e enxergar a deriva do esperado.
Os olhos podem descobrir...



Denise França.

Devoção


No corrimão do sono, escolhido o caminho, o sono aparece depois que vai embora. No final da tarde, neste corrimão vejo deslizar a lembrança, saudade me dá você, a completude da tarde caída, rosa, laranja, azul.
Foi sempre bonito amar, querido. Vou te contar de que modo os amores foram, e esse outro ficou. E um outro amor a soma de todos.
Complica eu dizer onde estimo maior amor. Depois de ido, e já se foram todas as dores, mais favorece entender o sentimento limpo e desarmado. A vida, a marca que me afunda na alma o amado, desse amor eu faço resposta. Agora, quando olho o mesmo corrimão, o corrimão sacudido da memória, agora eu deixo partir, agora eu deixo ir.
Mas eu decido, decido sobre amar, amar mais, sem a razão do senso ou das regras, decido sobre amar pelo simples modo do amor: gostar do gosto da paixão, saborear a variedade do doce e do sal, até o amargo, o insosso.
Decido o caminho, a liberdade de meu bem. Meu bem, bem-amado. Bem-amado por direito, por uso, por posse, por toda palavra de amor dita, aberta, romântica, declarada, plena, profana, no tripé do corpo, do coração, do espírito.
E o ato de amor, comum e particular, simples e complexo. Ato de amor na demora e espera do conhecimento. Ato de amor de receber o que é dado, o que é negado. Entrega minha por todo o passo do tempo. Devoto o meu tempo, ao meu bem-amado eu encomprido. Se por regresso, recuperada a falta, a necessidade, o não-saber faz sentido. Se por partida, recebo todo fim e toda causa. Não é meu, senão meu bem-amado. Este contar, e este escutar, é só o que tenho, e tudo o que quero, por companhia da verdade de dar, dar mais e querer melhor ficar.
Meu bem-amado, recebo, como a coisa é surpresa, como a coisa é mesma variada e sortida. Recebo e me entrego por vontade, por desejo justo do amor. Tempo de um e tempo do outro, sem separação, sem critério de futuro, por devoção mesma de vida e refenda.
Já sabe o que do amor é sabido, meu homem. Falamos juntos essa língua dentro do quarto do nosso ato. Da nossa parte, sendo a mesma de cada um, a vida verdade. Os dois as vezes, muitas, um só. Muitas cores, sombras, estradas, gente, pensamentos, sensações, dores, passam. E é um trem, somos nós dois enroscados, encaixados neste vagão de um encontro por fatalidade de DEUS. Como se DEUS faltando, nos abrigasse em seu amor, o nosso. Eu te amando.
Uma página literária, escrevo todo dia a você por favor dessa sensação gostosa e delicada de viver ao seu lado, de viver e lembrar o teu toque, tua vontade, teu amor me fazendo. Lembrar, viver, querer o mais de uma outra vez...
Meu bem-amado. Uma carta, uma data, um dia, algum livro, quando eu já não estiver aqui. Provocar essa querência de amar, essa folha através do rodeio dos ventos, adoro te ver pensando o jeito de me descobrir melhor. No tripé dos galhos, depois da estação, depois da vida vivida, achar o ninho do nosso amor.

De todos os amores, o nosso, preferência. Nosso nicho de folhas, as que até aqui chegaram, as que atravessaram inclusive o nosso tempo de amar. Não se cansam de amar o amor.


Denise França.

EU, SOZINHA DE TUDO


Eu, sozinha de tudo, sozinha de resto. Me empresta a caminhada, já digo que a estrada percorrida foi. Se os outros mudam nosso caminho, posso dizer, alteram nossa resposta. Faço pensar por algum tipo de vida verdadeira, quando deixam na beirada depositado, depois de tudo terem feito e assomado nosso desgosto. Terem o prazer de ver nossos olhos úmidos, a lágrima derradeira, e o vinco da desgraça.
Essas almas sem espírito, esses vasos de vinagre, todos eles cheios até o bojo, a sombra mesma do homem , a gargalhada do fantoche sem rosto, esse solilóquio aberto e sem verdade que atiça toda a maldade, toda a crueldade, a desvalia do segmento desta cruz, a insensatez daquele que profana a vida.
A preguiça desses olhos sem fundo não enxerga, sequer reflete a luz. Não se aproximam do largo sorriso da amizade e nem da quentura do beijo apaixonado. Não tem as asas da criatividade. E vivem da imitação de um sentimento, porque mal sabem do amor . Vazios e tolos, imbecis e arrogantes, sórdidos e mesquinhos, egoístas e sem pátria, tal são os ídolos da fofoca e da inveja.
Sozinha de tudo, sozinha de resto.... As histórias são contadas, reflito a procedência, aparento descaso, encontro o personagem, um sentimento vai nascendo, do improviso vejo escutar o meu coração o caminho da história, por onde anda a vida de um ser humano. A brotação de um sentido, quando a aparência que vai entrando pela vista, encontra um modo de ficar, uma ruela de encontro.
Me arrebata a alma, o brilho dos teus olhos quando percebo neles a razão da tua procura... me arrebata a alma, essa clara criatura que nasce como resposta. Se todos soubessem, a vida a cada instante feito um milagre, se peita no provento dessa chama universal, a emoção no corpo da palavra, no ato realizado, na oportunidade criada.
Onde nasce os olhos de amanhã, senão naquela mesma planície... andando até o alto da montanha, a caminhada sozinha, a caminhada sempre sozinha, nesse particular do cuidado do compromisso firmado. Na caminhada carece o espírito desembainhado, no solilóquio a escutar o tropeço do peito...
No solado do pé já vão os ladrilhos da estrada, olha o pó no arrasto da estrada, qualquer possível neste terreno é mesmo a permanência e a persistência que faz. Faço ficar de vez ou para nunca mais o meu sorriso neste instante de uma tranqüila vontade em tua vida. Ai eu sinto, meu espírito tem paradeiro, tem a cobertura de uma sombra na quentura do sol, refresco de água, quando a sede me brota.
Continuo indo pela necessidade do movimento desta hora, chamada o paradeiro, a vida. Mas o meu ponteiro encontra o teu destino, quase sempre acontecendo naquele momento, o quase instante de ficar um pouco mais, e se estendendo nessa espera, do não sei o que, no virado da hora, encontrar o teu sorriso, lembrar ao te ver, essa primeira vez, o mais parecido de uma passagem do destino: tua imagem relembrada no apagado da indecisão, no apagado da memória.

Chegamos ao mesmo tempo, essa guia que me tranqüiliza na dificuldade da hora, o sentimento vai delimitando seus modos, vencendo a aspereza da inquietude, tornando sensível o incerto. Por isso precisa da outra mão, precisa se materializar nos olhos do outro, no gesto de aproximação, na boca beijada.
O outro pergunta no mesmo lugar da memória, o significado e o sentido. Ir de encontro a essa querência, lá onde impele a uma vontade maior, de encontrar os olhos, de procurar as mãos, querer e imaginar.
Sozinha de tudo, sozinha de resto, para saber onde está o descaminho onde a inveja é criada. Qual a separação maior, a do homem ou a de Deus. O resultado de esperar tanto tempo, e depois de tanto tempo, ainda assim, ver ninguém. Ver ninguém chegando, depois de tanta saudade, ver o rio se movendo, tudo indo, passando depois de ficar.
Como a chuva que termina de cair, a varredura do chão pelas águas. Continuo a caminhada, descobrindo e descortinando os arredores. A graça dos espíritos puros, o desconforto dos olhos que desconhecem o meu coração.
Vai meu bem querer, o amado mesmo, de todos o sempre próximo por aquele o meu peito querer matar a saudade. Depois de tanto passar, saber de que modo se nomeia a verdade e onde ela principia. E se acaba, onde a semelhança com uma parte de imaginação, onde a fantasia era crédito de futuro, onde mesmo essa forma do amado eterno se perdeu...
Em tantos outros, pode o mesmo beijo devolver a presença do amor por desatino? Acordo, acrescento ao pensamento as novidades, o cheiro de café, a água morna, o doce de abóbora, o aparentado familiar, lá bem longe o modo igual de servir a notícia, de principiar o dia. O espírito sobre o espírito, a sensação de pertencer ao dono do amor por um voto qualquer de compromisso.
Estou devolvendo o mesmo amor. Beijar os teus lábios, servir ao teu costume. Sentir o teu primeiro olhar desde onde a feitura do teu silêncio junto a esse caminho em mim, percorrendo o teu chão. No sentido de viver, o sentido de ficar. A permanência de um jeito de ser, único, inconfundível, para sempre. Transformar as paredes e ruelas do sentimento. Por que o ser humano fabrica tanta derrota? Não produz a novidade, não abre os olhos e enxerga o caminho do amor?
Meu corpo sente o contato da graça, do vento, da tua passagem beirando minha pele como um toque. Meu corpo sabe a beirada da tua vontade, descobre a madrugada, sente onde é o teu começo e o teu fim. O teu corpo e o meu juntos, tem cantos, precipícios, substância, calor e resgate.
Permanência de todos os amores na estrada, a lembrança aquieta a dor da saudade, da desilusão, aquieta e vai se amoldando num possível, todos gravados na memória, tem significado e um nome. Qualquer um que vai, que provoca a desistência dentro do teu sorriso, do teu querer, é mais então quando me sobra esse resto e eu posso dizer que te amo amado, mesmo não alcançando a tua mão aberta, sequer ela estando repousada sobre o meu colo. Eu te dou o mesmo amor, por recusa dos outros, o mesmo amor te devolvo e entrego com o meu sorriso que brota feito eu te devolver depois do adeus, o gosto do beijo, te puxar para junto do meu corpo e te abraçar, e desejar naquele instante ou momento que faltou, toda a vontade como se um dia eu estivesse deitada no chão desta procura e você tornasse a olhar mais uma vez, onde teu desejo se completou no meu corpo. Se realizou na minha vontade.


Denise França.

RAPOSEIRA

Nenhuma.
Nhauuma.
NITIOMBAE QUE.
UPITA ( ) COBAIAN RECE AUARA...


Eu barro...
Eu esbarro no amor. Quando o amado se transforma em amante. O rabo da raposa do amor é um trecho. A natureza menos o rabo.
Um trecho de barro, escorre o amante. O ex-pouso despoja a raposa do seu rabo. Menos ao fim, mais ao seu ato.
A raposa cai em seu trecho, caem as contas de seu expulso. As miçangas de seu rabo correm pelo trecho.
O estardalhaço acorda sua raposeira. A roseira de sua astúcia roça no endereço. Nesse endereço, todos os esbarros de seu focinho.
Provoca o espirro de seu giro em torno do rabo-a-menos. Menos ao fim, mais ao seu ato. Sua rata antecede o trecho onde barra a miçanga de sua ata.
O focinho zangado de sua escuta. Atura? Não atura, mordisca a casca do ovo, ao fel. Mordisca junto a língua e cospe. Está no cio da terra. Até desquita no rabo do fel do outro.
Atirada que só ela, mergulha no rio de través, vai de retro! Sobe o focinho a superfície, todas as pragas do pelo emergem. Carrapatos sem cara, carrapatos apáticos, cara-phatos que cruzam e se reproduzem. Menos ao fim, mais ao seu ato, menos ao rabo.
Ex-colado, seu focinho. Seu focinho descolado e deslocado, tem atrito com a pele. A pelve da pele vai até o osso do focinho e desentope o espirro do cheiro.
O faro percebe, percebe a torto e a direito. O gosto de seu focinho tem estilo. O estilo sobre as uvas, o estilo que amadurece mas não apodrece. Logo o gosto do focinho dela vai de época em época, depura como vinho. As vezes anoitece, mas o vinagre do focinho da raposa é a sua raridade.
Nem tanto ao rabo, mais alfarrábio. Nem tanto ao fim, mais ao seu ato. Este é um trecho da natureza real da raposa, fica aqui. Podem disputar o rabo-a-menos que deixou dela.


a Helvídio de Castro Velloso Neto, Psicanalista.


Denise França.

TEMPO DE ESPERA

Eu e você, nascemos neste mesmo dia...

Nascemos outra vez, no instante do nosso amor. Fecho os olhos, eu sei que você está em outro lugar, outra cidade. Outra pessoa no meu lugar, não teimaria, não teria essa mesma funda coragem. Por causa disso, sou eu que espero a sua volta. Sou eu que sei envolver todo o tempo de espera, nesta saudade, e me servir dele. O tempo de espera nos chama, aos dois, a ocupar um outro espaço. As vezes, nós somos anjos que se encontram no sonho, somos transeuntes que se encontram na madrugada, somos a descoberta de um novo corpo quando nos tocamos. Somos testemunhas de nós mesmos. Nossa sensibilidade nos devolve todo calor, todo desejo, nós tocamos o nosso abraço, beijamos o nosso beijo, trançamos nossas pernas a esse nó acabado do cansaço quando temos um ao outro, e sabemos que esse mesmo nó há de ser outro, em outra vez. Não cansamos de amar.
Até onde a gente vai?!
Outra cidade, outro lugar. No meu movimento, alinho o teu destino. E você escreve por mim essas linhas. O cheiro do teu suor, tua respiração, teu gosto, o forte apego do teu abraço me devolve uma outra vida.
A cada um, eu poderia amar você, até encontrar a carência do outro. A mentira não faz parte do amor, a mentira não cabe no espelho da palma das nossas mãos unidas. No rosto que avisa a hora onde entregamos esse instante: nossa resposta. Teu corpo chega até minha alma, minha alma habita o teu corpo.
Até onde, neste fundo universo de mim, encontro a tua intimidade. Eu preciso, mais uma vez, preciso de você para me servir. Nessa vida onde amamos um ao outro, somos nômades. Trazemos a nós mesmos todo o sofrimento, dor, injustiça alheia, e chegamos a nos bastar. Consolados na freqüência com que amamos os outros por nós mesmos. Não seria suficiente, se fosse outra coisa. O nosso amor, por nós assim visitado, basta dizer, é amor demais, é todo amor, é afago no eterno. Não cansamos de amar.


Denise França.

O Capitão do Mar


Assoberbei. Quanta estranheza sendo único, eu mesmo. Outra vez amanhã, me olham não vendo, fosse eu nascido assim, para sempre os demais procurado, qual a razão deste destino.
Qual a razão deste destino. O capitão do mar, sendo o mar mesmo, a ponta do mar lá longe, uma vara fina de fim de vez, de nunca mais. Que doideira dá na alma, olhando o horizonte do mar, o sentimento ficando na lonjura deste ponto, uma ilhota, Ilha das Cobras, volta com a cota da saudade. O mar sabe que acabou, que tudo é esta linha firme de busca, e de distância.
O mar sabe. Que a falta de chegar não se acaba e a luta com a dor da saudade se estende neste tapete e se enrola de onda e chega fininha na praia que traz, de muita valia, um gosto salgado.
Assoberbado, com tanta água, invólucro de fundura, mergulha dentro do meu sentimento e traz uma notícia a beira da praia.
Assoberbado, nesta beirada, mergulha. As águas se chocam com as paredes de pedra, lavam, serpenteiam e voltam. Misturado, todo sentimento. Misturado com mais alguém, o sentimento é conhecido. Sozinho, o sentimento se abre até latejar, dá saudade, muita saudade, volta, encosta, dá angústia. Eu te deixei por nada...
Pode ir embora! Pra toda vida, pode não voltar mais. Eu mais espero que o meu amor se vá, de vez. Eu mais espero que não volte pra me machucar. Outra vez já não acredito.
Impertinente como as ondas, teimosa como tudo. Reabro, perdida de contar as vezes, o quanto tenho amado, provocado este sentimento em quem não o sabe sentir. A fundura de enxergar o mais possível, a variação da luz na superfície. Queria ver outra vez, pra nortear meu pensamento com o teu rosto de homem. Homem sendo. Nunca canso de imaginar a tua voz, o teu sorriso. A fundura de enxergar o mais possível, a tua encosta que recebe a minha vontade. Por voto, tenho amado sozinha e dado de mim até o mesmo sentimento como se houvera sido entregue a dois.
Quando amo, não respondo a nada. Se nadando até o fim, houvesse outro fim, reabriria um outro mar. Encontraria salvo, em algum lugar, a água de uma cascata e, escondido nela, o curso do teu rio. Quando amo para outro mar, ando na deriva do meu ser e sou aquilo que amo.
Sou aquilo que amo. O mar em sua forma material veste esse significado de seu criador: todo o orgulho de DEUS. Sou aquilo que amo. O mar, firmamento dissolvido em lençol transparente, esteira do infinito que se desembrulha, tangendo o céu do imaterial desejo de eternidade.
Sou aquilo que amo, meu orgulho. Movimento esta pulsação, escuto o teu coração bater. Tua respiração, o cheiro de tua pele. Sou aquilo que amo desde o início até o fim, o alfa e o Omega, a valência dos meus dias sobre este raio que circunscreve a terra: N A O.
Sobre este nada absoluto, edifico toda a certeza do meu amor: N A O.
Minha resolução acompanha o teu nascimento. Tudo e nada, abismo para dentro, abismo para fora. Forquilha que aglutina o ser e a falta-a-ser. Onde cabe o início desse veto que solda o corpo neste chão para sempre. Por esse corpo ter o seu estado e o seu pé. N A O. Letra.
Fui até o outro lado, o outro lado esteve comigo. Pertença dos pobres. Neste sítio de pescadores, Matinhos, vejo as canoas lado a lado, a cintura das canoas, cada cor uma extensão ocupada no mar. Os territórios e os sítios do mar são cavalgados pela coragem desses meninos caiçaras. Eles descobrem a sua hombridade e coragem em cada pedaço de se abrir o mar agora para lhes obedecer não obedecendo.
Respeito os homens de lá, os que trabalham. As gaivotas como estes homens, pousadas no chão, olhavam qualquer coisa de parecido e amigável. Entre eu e eles, a minha memória. Do mar vendo de longe como se ali alguém houvesse dito o meu nome para que agora eu ali estivesse. Desocupando uma das canoas, carpindo o mar deste sentido que só o pescador sabe.
Desta cortina de garoa, o meu amor tem vontade. O mar sabe, deve acordar a miudeza do infinito, neste grão de areia. A miudeza do infinito se descobre quando a sensação nos avisa o momento certo, onde começa, onde termina, onde se encontra acabado. A sensação nos avisa que a nossa presença naquele instante cabe no pensamento de mais alguém. Por ali também passou e firmou este pensamento e este compromisso. O arco-íris me alcançou ali, onde havia esta presença. Inaugurou e me aproximou, me colocou dentro deste sentido. Eu, o arco-íris, o mar, o pescador, DEUS. Uma unidade de tempo.
A unidade, ligação por excelência. A sensação, vínculo de presença. Também fui criança em Guaratuba, criança amando um outro lugar, longe de casa, criança amando e querendo ali morar, neste mar mesmo, o mar e a criança sendo. Agora sendo um, unidade.
Nem sempre, ou, quase em todos os casos, o sexo não conduz a esse vínculo de aproximação. Hoje, não em minha época, onde eu vivo e onde eu estou, o sexo traz ao mesmo tempo e ao mesmo lugar, a outra pessoa. O sexo é isso. A trepação a que estão submissas pessoas isoladas não se encontram nesta linha ocupando o mesmo lugar, hoje. Por isso passam, passa o instante, não se torna lembrança, e nem alcança o número, porque não conta. A conta se conta a partir do que dela se furta. Ao menos um, este não passa, aumenta a série.
Por isso, eu conto, conto história e dela não me furto, porque não minto. E conto com você.
A criança em Guaratuba, a sensação, o cheiro do mar, a areia macia, a gruta da Bica da Santa, a água. Olhava ali aquele sítio, não via ninguém. Não via outras crianças. Tinha pena daquelas meninas que eu via sem ver, e me diziam que eram prometidas a DEUS. Eu tinha pena de mim e pena delas, porque eu não as via brincando. E para mim, elas estavam sozinhas sem mãe, sem a Nossa Senhora. O que me dava então, medo de pisar em alguma cobra, quando andava na Bica sozinha. A Bica da SANTA.
O sexo conduz a isso. Nem as santas se furtam ao sexo. A santidade nos conduz a isso, a sensação de pertença, da presença neste lugar, do tempo compreendido nessa partilha. Aquele tempo, esse tempo, presença efetiva. Eu sei que vou te amar...



Denise França.

QUANDO TODOS DORMEM


O espírito precisa da palavra. Carece. Para que eu amasse, era preciso que eu visse. Para que eu chegasse a ver, era preciso que na minha vontade houvesse uma distância. Nem toda a distância é toda distância. Ainda falta para eu chegar até você.
O espírito das águas reclama e retumba, como o fundo de um tambor. A tua proximidade provoca o meu corpo e me acalma. A respiração de um pulmão, meu alívio sempre chega até as terras desse mundo.
Um aqui e outro acolá, o Brasil nesse mar e o mundo, você e eu. Antes que houvessem todos os outros, havia um, em algum canto, perdido para todos, esquecido ou ao menos, sozinho. O abrigo que agasalha esse manto, é onde eu estou quando piso este chão.
A natureza dá toda a proteção. Cuida. Não sei se o homem nasceu sem natureza. Sem a naturalidade das árvores, dos bichos, o homem se desenvolve sem naturalidade, embrutecido. Nem os macacos conseguem ser assim tão embrutecidos.
O homem é um magno na dor de sua solidão. Com todos em um mundo, com todos em uma cidade, com todos em um quarto, com todos sem a sua mulher. O que funda o homem, neste pais natural, é o amor ou, terem lhe envaidecido nessa clausura humana. Independente da vontade de DEUS, o homem nasceu e DEUS se compadeceu deste acidente e amou com ternura sua solidão a ponto de dar-lhes esta reserva substancial: seus filhos, os filhos dos filhos, a perpetuação de todos eles, os seres em espécie.
Independente da vontade de DEUS, os homens podem acabar sozinhos. Realmente sozinhos, se dizimando, dizimando seus povos e ancestrais. Independente da vontade de DEUS. Independente da vontade dos homens, uma vez mais a natureza se construirá sozinha, por esse processo natural e infinitamente harmônico.
A cidade está dormindo. O dia está nascendo, a cidade está dormindo. CAIOBA. Acordo o que em mim está adormecido. O que nasce com o dia quando os homens acordam? Um sentido, uma direção fronteiriça aquilo que eles vêem. Não há modo ou maneira de encaixar o homem dentro da natureza. A natureza não pertence ao homem.
Esse grande espelho de luz nasce com o dia e sobre uma cidade, o que acorda com o homem, com ele dorme ao lado.
O artifício e o artificial. O suplantado da costela de Adão. Da costela de Adão muitas coisas foram feitas. A mulher, o suplemento. Até mesmo aqui, um galo canta. Neste sítio de mar, o galo canta onde uma mulher espera. Para sempre, levá-la consigo ele espera e quer.
Talvez o mar volte a reinar neste desabrigo dos amores, grandes amores, e se verifique uma verdade neste grande manto verde.
Você viu, os teus olhos viram. Os olhos abertos descobrem as mesmas pupilas. Ocupam o lugar da minha alegria. Neste quadro por onde passou o carinho das tuas mãos, o pintor e sua tela adormecem nestas areias e nestes mercados... Nesta ceia não assim tão farta.
Nestas areias e nestes mercados, meu DEUS, “Como eu gostaria de ser a tua mulher”. O amor faz o amor que me causa, faça desse mundo a sua transcendência. A reconstrução da natureza em outra coisa. Por isso, ser tua não sendo, e ser tua mulher não sendo somente tua a tua solidão, mas também minha. Eu quero. Nenhum passado pode atravessar este desejo em algo que não se completou. O meu querer está acabado, encerrado e realizado agora. Gozo este fim, alcanço e ultrapasso a minha vontade.
Ultrapasso, como todo amor sabe reinar em outras terras. Nativa nesta atmosfera submersa, este sítio tropical engravida as águas submersas num mergulho azul, o céu dos coqueiros, o véu das ondas recuperando a lisura das pedras, tudo o que há, sendo visto, está em mim, comigo e para mim. O sal torna a superfície da pele, prepara e reveste-a de uma nova sensação. O desejo intimo de ficar.
Esse é o meu lugar. Quando tudo não retorna e o mundo se cala. Muitos mais passearão por aqui e travestidos de falsa esperança, continuarão a violar o verde deste sítio marinho, violando e depois fugindo. Esquecidos, cansados e adormecidos, a turba de solitários isolados e decadentes.
Depois, muito tempo depois, uma pequena gaivota será esta têmpera da superfície da areia, nada se vendo senão o mar, o silêncio e um pescador. Estarei sempre aqui com você, abraçada a seu corpo, sendo fecundada por esse mistério para sempre velado entre a natureza e o homem.
Neste tempo, a seu tempo, dizer, eu estou te amando. Eu estou te amando, essa centelha de luz, essa incandescência que vem subindo do horizonte na linha do mar e faz seu reflexo presidir nas pastilhas dos edifícios.
Eu estou te amando é o tempo que o mar conhece. O arremesso do desejo, quantas vezes foram necessárias, nas paredes de pedra. O tempo calcifica essa lembrança como as pinturas rupestres nas paredes de uma caverna. E, depois desse tempo, quando aqui eu não mais estiver, alguns descobrirão este sítio e, para decifrar esse enigma do amor, terão que deixar, do mesmo modo, os vínculos que revestem o medo. E acreditar, do mesmo modo, na eternidade desse beijo.

EU ESTOU TE AMANDO.


Denise França.

UMA OITAVA


Não é o fim de uma estação... Todas as memórias são curtas quando não se viveu um amor. Quantos sítios foram visitados, quantas arroubas de chão, e nenhum amor. Nenhum ao mesmo precisado. A cautela do sonho o transformou, e o realizou.
Eu fiz isso, fiz mesmo, inclusive precisei mudar e transformar a linguagem, a medida que fosse aparecendo, outra forma de vida, vivência, convivência. Eu fiz isso, fui procurar o início, o meio e o final de um grande amor, até alçá-lo a esse costume moderno de ficar. Eu fui e ultrapassei as cercas dessa vida, mudei os costumes...
Acerca de mim, posso dizer, amo tanto e de tanto amar, crio um precioso momento de enlevo e não me acostumo ao mesmo amor, chego até o verdadeiro. Que aos oitavas todas sejam adicionadas a esse sentir, a esse silêncio das palavras exauridas, procuradas, quase achadas, mas cuidadosamente demonstradas nos beijos realmente dados, nas mãos que ficaram em meu corpo, nos abraços de despedida, naquele sorriso lindo ao te encontrar.
Acerca de mim, não abro para outro apreço. Até desvalorizo as clarividências, os futuros regrados de rotina, ao apelo que recebo dessa possibilidade de um grande amor. Basta dizer, qualquer canto de mim lembra-se de ontem, sonha com o amanhã, se resolve hoje na contestação da miséria, da injustiça. Qualquer outro momento, na vida de quem foi, se esquece de mim.
Para me encontrar a um grande amor, ajusto meu horário até a derradeira hora, a hora onde se cumpre o desejo. Eu digo a verdade. Por sobre a minha simples vida, existe o amor maior. Que eu o reparo, aos poucos, vou sentindo que chega e me espera. Sei que existe, pode ser até na vida de outrem, mas eu admiro essa substância primeira do olhar, a descoberta do outro.
Saiba, acerca de mim, posso partir, posso chorar, posso sorrir, e todos os sentimentos creditados em meu espírito, até onde foram, foram apenas o início da minha paixão. Basta dizer que o universo não tem fundo, mas a minha fé o coloca neste olhar, nesta suspensão da fala, onde me algema a tua alma, e soçobra em mim a tua secura.
Eu acredito no amor. Não sei de homens pagãos, mas de homens cristãos, heróis, homens de coragem, homens de romance, homens de compromisso. Acre-dito que as vezes me deixa a margem de uma vida social arbitrária e comum. As penas do amor, viver para sempre, imortalizar um momento, alterar a direção de um destino, transformar uma geração, acalentar mendigos, vestir a miséria com a nobreza de um espírito livre. As penas de um amor: viver sem ele, quando todos vivem as sobras dele.
Através do corpo, passam muitos sentimentos alheios. Aliás, passam escondidos, na madrugada passam, como se atravessassem a fronteira a procura de salvação. Quanto escândalo para o amor, o insensato da submissão, da covardia, o insensato de moldar o outro a imagem de uma estreita margem. Causar o adverso e mostrar a diferença, começa assim: era uma vez...
Na cama eu provo o destino do meu amor, começo e acabo dizendo, na cama da revelação, na antecâmara da memória, seguro esta mão e a coloco no meu peito para que eu possa receber o teu momento, teu pulso, tua livre transação neste ser despossuído, neste demônio do desejo, neste anjo da procura, neste cravo que me solda a esta cruz, pela paixão de viver o amor maior. Dar por entre as minhas pernas o tesão, o milagre de caberem dois em um só, de serem unos, por essa passagem da entrega, um caminho onde ocorre a freqüência do teu ser.
Posso habitar a tua casa, sentir tuas asas, quando repousas neste sorriso, o menino que eu encontrei, o moleque que eu estimei, para sempre. Para sempre pode ser o teu fim, e eu desejar o teu adeus, quando a saudade me machucar demais. Para sempre pode ser que acabe em você, e por tanto precisar, recomece em mais alguém. Pode ser...
Pode ser qualquer coisa, mas não pode ser que eu não queira mais. Ao menos, deixa eu lembrar onde estive, com quem fiquei, onde fui, onde você me deixou. Deixa eu lembrar quantas vezes seja preciso, para que passe esse momento a eternidade e, todos os anos, se torne estação, parada e chegada. Se torne estação, onde o vigia das tuas horas seja o imediato de um vasto cais, coberto de neblina, onde me ocorre dizer: eu te aviso, o meu amor faz você aos poucos aparecer... Já a luz da manhã te saúda em cada um. A minha saudade tem te procurado, mas a minha idade se adianta na lonjura, só, me vejo te`esperando.
Como a água escorre entre os dedos da mão..., esta selva de pedra me aguarda. E é possível encontrar algumas flores, árvores, regatos. De onde vem encontrar uma espécie rara, a humanidade? Espécie tardia, vale dizer. Vale dizer, cavo este chão com os meus passos, todos os dias. As encruzilhadas suspensas em madrugadas densas, me mostram a distância do teu tempo.

Denise França.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A LINGUAGEM DO AMOR


(dedicado ao meu amigo DELEGADO RUBENS RECALCATTI)



O MELHOR


Estamos tentando... As alças do amor são vôos realizados, vôos que se completaram, são arcos inscritos na superfície azul do céu, com mensagens de eternidade. Há por visto declarado, subo até os desvãos desse monte, as pedras agora abrigam outras idéias. Anuncio o meu bem estar ...

“ Isso, meu querido amigo, não é uma transferência amorosa... não, não é, mas... é uma compensação amorosa, na falta de homens bons e sinceros como você no mercado... então, é um exercício livre e apaixonado da relação homem e mulher, desde o seu princípio..., um exercício liberto de censura, no campo restrito das palavras e pensamentos e sentimentos entregues e dados, dados por dar... na falta de homens reais e orientados para o amor, o amor de uma mulher, exercito todos os dias esse episódio de um romance... eu me declaro sucintamente todas as manhãs, ao chamá-lo meu amigo. Como precisa ser todo exercício, incansavelmente me entrego a essa aquiescência renovadora até se apagarem as imperfeições dos outros homens.... Beijo seus olhos com todo o meu respeito. E tenha paciência e piedade de mim... por enquanto. Compaixão. Querido AMIGO.”

Continuamos, por enquanto, a linguagem do amor. Ao menos por enquanto tentamos. Tentamos o melhor. Tentamos determinar na esfera das coisas incompreensíveis aos nossos olhos, o que nos pertence, e o resto, manipulamos e estabelecemos critérios de julgamento, seleção, etc. e tal. O superego é uma lei desprovida de sentido... Para as nossas ações existe uma lógica e um movimento... Manipulação diz bem o que vem regrar certas condições, certos precípuos.
Quando não te encontram..., procuram por outros. Ha uma variedade de outros neste primeiro contato, no entusiasmo de meditar sobre essa face do destino, encontro o temor desta mão tocar uma verdade irreconhecível... Tangível na transformação das faces, na válvula da fascinação, no escândalo do desejo. Mas as sobras, as sobras de ontem, as falsas indicações, nos levavam a incerteza desse sentimento... e se despedir, antes de ter sentido o êxito do beijo apaixonado, declarado. Os outros atestados são o que a procura alcança, por isso alça, com o peso do que ficou, uma sublime perseverança.
O não acabado nos lança de novo. Repetindo e retomando um ciclo, movimentando a engrenagem. A linguagem do amor estabelece uma cria, um criptograma móvel, identifica ao parceiro, veicula sua condição. Nos aproxima da imagem necessária ao amor... cabe-nos dizer, é onde a linguagem nos leva. Indica esta imagem criada, o lugar do ser. Onde todas as transformações e ensaios são possíveis.
Uma película de tão fina espessura que chega a ser transparente, tal sua delicadeza. Esta página, este refino de uma carta, onde entregamos ao outro um apelo, um apego, uma mazela desta fatia doce ou acre de um sentimento... rodamos essa película e já estamos dentro da produção de um sentido, já estamos feito a face de uma história, um romance. Porque queremos amar, ou porque nos recusamos a amar.
A Declaração de Amor esta impressa. Estamos apaixonados um pelo outro, a virtualidade desse outro, a e.mail imagem do outro. O imput, como diziam alguns psicólogos naquela época... Neste acesso ao outro, o computador nos imputa. A imagem virtual, os óculos e as lentes, o estigma e a referência.
“Com efeito, o sujeito virtual, reflexo do mítico, quer dizer, o outro que somos, está lá onde vimos inicialmente nosso ego – fora de nós, na forma humana. Essa forma esta fora de nós, não enquanto feita para captar um comportamento sexual, mas enquanto fundamentalmente ligada a impotência primitiva do ser humano. O ser humano não vê sua forma realizada, total, a miragem de si mesmo, a não ser fora de si. Essa noção não figura ainda no artigo que estudamos, só surge mais tarde na obra de Freud.
Aquilo que o sujeito, que existe, vê no espelho, é uma imagem, nítida ou bastante fragmentada, inconsistente, descompletada. Isso depende da sua posição em relação a imagem real. Muito nas bordas, vê-se mal. Tudo depende da incidência particular do espelho. É só no cone que se pode ter uma imagem nítida.” (LACAN, Jacques. O SEMINARIO – Livro 1: Os escritos técnicos de Freud. – A Tópica do Imaginário. Ideal do EU e EU-Ideal. Pg. 164.)

TOPICO I: A INTERNET E O PRAZER DE OLHAR


“Jamais me olhas lá de onde eu te vejo.” (J. Lacan). Chegamos nessa fissura contratual, a Internet. A internet e o voyeurismo. E é um aceno prático, abrir a Internet, a página do Orkut, ou outras páginas, um visto para a navegação. Somos internautas... vasculhamos os cantos, encontramos palavras e créditos, opções e formas de manuseio. Esporadicamente, encontramos conceitos. Focamos o centro ótico numa determinada labareda de precisão, corremos a alcançá-la, e logo ela se desfaz, e retornamos ao início. Uma bela Constância , seja sim um nome de mulher, uma bela Constância é procurada nesse evento da internet.
Ao que me declaro, o amor seja dado. Assim, os dados do programa sejam auferidos da homeostase própria a toda identificação imaginária. Para onde essa imagem nos transporta, e de onde nós retornamos. Um espaço lúdico e não empírico, sabemos tratar o homem a nossa imagem e condição? Não ser visto, não ser jamais sentido, este é o paradigma inevitável ao internauta. No espaço da representação, no chamuscar da imagem, no estampido da percepção. Isso bole comigo, isso me mostra...., me mostra na medida em que me revelo.
O campo da visão, o campo da percepção, não é o mesmo que dizer, o campo do pensamento... Por essa razão, a Internet esta tão propensa a causar essa erupção de uma fantasia, de uma nostalgia por assim dizer. Uma nostalgia de que algo possa ser entregue a este sujeito que navega nesses mares... falta-lhe contudo, a bússola desse passado imediato. Quanto mais o sujeito se encontra na despensa de sua reserva inconsciente, sem o sabê-lo, mais ele é revelado e entregue como carne aos lobos que são os seus próprios fantasmas.... Dar-me ao ver.
Freud escreveu um texto, um diagrama por assim dizer, que fala sobre a pulsão escópica, em 1928 ele publicou esse texto chamado “FETICHISMO”. “Freud escreveu que nenhuma outra variação do instinto sexual que se aproxima do patológico pode reivindicar tanto nosso interesse quanto esta, e, na realidade, não poucas vezes retornou a sua consideração. Nessa primeira descrição, ele não vai muito além de sustentar que ‘a escolha de um fetiche constitui um efeito posterior de alguma impressão sexual, via de regra na primeira infância’ (.....)”. O transsexualismo, o homossexualismo, a pedofilia, são variações dessa pulsão, são correlatos de fantasias e a tentativa de produção de um significado. Produção de um significado que nunca é levado a contento porque serve apenas para restaurar essa identificação imaginária, subsidiária de uma defesa por parte do sujeito em questão... Compreenda-se então que a identificação imaginária do sujeito subdivide-se na realidade, ganha consistência a partir dos vários outros egos, que estão ai implicados nessa mesma realidade, como pontos de acesso, como válvulas de escape para sanar uma divida provisória. Divida essa que é sempre reintroduzida nesse mundo fantástico do suposto perverso.
Tudo aquilo que é rejeitado pelo sujeito, reaparece no real... Os psiquiatras, agora vou entrar numa área de conflito metódico, os psiquiatras brincam e manipulam bastante suas fórmulas em razão disso, ou seja, desse conceito espetacular, colocado ai, nas Universidades e colocado ai também, nos Hospitais Psiquiátricos, o famoso conceito de Projeção. Palavra essa que sai aos borbotões da boca dos psiquiatras quando ainda não descobriram as razões da loucura, eles dizem: o sujeito está projetando, trata-se de uma projeção maciça. Quando escuto isso da boca dos psiquiatras, isso me cheira a bosta. Porque é mesmo uma bosta o que eles fazem.
Estamos aqui adentrando no campo espetacular das Alucinações verbais, auditivas, os delírios propriamente ditos. Antes disso, queria sublinhar aqui um texto de Jacques Lacan, “O mimetismo”: “Alguns só querem ver, no registro das colorações, fatos de adaptação diversamente conseguida. Mas os fatos demonstram que quase nada da ordem da adaptação – tal como ela é vista ordinariamente como ligada as necessidades da sobrevivência – quase nada disso esta implicado no mimetismo, o qual, na maioria dos casos, se mostra seja inoperante, seja operante estritamente em sentido contrario do que quereria o resultado presumidamente adaptativo. Em contraposição, Caillois põe em relevo as três rubricas que são efetivamente as dimensões maiores em que se desenrola a atividade mimética – o travesti, a camuflagem, a intimidação.
E neste domínio, com efeito, que se apresenta a dimensão pela qual o sujeito tem como inserir-se no quadro. O mimetismo da a ver algo enquanto distinto do que poderíamos chamar um ele-mesmo que esta por trás. O efeito do mimetismo é camuflagem, no sentido propriamente técnico. Não se trata de se colocar em acordo com o fundo, mas sobre um fundo sarapintado, fazer-se pinta – exatamente como se opera a técnica da camuflagem nas operações de guerra humana.
Quando se trata do travesti, uma certa finalidade sexual é visada. A natureza nos mostra que essa visada sexual se produz por toda sorte de efeitos que são essencialmente de disfarce, de mascarada. Aqui se constitui um plano distinto da visada sexual em si mesma, que ai se encontra representando um papel essencial e que não deve se distinguida tão depressa como sendo o da tapeação. A função do logro, nessa ocasião, é outra coisa, diante da qual convém suspender as decisões de nosso espírito antes de ter bem medido sua incidência.
Enfim o fenômeno dito da intimidação comporta, também ele, essa sobrevalia que o sujeito tenta sempre atingir em sua aparência. Ai também, convém não se apressar em por em jogo uma intersubjetividade. Cada vez que se trata da imitação, guardemo-nos de pensar depressa demais no outro que seria assim dito imitado. Imitar, e sem duvida reproduzir uma imagem. Mas fundamentalmente é, para o sujeito, inserir-se numa função cujo exercício o apreende. E nisso que devemos provisoriamente parar.” (O Seminário – Livro 11. Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise).
Então, intimidação, conceito que iremos percorrer dia a dia quanto a Internet, quanto a sua utilização e manipulação. A presença de um comando nasce antes do aparecimento da Internet, este comando faz parte de qualquer integração de elementos, no que diz respeito a informática, ao programa. Nenhuma tecnologia é feita para acomodar o sujeito ao seu meio, a tecnologia tenta reinventar o modo do gozo desse sujeito. A sucessão, a aproximação e a repetição de estímulos, constantemente e ininterruptamente , criam uma barreira defensiva , antes mesmo que o sujeito tenha percebido e formado um pensamento... Então meus senhores, essa dimensão contratual vai bem além do que podemos imaginar, no sentido apenas de uma ferramenta tecnológica que nos liga ao mundo e as pessoas ... Essa cadeia cognitiva, essa rede mundial, tem outros elementos e outras conotações...
A primeira ilusão é querer debater esse elemento, a Internet, como sendo um mecanismo alheio ao sujeito. Escutei pessoas falando e se referindo a Internet como sendo um veículo de duas mãos, que está dentro de nossas casas, e nos convivemos com o inimigo 24 horas por dia.... etc. e tal.... A Internet não é um aparelho de comunicação, feito o rádio e a televisão... , também não é uma máquina de lavar roupa ou um micro ondas. A Internet está bem mais próxima de um elemento idéico, uma estrutura funcional como o é o Ego para toda a Psicologia. E ai, quando fazem a leitura do Ego, do Id e do Superego, interpretam essa razão como uma figura exterior.... A Internet nasceu e foi produzida em razão desse contexto mundial, portanto, a Internet é um efeito lógico, como toda condicional, supre uma função.
A Internet apareceu justamente no momento , nada ao acaso. Ela faz a supressão de um elemento, pega esse elemento e estabelece um critério de relação entre pessoas. Pode ser uma espécie de barreira de estímulos, ou algo assim, é nesse sentido que a Internet está ai, e não como uma ferramenta tecnológica a serviço das pessoas... Essa é a primeira ilusão, tal qual a consciência o era para todo o trabalho e descoberta do doutor Freud. Quando o doutor Freud disse que a Psicanálise não era uma ciência e nem estava a serviço da Psicologia e que nasceu de uma relação entre médico e paciente, é nesse sentido que eu entendo o aparecimento da Internet. Existe um modo contratual, e uma forma particular de inter relação. Podemos entender assim enquanto um sintoma sócio-cultural. Um sintoma sócio-cultural que busca a supressão de um elemento de oposição. Um elemento contraditório.
Escutei algumas pessoas dizendo que na Internet as pessoas querem aparecer, e, por que essa necessidade de se mostrar?!... Outra ilusão. Se existe uma coisa que as pessoas não fazem na Internet é se mostrarem. Esse dado a ver, essa figura mítica que é a imagem de si e a imagem do outro, são efeitos de ilusão, são jogos possíveis nesse anteparo virtual. Esse anteparo virtual por si só já impede que a pessoa apareça. O que está sendo percebido na Internet e que cria essa ilusão, é a forma do posicionamento desse elemento idéico que causa essa sensação de ver alguma coisa a mais do que no modo real de aparição do sujeito. Por isso também a perversão, os sites de pornografia, pedofilia , etc. Justamente pela razão de não conseguirem mostrar o que querem mostrar, pelo simples fato de que não existe essa aparência ideal, sucumbem a representação de um espaço.
A INTERNET jamais vai poder ser criativa, ao modo de um quadro, de uma pintura, porque trabalha a margem de um extrato forjado do ser humano, não é possível a Internet fazer essa transposição, do espírito a matéria e vice-versa. Aqueles que se agrupam e navegam na Internet, a maioria provoca essa força de empuxo, correlato de um espaço e intervalo, de um comando. As ondas e o mar... Soçobrar, o sentido que ela causa não é também o sentido que nos causa um enigma. O cansaço virtual de alguns pode falar melhor sobre os seus efeitos: as vezes é melhor soçobrar essa intenção, menos pior.

E, a LINGUAGEM DO AMOR nos declara . Essa declaração de Amor, tal qual a Declaração dos Direitos Humanos me faz uma separadora de águas. Por enquanto, ao menos um pouco.



Denise França.

EMBALO


Do tempo que gasto, ainda sobra um tempo único. No embalo da rede, fecho os olhos e te enxergo no lugar dos meus cantos. Brota em mim todo o sentido. Por sentido foi e volta o cheiro, do gosto, do toque, do olhar, em teu corpo acho onde estive. Distância? Nenhuma. Abro a solapa tua condição, e descubro a minha direção.
O embalo da rede as vezes pára, o ritmo de nós dois em uma vida, continua. Continua pra diante, continua pra trás, feito o que quer mais, feito a lembrança da saudade. Não há parada nessa canoa de rio, as duas margens. Vou indo, tudo descubro, é uma passagem. Salvo dentro de mim o sentimento maior que nos guarda, por encontro e fortuna, só DEUS sabe. Meu coração vai adiante do meu corpo, a emoção aumenta, vou querendo mais chegar perto do que sinto, já sinto, me cumpre a tua presença outra vez.
Falo de amor. Assim quanto ao amor, é feito o exercício. A vida do corpo tem carência de pulsar na margem do outro. Afrouxa a distância, tua mão vem dar nesse lugar escondido, teu conhecimento mais e mais faz paragem aqui, e é teu o meu lugar.
Amor amado. Falo de amor. Entrego para sempre, que coisa é uma outra pessoa chegada e entrada de remanso na vida nossa, já conhecida. Todo muda ou tudo é olhado de novo, com outra lente, sendo uma luz nova.
Que coisa é, essa pessoa tão nova, já conhecida como fossem anos e anos, mais de uma década, todo o tempo inteirinho, vivendo a vida juntos. Que coisa é, que beleza de vida. Ainda sinto tanto, se mereço tanta graça.
Se duvido, corro atrás para ter certeza. Meu sargento, um homem, mais um de tão poucos, raridade agora sendo que preenche meu desejo de mulher.
O embalo da rede, a canoa. Falo de amor. Eu te amo por toda lei. Tenho tudo, meu amor querido.



Denise França.

A mecânica Celeste


Os homens em exercício. A mensagem que deixa aquele que parte, sabe da invocação de altas montanhas, da invocação dos espíritos. Os espíritos tribais traçam e lêem os sinais das chuvas, sinais dos ventos, sinais deste cio da terra.
Decifrar este anonimato dos espíritos, dos anjos, das soberbas criaturas, e o silencio dos garçons, dos mestres da cozinha, daquele que entalha a cadeira, daquele que volve a lata de lixo. Na madrugada fria me arrasto até este fio inesgotável da última criatura. E a mecânica celeste continua...
Sinais dos tempos. Fissura lógica de qualquer desconhecido conhecimento.
Se eles soubessem do friso das palavras... Ah! Se eles soubessem. Se eles soubessem desse encantamento maior, a mão que se estende. Circunspeto um dia, na cadeira do escritório, descobrirá que sua secretária lhe tinha amor, desvelo e amor. E descobrirá que um dos filhos gostaria de ser enquanto ele, sendo melhor. Melhor faria o filho, depois que aprendera a gostar, amar as amantes esquecidas do pai. E descobrirá por detrás da caixa imóvel, no armário escuro no quarto depositado para nada, uma moeda de prata, uma insígnia de criança para um futuro que ninguém galgou.
Se eles soubessem que a vida vivida, esse passe sobre eles, nada mais produziu do que sulco gástrico de infinita irritação. Esse alfanje da irmã morte, o quanto tem representado sobre o último instante apenas o sorriso e o escárnio de vitória.
Coloco sobre a lente da vida, a pérola da esperança. Nesse baú da memória, o pó aureolado e colorido de muitos comprimentos, de muitas manhãs, de muitas estrelas sobre a noite, de muitas crianças sossegadas e atentas entre os barquinhos, concretizando o desejo de mudança.
Coloco sobre a mesa, quando chego, isso que representa outro tempo, outro povo, outra possibilidade, outro modo de ser e viver. Coloco sobre a mesa o movimento da vida sobre o ser-humano, a transformação, a suficiência, as fronteiras do saber, os segredos da alma, a língua dos anjos, o silêncio dos escribas, para que aproveitem.
Para que aproveitem, eu vou até onde devo estar. Para que aproveitem esta passagem de um tempo a outro tempo, que façam jus a esse arrepio do amor quando a eles alcança a pele e se descobre nos arroubos dos lençóis. Para que façam jus a essa centelha de novidade numa profunda introspecção de séculos e séculos, até que se abra em definitivo a tumba da recordação e coloque-se essa figura humana diante dela mesma, viva.
Para que aproveitem, enquanto estou aqui.


Denise França.

A Essência das Flores

A expensas de tudo o que é humano, demasiadamente humano. Olhei o mar, as ondas me sorriam. Claro que este é um conto clariceano. Em algum lugar havia um relógio Sveglia e mais clariceano que “Brasília”, e o Presidente Lula na Antártica. Como e de que maneira, meu DEUS, jogar futebol aqui?!
Olhei o mar, havia pressão e revolta naquilo que via. Este ano, as férias de verão, 10 dias para eu sentir e transpassar o fio do meu destino, a pele e o sal e o sol. Mais clariceano que os contos de Clarice Lispector, é Denise França reinventada. Pois esse outro amor, sinto, como são desumanos os amores ordinários, como são desumanas as sessões na Assembléia Legislativa do Paraná, para quem não conhece de fato o meu amigo Requião.
Eu parto de um princípio, eu olhei o mar. O meu humano amor não é mais humano para o ideal dos homens. O meu amor humano, eu sinto a flor da pele, é eterno. Como olhar o mar pela primeira vez...
Eu estou dizendo, é a primeira vez que te vejo. Mulher, muito mulher, vejo o mar: é a primeira vez que te vejo! E o meu homem vai chegar em seguida por aqui para me amar, e o mar molhará o fundo dos igarapés. A água doce que passará por nós dará a razão do nosso limite.
Eu parto de um princípio: eu olhei o mar. O Presidente LULA vai “quebrar o gelo” na Antártica, disso eu tenho certeza. Fabrico o meu amor hoje, para qualquer desconhecido que apareça. Agora mesmo, mesmo que o meu amor seja antigo, o de hoje é mais sagrado.
Reencontrei você, amor, lá no mar. No mar todos os seres se transformam, procuram ver o fundo das coisas e o mar vai trazendo coisas e pensamentos a tona. As classes emergentes, passam de Matinhos a Caioba, e chegam até as areias impróprias para banho, aonde armam suas tendas de sombra.
As sacadas nesta área nobre, guardam as barbatanas de desusados desembargadores, juízes promissores, juízes que já foram. No seu fórum praieiro, as túnicas descansam no seu fácil motivo, enquanto o espírito de uma causa se deposita em cima da mesa, na poeira clara, quase branca, de cartas embaralhadas, desmaiadas, o assombro do mesmo naipe em todas elas...
Há uma tendência demasiadamente humana pela sombra ou escuridão. E a revolta do mar vem me apresentar esse empuxo. A arquitetura em movimento das ondas fabrica exatamente a feitura do som. As conchas e caracóis marinhos... Desde o abismo profundo onde nenhum homem jamais tocou, a ressonância desse estudo do silêncio.
Na concha da minha mão, a urgência do meu pedido: um punhado, se este punhado servir. Qualquer coisa de irrisório como a alavanca do tempo, as areias que descem por esta passagem marcam a hora desde onde começou este flagelo, para onde vão as pegadas e o movimento das dunas.
As sombras que se fabricam com o resto do tempo, com tudo aquilo que não foi feito e nem realizado, o arrasto das sobras, o cotovelo oblíquo do desejo. O desejo negado.
Eu parto de um princípio. O mar me vê, mesmo que eu dê as costas a ele, ele me vê de todos os lados, todas as maneiras. Mas não há em nós dois o propósito de olhar, mas o de amar vendo. Que eu te vi sempre, vi pela primeira vez, quando já ias embora. O mar chorava minha partida e pedia para eu voltar, o mar da minha infância...
Costumo deixar que as coisas se encaminhem, simplesmente do modo mais fácil: eu ir para a frente e, indo, saber que tudo que era ficou para trás. O modo mais difícil é voltar e não ver mais quem ficou.



Denise França.

AMIZADE (THE ROSE)

Convivência de amor e de carinho... Deposite no canto esse canto, de acalanto, de mistério, de magia, de espírito. Ouça agora a empáfia , a ostentação, ouça agora o ruído dessa maquina mortífera de uma autoridade sem lei, de um dito maldito. Eu tenho que dizer: não me causa nada a ostentação das togas, destes morcegos cegos de precisão e prisioneiros de si mesmos, sem arbítrio e sem poder legitimo, criam e instalam uma lei sem limite, uma lei sem liberdade, uma lei sem humanidade... Não me causa nada a insalubridade destes escritórios exacerbados de lisura, e cagados e chagados pela macula do sangue dos injustiçados.
Convivência de amor e de carinho... Deposite no canto esse canto, de acalanto, de mistério, de magia, de espírito. Veja a empáfia e ostentação que se derrama, baba no vértice das bocas desses doutores da lei, fétidos, podres, sem fundo, sem credito..... Ai meu Deus, esse sujeito não tem ainda nem quarenta anos de idade, deputado estadual, esta ali instalado na cadeira de seu mandato, e, ai meu Deus, o que sai da boca desse infeliz, um impropério de um menino mimado, de um bostinha, de um reizinho cagado, ou de um pintinho que quer demonstrar o seu poder de mando. Pois eu digo: nenhum poder meu jovem, você ai sentado neste troninho de reizinho, nenhum poder!!!!
Poder legitimo, só o de Deus, dado aqueles que renunciam a glória, renunciam a bestialidade da coroa de ouro, aqueles que renunciam a fama, aqueles que protegem os miseráveis, aqueles que abrem condições, aqueles que lutam e dão sua vida pelos humilhados, desprezados, que estão a margem da sociedade em razão dessa loucura cruel de alguns, estes insanos que acreditam em um tal poder..... Pobres coitados, meu Deus, esse deputado estadual, bostinha mesmo, sentado em sua cadeirinha de bebezinho, quanta empáfia, quanta falta de humildade, quanta falta de sabedoria, quanta falta de conhecimento, quanta ostentação, quanta hipocrisia, quanto ódio....
Convivência de amor e de carinho... Deposite no canto esse canto, de acalanto, de mistério, de magia, de espírito. Veja a empáfia desses doutores da lei, ganhando salários exorbitantes, enquanto outros, menos dignos, porém humanos, comem o resto no fundo das lixeiras.... Somos a gentinha.... Essa gentinha deveria se colocar em seu lugar...
Deposite no canto esse acalanto de esperança, de paz, de amor, de amizade.... Os verdadeiros reis, vão para a fronte, abrem o caminho, lutam junto ao povo contra o inimigo, não saqueiam e nem matam. São companheiros, são amigos, conversam com respeito com aqueles que o servem, não os tratam como gentio, amam o seu povo e pensam o amanhã.
Esqueçamos agora o miserável jovem deputado estadual, traça corrosiva de um momento histórico... e entoemos um canto ao povo e a seu verdadeiro rei. Quando nasce um rei, há sinais, nasce um povo ao seu redor, e uma nação se constrói, e os filhos dos filhos dos filhos, honram e prezam seus pais. A honra e o caráter, a dignidade. Um ideal de justiça como direção, como caminho a ser construído. A alma não é passageira. Que se debilite o homem até o ultimo, ate as vísceras, seja tirado dele a sua moradia, a sua família, os seus filhos, a sua herança, suas vestes sejam lançadas, mesmo assim o homem continuara sendo o seu pensamento e a sua convicção, porque a alma não e passageira. Não se pode mentir acerca das obras de um rei, de um povo, de um homem, não e possível, as marcas ficam para todos aqueles que o honram e por isso mesmo, são honrados por ele. Não é possível mentir acerca do desejo de um homem por uma mulher, porque a mulher sabe e sente o quanto é desejada quando este homem a possui. Assim também o é com a terra onde esse povo habita. Então, não esqueçamos porque não é possível ao homem o esquecimento. Um pensamento isolado que o seja, no futuro será um ato. Um ato esquecido no passado, no futuro será um resíduo em sonho.
Deus te proteja pela falta de decência... Deus te proteja desta figura feroz e obscena....
Que se guarde esse acalanto para a hora merecida, a hora amadurecida, a hora não mais do impropério, mas a hora onde julga a palavra ser entrada e consciência de esperança, de vitória. A hora em que eu faço do meu sacrifício, um consentimento aqueles que não queiram mais temer a morte ... O que significa o meu sacrifício, senão uma oferta real através do meu corpo, o espírito que repousa sobre toda a matéria, o espírito que faz com que a matéria não seja um ser isolado, mas latente e bruto no espaço, na lajota de um tempo, fissura na pedra onde a água veio desenhar e moldar o seu trajeto.
Tomado esse acalanto como um repouso, limpo o suor de tua testa, vasta e cansada, aonde ficaram as encostas destes despossuídos, para onde foram as redes e os quintais? Receba de Deus a sua desculpa, antes fossem os que não precisassem mais. Deus não tem olhos para ir, nem para ficar, nem para subtrair, mas as lágrimas se confundiram com as águas, e o sangue junto ao barro, modulou esse lamento. Era para que não se repetisse mais essa insensatez.
Pobre criança de um sonho, onde foi o teu futuro ficar? Arrumo todos os indícios por onde passaram as tuas vontades, tuas brincadeiras, teu sorriso... Se tu me deste a nobre essência da vida, esse diamante, essa translúcida vertente, como te devolver a realidade, a minha realidade crua e nua?
Não posso deixar para depois esta urgência de te amar mais e melhor... De te amar em quantos forem preciso. As minhas mãos estão seguras em tua coroa de rei. Esse manto que lavou as montanhas, poderia cobrir melhor as tuas chagas, descobrir no teu sangue, o pulso de todo o coração do mundo. Quero dizer: eu te amo. E isso não basta, quero dizer mais ainda: eu te amo tanto tanto tanto... Sobre todos os homens a tua cruz paira como luzeiro, neste cruzeiro.
Bendita seja a mãe de todas as terras, a amizade. Que eu lhe dê a minha em retribuição e a reconheça todas as vezes em todos os lugares. Em forma de rosa, quando e a paixão do meu sacrifício, a ponte do teu meio, tua consideração, teu compromisso. Em forma de ROSA, como todas as amizades que chegam a esse estado de depuração, a vida pelo próximo. Em forma de ROSA como a voz do pedido, a voz de urgência, a voz do teu desespero, da tua causa e verdade. Em forma de ROSA, neste silêncio de te achar em meio aos perdidos, de encontrar a minha salvação em você.


Bendita seja a mãe de todas as terras, a amizade. A nossa amizade, o meu obrigado, o meu carinho, a minha consideração, meu profundo respeito. Todas as terras deste horizonte, signo e promessa, razão de solidariedade. A ROSA escarlate, rubra rosa, em segredo pétala úmida e suave, noite longa, cortejo de multidões. O conselho de um chefe, vo-lo tê-lo, meus passos atravessaram essa trilha , me inclinei ao pé do monte, aos poucos fui subindo, contornando as pedras, até o topo, para cuidar no fundo deste silêncio, a fronte e o espaço da tua liberdade. Olhei o céu, o sol me tomando de relance e se despedindo. Fiquei com a noite e sua razão.
Os homens livres, os grandes homens, os gregos, as encostas da Grécia, até onde a ROSA veio dar, conduzir o desejo e a vocação de um povo. Dancei com os gregos, estendi meus braços, soletrei o ritmo, tropecei em meus impulsos de alegria, cheguei a euforia, amei desesperadamente a tua causa. Os italianos, no beijo e no abraço, nos tamancos, nas risadas, no acanhamento dos vestidos, nas palmas cantadas, todos entramos juntos para celebrar este cálice, a seiva da ROSA. Honro tua palavra, desejo o teu ato.
Irmão meu, o teu ombro onde repousa meu braço, irmão de sangue, irmão de luta. Mesmo que eu o carregue, e o teu espírito já não esteja mais aqui, e estendido eu o veja descansar com os olhos tristes, irmão meu, a tua historia e o meu apelo a mais alguém, não se pode substituir o lugar de um homem, a vida de um homem é insubstituível. Quando se conhece o pulso de um homem, a franquia da sua liberdade nos é cara.
Beijo este solo, entrego minha homilia...




Denise França.




Dedicado ao GOVERNADOR ROBERTO REQUIAO, em solidariedade ao povo de Santa Catarina...
E a todos aqueles que sabem o que é o bem, então um Feliz Natal. BOAS FÉRIAS, e aos que permanecem trabalhando, um bom trabalho,
PELO POVO, PARA O POVO E COM O POVO.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Voto perpétuo


(ao meu avô Joanin Viezzer)


Ave, Maria. Olho para o rosto da santa. Santa, santinha... Vagabundeio de cidade em cidade, olho para o rosto das moças, dos moços, de toda criatura adiante de mim, meus olhos miram, na guia dos olhos toda expressão.
Ave, Maria. Conheço e até onde vou, paro nos bares, visito as igrejas. É onde se conhece melhor a gente de um lugar, e as personalidades de que falam. Meus ouvidos fazem monta, e as histórias são contadas, de família, de filho, de prefeito, até de defunto. Penso, solerte, porque se repassa um causo de boca em boca, se é da vontade de entender, se é da vontade de tresvariar na sorte do infeliz. Há de ser, penso, o bicho homem procura parada e destino. De um nadica de nada, faz fuleiro, fita dourada.
Ou, digo, de tudo nos detalhes, a sobra mesmo, a faísca de uma emoção, a de ver, se entende um segredo guardado. Que vai no disfarce, na retumba de uma idéia, o sentido desde onde se pega a direção de uma estrada.
No ribeirinho pois, muita coisa fica na memória, a gente se entrete de lembrar. Coisa engraçada, agora penso, desses dois tipos. A memória já é vida, já é chão, mas e ai, a criança tiquinha, brincando olha curiosa o mundo, tudo quase novidade, e conta as estórias, a fada, o príncipe, a bruxa, o herói. O futuro, a criança vê, sendo o que vê, de outra sorte da do mundo adulto. O filhote de homem anda nos sonhos, anda no mundo, mas o futuro, vendo lá na frente, é um caminho diferente.
Por causa de que, penso, não é por bobeira , falta de experiência, mas é de uma outra vida que a criança vem, e a criança fala. Outra linguagem, vive sem a culpa, sem o medo, só a alegria. Mesmo se eu vejo, esse filhote de homem numa casa paupérrima, chão de barro, esteira para dormir, a criança sonha, e sonhando continua. O sonho não é contido pela vida sofrida, a criança guarda numa caixinha de fósforo, todo segredo da felicidade, e do seu futuro. Sendo, as pedrinhas que guarda nessa caixa, sendo um carrinho feito de lata, sendo o fio de uma raia, essa criança é sempre o amanhã. Mesmo no choro por causa da mãe, do pai, dos irmãos, da lombriga da fome, nessa caixinha de sonho, o filhote do homem, guarda o milagre da vida.
Pois, o homem quando conta uma história, repassa um motivo, não é do mesmo tipo. Por isso vejo nos olhos, lá no fundo daqueles olhos verdes, isso que penso ter encontrado um dia.
Coçava a barba, para saber qual a aparência de Cristo. Se eu fosse um pintor de quadro, qual a aparência de Cristo?! Sentado no banco da igreja dos frades Capuchinhos, pensava nisso. Uma criatura humana e divina, atiçava a curiosidade, por sobre as obras de Jesus, e vendo tudo que via de tanta viagem, todo tipo de gente, toda sorte, especulava nas idéias, qual a aparência de Cristo, sendo ele a verdade, a luz e a vida. Sendo assim o homem tão mentiroso de natureza, tão mesquinho, como pode ter enxergado a Cristo quando aqui nesse mundo esteve.
Imagino, nesse chão do meu pensamento, o entendimento das meias verdades e o entorpecimento da vista quando de nada enxerga vendo a luz, tropeçando nos erros, e nas vaidades. Quase sempre, desde muito cedo, acompanho meus pensamentos, porque a gente também é anjo a todo tempo das criaturas que devemos cuidar. As criaturas de fora e as criaturas de dentro. O pensamento é estrada, é chão, é edifício, é treva, estrela de um recurso por toda necessidade de aberta.
Se eu cumprimento DEUS, tiro meu chapéu, me ajoelho, rogo a DEUS no púlpito da igreja, não é por forma de repetir a saudação do povo ali dentro. Faço isso, como fazia meu avô avozinho de mão dada comigo nessa mesma igrejinha. Tirava o chapéu e segurava no peito, e eu olhava os olhos dele e ele acreditava não mentindo e nem falseando a DEUS. Sentava no banco, as pernas abertas, as botas, as mãos grandes carregadas de trabalho, procurava do mesmo jeito, atinar o pensamento, as idéias, pra modo de encontrar o fio, o sentido, a direção, a providência divina. Mas meu avô não pedia nada, e nem implorava nada, porque não tinha preguiça nas idéias e no pensamento. Cumprimentava DEUS e sabia que era acolhido. E o milagre dependia só dele e de todo trabalho feito do seu entendimento. Meu avô não era doutor, mas tinha a sabedoria da vida e eu sempre, sentado, pequenininho, do lado dele, sabia qual a luz dos olhos azuis do meu avozinho querido, no altar do Senhor.
O rosto de Cristo, se eu olhasse para ele hoje, atinava, de que jeito era?! Essa parada que fazia quase sempre, de quem entra na igreja, de passagem, entre um porém e outro, era sempre uma pastilha que eu encontrava para essa parede que meu avô cal finava. Sentado, na parte rasa desse rio, olhava o pescador que era Cristo, olhava o pescador que era meu avô, e acabava nas barbas compridas e brancas, no silencio fundo, no mergulho dos olhos no fundo das pupilas: o frei velhinho olhando a cruz de Cristo. Encontrar essa pergunta e essa resposta, porque é dito que quem sabe formular a pergunta, é porque já tem a resposta. Meu avô era assim, e assim mesmo fui me fazendo, feito eu, não sendo padre, nosso caminho era de vida desbravado igual, sem mentira, de sagrado e de profano.
Sem mentira e sem medo, mesmo especulando a ermo, batesse numa dúvida, ou num assombro de sentimento, a vida tinha sentido e forma. De manhazinha o cheiro de capim, o orvalho caído. Interrogo pela estrada afora, meu desassossego, a parada, a meia volta, quando encontro teus olhos verdes. Já sei, sinto, agora entendo, sentimento de homem pra onde vai, descansa nessa paragem dos olhos verdes...
Os olhos verdes um dia, num sonho sonhado, acorda outra pessoa no sonho, uma parte remota, uma vida vivida, o espírito em algum lugar esteve de soslaio, no vagabundear trouxe para a vigília da cruz, o cheiro e o modo desta outra vida.
Os ombros ficam chumbados do peso daquele trabalho. Os olhos miram até onde o sentimento foi cumprido. E a saudade, incrível, reparte o mundo, uma pessoa se foi, ignorado o destino, esteve tão próxima, tão intima de nossa querência.



Denise França.