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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

NA PROXIMIDADE DO NATAL - por Diadorim Sabiá

NA PROXIMIDADE DO NATAL

... eu não vou dizer aqui que este final de ano é exatamente o mesmo.
... não vou dizer que todo fim de ano levo um chute no traseiro, e que isso dói.
... não vou dizer que meu pai não gosta de mim, e me acusa de muitas coisas......, e isso já está se tornando tão chato, e cansativo...

... não vou dizer essa coisas aqui. O presente de NATAL fajuto que dei a ele, porque não tenho dinheiro para comprar outra coisa, e que ele fez aquela cara de entojo quando minha mãe deu o embrulho pra ele, enfim, isso se repete eternamente.... É muito cansativo mesmo. Mas o presente, hoje eu peguei de volta, encontrei um lixeiro na rua, disse a ele que não tinha pai, e dei a ele desejando FELIZ NATAL!!!!!!!!!

... ENTÃO É ISSO. Nas proximidades, do NATAL.

... um amigo inimigo, passou a perna, entrou na minha vaga, ganhou o meu espaço, mas isso também não vou contar aqui, porque já não me aguento mais de repetir o dito.

... e o meu cachorro, está morrendo de diabetes... triste, muito triste.

... gostaria de dizer que este ano alguém me amou muito. Torceu por mim.
... eita vida marvada.
... eita vida marvada.
... eita vida marvada.
... eita vida marvada.
... eita vida marvada.
... eita vida marvada.
... eita vida marvada.
... eita vida marvada.

... na proximidade do NATAL, faz de conta. A maior de todas as estrelas, surge neste dia, hoje. Alguns homens perdidos, são mais de três homens, eles olharam para o céu, e juntos perceberam um brilho fenomenal. Eles estavam perdidos no deserto, sem rumo, nem direção, e viram aquilo na noite, nos céus. Um brilho radical...
... nossa, se sentiram marcados por esse fenômeno. Há alguma coisa para ser vista, e foram andando, mais adiante e mais adiante, e mais adiante, se distanciando de onde estavam, da sensação de perdidos para frente, com a sensação de descoberta.
... desconhecido. De alguma maneira, o brilho inspecionava a vida turva desses perdidos, eram mais de três. Não sei se eles chegaram a algum lugar.
... Por que, de repente, eles se consideravam especiais, guardados pela luz, revelados, extensivos a sua vida anterior. E passaram a projetar essa luz, no inequívoco de um achado, uma espécie de fartura, uma ruptura, um vinco, uma trincha, algo incomum.....

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

FILME "SÍNDROME DE ESTOCOLMO" (02) - CEP

"ENQUANTO FAÇO AS UNHAS" - ROTEIRO DE CRISTIANO REQUIÃO

FILMADO EM 2009 E INÍCIO DE 2010
HDV – 28 MIN
ROTEIRO DE CRISTIANO REQUIÃO
(UTILIZADO DURANTE A FILMAGEM E EDIÇÃO. ALGUNS PLANOS FORAM
RECORTADOS E OUTROS SUPRIMIDOS PARA REDUZIR O TEMPO FINAL DO
FILME)
1 EXT – NOI – CASA DE COMANDANTE E SILVILENE – PISCINA
CONTRA-MERGULHO/SUBAQUÁTICA
CÂMERA LENTA
VINHETAS DAS PRODUTORAS
CRÉDITOS INICIAIS – ENQUANTO FAÇO AS UNHAS
SILVILENE de se prepara para mergulhar e mergulha como uma
nadadora.
FUSÕES
IMAGEM LENTA
Partes do corpo de Silvilene banhando-se entre BOLHAS de ar.
Detalhes do seu corpo.
SILVILENE (OFF)
Viver é sonhar. Sonhar acordado. E
quando a gente quer, a história
muda.
INTERCORTE
Imagens de satélites.
SILVILENE (OFF)
Quando nasci, Saturno estava
alinhado com marte. E este é o
acaso astrológico que orienta a
minha vida.
INTERCORTE
Silvilene na praia.
C:\Documents and Settings\Fernando Mares\Local Settings\Temp\Rar$DI04.735\Roteiro Enquanto
Faço as Unhas.doc
SILVILENE
Tem gente que não acredita, mas eu
acredito. Marte é o planeta dos
sonhos... dos marcianos... Eu
cresci acreditando nos sonhos. Tem
sempre uma hora que a gente
acerta.
2 INT – NOI – PÁGINAS NA INTERNET SILVILENE
1) FOTOGRAFIAS de candidatos e TEXTOS, com ênfase em
palavras como solidão, compromisso sério, sexo pela internet;
SILVILENE (OFF)
A solidão faz a gente acreditar em
qualquer coisa. É importante
confiar nas pessoas, com muito
cuidado. Mas foi neste mundo de
solitários, que eu encontrei algo
de concreto. Justamente aonde a
vida é mais virtual. Alguém que eu
nunca vi pessoalmente, mas me
transmitiu segurança, atração e
amor.
2) Fotos românticas do Comandante em várias posições;
3) Sobreposição de Silvilene ao computador;
SILVILENE (OFF)
Cruzamos madrugadas. Ele distante
e eu aqui. Ele navegando e eu
viajando na minha imaginação.
4) Na cama, Silvilene coloca um COMPRIMIDO na língua,
REMÉDIO de tarja preta, mas desiste de engolir. (retirado)
5) Silvilene escreve o nome do Comandante Jorge Alberto
em uma fina tira de papel e coloca no interior de uma maçã
cortada. (retirado)
6) Silvilene escreve o bilhete de despedida; (retirado)
7) Silvilene arruma a mala para a viagem, REFLEXÃO;
(retirado)
SILVILENE (OFF)
Só quem já passou por isso sabe do
que se trata. A gente não
agüenta...
9) Pesquisa na Internet, site tipo ORKUT. Fotos do comandante
FARDADO com a FAMÍLIA, na TROPA, no NAVIO. TEXTOS que o citam.
Silvilene TOCA a tela do computador com carinho sobre a imagem
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/2
2
do Comandante.
SILVILENE (OFF)
É o amor e a loucura. Irmãos
gêmeos. Duas coisas que tem tudo a
ver. E o pior é que eu enlouqueci.
E agora?
INTERCORTE SEQ 10
(A) Silvilene, em frente ao computador, desce a blusa do pijama
com sensualidade. O CORDÃO do Comandante está no pulso. Reação
do Comandante na tela. RAIO. Ventilador passa a BATER.
APROXIMAÇÃO
Silvilene volta-se para trás em sobressalto.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/3
3
3 EXT – NOI – CENTRO DO RIO DE JANEIRO – CAOS URBANO
TRÂNSITO pesado, FARÓIS, ENGARRAFAMENTOS. VINHETA SONORA de
programa evangélico. PRÉDIOS populosos, JANELAS em edifícios
residenciais. PÉS de Silvilene (com vestido rosa) caminham
solitários. URSO de pelúcia pendurado na mão.
ELIPSE
APROXIMAÇÃO
CHICOTES
Prédio do alto. JANELA do conjugado de Silvilene. CORTINA
flana, LUZ intermitente de um televisor.
BISPO (F.C.)
Qual é o seu nome, irmã?
ANGELINA (F.C.)
Angelina.
BISPO (F.C.)
O que te aflige, Angelina?
APROXIMAÇÃO
Janela do conjugado de Silvilene.
4 INT – NOI – CONJUGADO DE SILVILENE – QUARTA-FEIRA
CARTELA – DUAS SEMANAS ANTES
CARRINHO
TELEVISOR ligado, PROGRAMA evangélico. VENTILADOR de mesa
ligado. Pés de Adamastor. Ele coça entre os dedos com o
indicador da mão. ABAJUR aceso sobre a MESA de cabeceira,
RELÓGIO marcando 01:00h e caixa de REMÉDIO de tarja preta e um
COPO com água. Silvilene, de ÓCULOS, SUADA, está recostada no
espaldar da CAMA vestida com um VELHO, sumário e rasgado
PIJAMA, lendo uma REVISTA de horóscopo e vendo o televisor.
ADAMASTOR, deitado ao seu lado, ENTORPECIDO,esforça-se para
assistir o programa. No ventre está apoiada uma LATA de
manteiga com tampa. Pendurado no teto, MÓBILE com os planetas
do sistema solar.
ANGELINA (F.C.)
Estou possuída, Bispo. Possuída.
BISPO (F.C.)
Possuída? Por quem? Se manifeste!
Vamos ver se consegue enfrentar a
verdade. E a verdade está aqui, do
nosso lado.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/4
4
TELEVISOR
LEGENDAS do diálogo, CARTELA “ao vivo” no canto superior da
tela. BISPO no PALCO com ANGELINA, CRENTE sentado em uma
cadeira aguardando a sua vez e OUTROS. Angelina com voz
gutural.
ANGELINA
Esta criatura agora é minha.
BISPO
Minha, de quem?
VOLTA A CENA
SILVILENE
Aquário: seu magnetismo pessoal,
fará com que consiga se aproximar
daquele...
Adamastor SONOLENTO, guarda a lata de manteiga embaixo da cama
e aponta o dedo indicador para o televisor. Para calar
Silvilene, aumenta o volume com o CONTROLE remoto. Silvilene
TIRA os óculos, coloca a revista sobre uma pilha de outras
revistas e apanha ao lado da cama uma ALMOFADA com formato de
coração. Abraça-a com força. Volta o olhar para o televisor
FORÇANDO a vista.
ANGELINA (F.C.)
Minha. Eu domino. Ta dominada. (Ta
toda dominada!)
BISPO (F.C.)
Nada disso! Ao contrário, você
perdeu! Perdeu!
ANGELINA (F.C.)
Eu arruíno a vida dela. Arruíno.
FIÉIS (F.C.)
(texto)
TELEVISOR
Bispo no palco com ANGELINA. O corpo de Angelina está MOLE como
um boneco de pano. Agarra-a pelos cabelos. ASSISTENTE o auxilia
para imobilizá-la.
BISPO
Olhe quem vos fala! Veja quem está
aqui do meu lado!
ANGELINA
Não! Não! Afaste-se!
FIÉIS (F.C.)
Sai bicho ruim!
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/5
5
VOLTA A CENA
Silvilene vê que Adamastor atento ao televisor.
TELEVISOR
Angelina é sustentada pelo assistente.
ANGELINA
Eu a possuo! Ela é minha!
BISPO
Pois tu vais sair agora,
miserável. Ajoelha a meus pés!
Bispo força Angelina a se ajoelhar e ela reluta. Afastado, o
crente começa a entrar em transe. Bispo se aproxima de
Angelina, a AGARRA pelo pescoço com uma das mãos.
BISPO
Sai cão. Sai cão miserável. Deixa
esta alma pura, livre do teu
enxofre.
FIÉIS (F.C.)
Afasta a fera desta inocente.
Angelina GRITA e ROSNA movendo os quadris com SENSUALIDADE.
ESTREMECE, SOLTA o corpo e se ajoelha. Ameaça MORDER o
assistente, que se esquiva, mas se mantém contido. Bispo SACODE
Angelina.
BISPO
Deixa este corpo em paz! Larga
esta alma!
Bispo solta Angelina e caminha em direção à câmera. Aponta para
Angelina.
BISPO
Você! Você! Olhe para esta
criatura (cont.)...
VOLTA A CENA
Silvilene FORÇA a vista, aumenta a atenção, mas observa
Adamastor. Abraça mais a almofada. Adamastor adormece.
BISPO (F.C.)
(cont.)... e pergunte para si
mesmo, se é isto o que você quer.
TELEVISOR
Bispo aponta Angelina.
BISPO
Olhem o sofrimento desta
criatura...
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/6
6
Crente corre na direção de Angelina, tentando atingi-la com
tapas.
CRENTE
Sai fora! Desgraçado, sai!
Angelina suspende momentaneamente o transe, foge por baixo do
braço do assistente e corre pelo palco.
BISPO
Segura o crente! Segura o crente!
Crente é agarrado pelas costas pelo assistente e jogado no
chão. Bispo se aproxima do crente.
VOLTA A CENA
GRITOS dos fiéis na platéia. Silvilene lamenta o que viu.
Ventilador começa a BATER as pás. Silvilene se estica e faz com
que ele volte ao normal. Levanta-se, vai até a geladeira, abre,
olha e fecha. Apanha o celular, observa e coloca em cima da
mesa. Volta para a cama. Antes de se deitar, brinca com o
móbile.
BISPO (F.C.)
Sai deste corpo! Afasta-se deste
crédulo. Sai tentação. Tentação.
Palavra maldita é a tentação.
Tentação que corrompe a alma e o
corpo. Tentação que mói o ser e
putrefaz a moral e a razão.
Silvilene desliga o televisor, coloca a perna sobre a cueca de
Adamastor e aguarda por uma reação que não ocorre. Silvilene
tira a perna e puxa cuidadosamente a cintura elástica da cueca
e olha o interior. Desfaz o gesto e deita-se de costas. -
Silvilene apanha os óculos e uma pequena LANTERNA sobre a mesa
de cabeceira. Retorna à posição anterior, coloca os óculos,
puxa novamente a cintura elástica da cueca de Adamastor e
ILUMINA o interior com a lanterna. Adamastor se MEXE, Silvilene
assusta-se e solta de uma vez o elástico da cueca que bate na
barriga despertando-o. Adamastor levanta a cabeça surpreso.
Silvilene apaga a lanterna e liga o televisor. Disfarça
voltando o olhar para a revista.
BISPO (F.C.)
Você viu. Vocês viram. Vocês viram
do que a fera é capaz. Um homem.
TELEVISOR
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/7
7
BISPO
Estava aqui, orando conosco.
Repentinamente, perde
completamente a razão e parte para
cima de outra criatura, para
libertá-la do mal, o qual ele
mesmo é acometido. Vitória!
Angelina... Está livre...
VOLTA A CENA
Adamastor olha atento a televisão.
ADAMASTOR
Esse é o cara. É o cara!
Silvilene demonstra frustração e cansaço. Adamastor se deita e
DORME. Silvilene lê a revista e vê a televisão.
BISPO (F.C.)
Vós que estás presente neste ato,
dentre nós neste templo, (cont.)
Silvilene, pensativa. Olha o televisor novamente.
TELEVISOR
BISPO
(Cont.) deis uma luz, um sinal da
vossa presença!
VOLTA A CENA
Silvilene Troca alguns canais e o desliga. Apaga a luz do
abajur. Acende a lanterna e vê as horas no relógio.
ESCURECE
Som de TECLADO.
GRUA
Silvilene está no computador DIGITANDO e LIXANDO as unhas. Abre
a gaveta, apanha o CORDÃO/amuleto do Comandante e o coloca no
pulso.
TELA DO COMPUTADOR
Página com Comandante e a sigla “ON LINE”. Quando acessada a
tecla do link, entra página com a imagem das duas webcams, do
Comandante e Silvilene. Os textos são PARCIAIS.
TEXTO - COMANDANTE – Que saudades, chocolate.
TEXTO - SILVILENE – Eu também... É bom te ver, meu ursinho!
TEXTO - COMANDANTE – Chegou a hora. Já resolveu?
TEXTO – A PARTIR DE AGORA NARRADO
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/8
8
SILVILENE (OFF)
Não ainda. Juro que tentei. Você
não o conhece, é uma pessoa
imprevisível.
COMANDANTE (OFF)
Vamos acabar com esta angústia.
SILVILENE (OFF)
Meu ursinho, você sabe que eu te
quero tanto.
Silêncio. Silvilene se concentra nas unhas que faz.
COMANDANTE (OFF)
Veja o que está te esperando.
Agora.
Som de e-mail chegando na Caixa de Entrada.
TELA – Silvilene abre e-mail do Comandante com FOTOS de uma
casa com piscina.
Comandante gesticula um abraço.
COMANDANTE (OFF)
Só tenho carinho em meus braços
esperando por você. Chego sábado.
Devo desembarcar domingo.
Silvilene conta nos dedos.
SILVILENE (OFF)
Sábado, agora?
COMANDANTE (OFF)
A dois dias do nosso futuro.
Domingo nos vemos.
SILVILENE (OFF)
Oh, meu ursinho, meu amor...
Adamastor abre a porta da GELADEIRA. A LUZ do interior da
geladeira assusta Silvilene.
TELA DO COMPUTADOR
Silvilene troca de página passando por várias até chegar a uma
PÁGINA DE HORÓSCOPO.
VOLTA A CENA
Adamastor BEBE água de uma GARRAFA.
ADAMASTOR
Que é isso, aí?
SILVILENE
Sem sono.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/9
9
ADAMASTOR
Toda madrugada a mesma coisa.
SILVILENE
Sou eu que pago a conta de luz e o
telefone e a internet.
ADAMASTOR
Jogando na minha cara? Jogando na
minha cara? Ta legal. Depois a
gente vê quem é que ta pagando o
quê.
Adamastor volta em direção à cama. Silvilene olha seu CELULAR.
Adamastor apanha o controle remoto, aponta para o televisor e o
LIGA.
BISPO (F.C.)
Aqueles que agem na escuridão,
pelas costas de seus pares, não
traem apenas a si mesmos ou aos
seus próximos. Pior do que isso:
traem o todo poderoso, que tudo
vê, tudo sente e tudo sabe. É ele
quem nos aguarda para o
julgamento, e é ele quem será o
juiz.
Adamastor continua de pé, cambaleante, ouvindo o programa e
apontando para a tela do televisor. Fala consigo mesmo.
ADAMASTOR
Ele é que está certo. Vou te
falar, aí, ó. (para Silvilene) Vai
demorar muito?
SILVILENE
Só enquanto faço as unhas.
ELIPSE
Silvilene volta a digitar.
TELA – Silvilene – O Adamastor acordou. Amanhã nos falamos.
Você me liga?
5 EXT – DIA – CIDADE DO RIO – AMANHECER
Cenas da cidade.
6 INT – DIA – CONFECÇÃO E CONSERTO DE ROUPAS – SALA
Pé da MÁQUINA de costura trabalhando, mãos de MARLENE.
GRUA SOBE
Rosto de Marlene, TOCA a campainha.
FABÍOLA, que conserta uma gola na ADALGISA, abre a porta.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/10
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Silvilene entra apressada, com cara de sono, cumprimenta Fabíola com
discrição.
CARRINHO
VILMA
Que horas, hem?
Silvilene se senta em seu local de trabalho.
SILVILENE
Oi Vilma! Bom dia!
Marlene BEBE um gole de CAFÉ QUENTE de uma generosa CANECA.
Marlene oferece a caneca para Silvilene, que aceita.
MARLENE
Não conseguiu dormir?
Silvilene bebe o café.
SILVILENE
Remédio. Derrubou.
Silvilene devolve a caneca.
Vilma coloca as roupas na MESA de Silvilene e CONFERE.
VILMA
Ta acumulando. Hoje, mais de vinte.
FABÍOLA
Tem que parar com essa porcaria. Depois que
acostuma, não larga mais.
Toca o TELEFONE, Vilma atende, atenciosa. Fabíola vai até Adalgisa e
remeda Vilma pelas costas.
VILMA
Só Jesus liberta, aleluia consertos em geral,
bom dia. Dona Sílvia! Olha! Como vai a senhora?
Quantas? Trazer? Que horas?
(cont.)
Vilma anota um endereço em um BLOCO de notas.
Silvilene segreda a Marlene. Apanha da sua bolsa um SAQUINHO de
tecido. De dentro do saquinho retira uma MAÇÃ. Tira o miolo da maçã
e de dentro desta uma TIRA de papel com o nome “Comandante Jorge
Alberto” escrito em vermelho.
VILMA (F.C.)
(cont.) Anotado. Tranqüilo. Pode deixar. Não,
sem dúvida. Como de costume. Aleluia!
SILVILENE
Comandante Jorge Alberto.
MARLENE
Valeu a simpatia!
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/11
11
SILVILENE
Se tudo der certo, viajo domingo. Nem acredito!
MARLENE
Por mim...
Marlene gesticula para que ela vá em frente, e pede que ela
silencie.
COB Vilma circula pelo ambiente, indo até a cozinha, separando
roupas por trás das araras, na pilhas etc.
MARLENE
Só dá certo quando os dois lucram igual. Não se
sinta culpada. (CONT.)
MARLENE
(CONT.)Adamastor não lhe deu opções. Até onde eu
sei, mal divide as contas da casa. Você é quem
segura as pontas.
FABÍOLA
Foi isso que eu ouvi? Vai dar um “perdido” no
maridão?
Silvilene com desdém.
SILVILENE
Vai ser bom para ele, também. (...) Estou tão
nervosa...
FABÍOLA
Nós duas, hem? Sozinhas nessa baiúca. Quero ver
dar conta.
PAN
Fabíola para Marlene.
MARLENE
Não se preocupe. O que tem mais é costureira
passando fome. Daqui a pouco tem outra aqui
ganhando a metade e trabalhando o dobro.
Vilma, passando com ROUPAS, entreolha Marlene. Passa por trás de
Silvilene.
VILMA
Vinte peças, hem?
COB Fabíola na Adalgisa.
Vilma mostra uma das bainhas.
VILMA
Têm bainhas duplas, também. Presta atenção
Silvilene. Você nunca lê direito.
Vilma observa a gola que Fabíola conserta.
COB olhar Silvilene.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/12
12
VILMA
Aurélio, quatro centímetros na gola, hem? Fecha
assim, estreitinha.
(COB diversas) Vilma e Marlene trocam olhares.
TOCA o telefone, Fabíola atende.
FABÍOLA
Aleluia consertos e confecção, só Jesus salva,
bom dia.
Cai a ligação, Fabíola desliga o fone.
Vilma abre repentinamente a porta interna.
VILMA
Quem é?
Vilma fecha a porta de vidro.
FABÍOLA
Caiu.
Silvilene se aproxima de Marlene. Segredam. PL e C/PL
SILVILENE
E aí que a gente conversou até de manhã. Ai,
como ele é simpático. Sagitário. Só pode ser.
Muito culto, entende? Nossa, conhece tantas
coisas... (...) Sabia? Tem horas que eu morro de
medo. O Adamastor sempre diz que internet é
coisa do diabo, uma grande mentira. Você pensa
que está falando com alguém, e de repente não é
aquele alguém. É outro alguém que pode não ser
ninguém. (cont.)
SILVILENE
(cont.)E se ele for um tarado, um serial killer?
FABÍOLA
Vira essa boca pra lá.
MARLENE
Não é o cara? Arrisca. Arrisca enquanto há
tempo. Nada pode ficar pior do que já está. Meu
caso. Por amor. Acreditei. Vivemos com muito
pouco, mas com o pouco que temos vivemos bem.
Temos um ao outro. E nada como ter alguém.
SILVILENE
E justo hoje, marte (gesticula) confluência com
saturno. (...)
SILVILENE
Mau presságio. Sinal de que algo vai dar errado.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/13
13
FABÍOLA
Eu, eu... Euzinha... Quer saber o que eu acho?
Acho que você tem que arriscar. Falam de outras
vidas, mas é melhor garantir essa daqui.
SILVILENE
Quanta aflição! (...) Fico sonhando com meu
Jorge Alberto navegando no navio... Pelo mar...
FABÍOLA
(se emociona) Ai, não posso com essas coisas...
Sabia?
Fabíola abraça Adalgisa.
FABÍOLA
Quase fui marinheiro? Deus meu! Aquilo é o
paraíso! (cont.)
TOCA o celular de Silvilene.
FABÍOLA
(cont.) Ai, tantos homens juntos, sabe como é?
Todos aqueles membros da tripulação...
Marlene olha enviesado para Fabíola. Silvilene se dá conta de que
seu celular está TOCANDO.
SILVILENE
É ele! É ele!
Silvilene vasculha a bolsa e acha o celular. Atende,
SILVILENE
É ele! Uau! Meu coração! Fala meu coração!
A ligação cai.
SILVILENE
Caralhos! Caralhos! Caralhos!
Vilma abre a porta, ENTRA assustada com NOTAS e TECIDOS nas mãos.
Olha ao redor, enquanto os demais disfarçam retomando o trabalho.
VILMA
Tudo certo, aqui?
Vilma vai até o balcão, deixa os tecidos e retorna para a porta de
vidro.
COB Os três aguardam alguns segundos em plena atividade. CONT PLANO
ANTERIOR
Vilma abre a porta repentinamente. Olha o ambiente com desconfiança.
Fecha a porta atrás de si.
Alguns segundos de trabalho intenso e a situação se desarma.
Marlene CHAMA Fabíola.
MARLENE
Fabíola, cadê o presente? (para Silvilene) Fica
quieta. É surpresa.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/14
14
Silvilene ordena o monte de roupas sobre a mesa.
SILVILENE
Presente?
Fabíola apanha um VESTIDO colorido na arara.
FABÍOLA
Pretty Woman.
Silvilene se levanta e vai até Fabíola, junto ao espelho.
MARLENE
Tem que estar bonita. Vai experimentar.
Fabíola entrega o vestido.
FABÍOLA
Vai lá, menina. Vai experimentar.
Fabíola close expectativa.
(cont.) Marlene close expectativa.
Silvilene ENTRA com o vestido e a sua roupa na mão.
AFASTAMENTO CARRINHO
FABÍOLA
Você não achou que ia embora sem levar nada da
gente, não é?
Marlene se surpreende com Silvilene e se levanta. Apanha máquina
fotográfica.
MARLENE
Vamos tirar fotos.
Marlene aponta para os dois e fotografa.
Fabíola e Silvilene fazem pose e tiram foto.
Os três se unem para ver o resultado no LCD do celular.
FABÍOLA
Olha só, formidável! Vou botar no orkut!
SILVILENE
Muito boa! Mais uma.
Marlene e Silvilene. SAEM, Fabíola fica com o celular, aponta e
fotografa.
Close Marlene e Silvilene sendo fotografadas.
Fabíola tira a foto.
Os três olham no LDC do celular.
TOCA o celular de Silvilene, chamada do Comandante. Ela custa a
notar.
SILVILENE
É ele! É ele!
Silvilene volta para seu lugar.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/15
15
Silvilene busca o celular desesperada e ATENDE.
SILVILENE
Jorge Alberto, meu amor! Não, no trabalho. Ai,
não agüento. Minhas amigas.
(cont.) Fabíola aparece por trás de Silvilene, coloca a rosa no
pescoço.
SILVILENE
Sim. A que horas? Atraso? Como? Não sabe? Tudo
bem. Me avisa? (para Marlene e Fabíola) O navio
vai atrasar... ele não sabe... (retorna) Nos
falamos logo mais? Na internet? Te amo. Hem?
Como? Oh, Deus!
Acaba a bateria do celular de Silvilene.
Ventila debaixo da saia.
Porta de vidro ABRE. Todos OLHAM assustados.
CARRINHO POR TRÁS DE MARLENE
Vilma entra. Silvilene coloca sua roupa na bolsa, Fabíola retorna à
Adalgisa.
AFASTAMENTO CARRINHO
VILMA
O que é isso, Silvilene? Vai se vestir com
flores, agora? Assim?
SILVILENE
Hoje estou feliz.
(cont.)
VILMA
(próxima de Silvilene) E seu compromisso com
Nosso Senhor Jesus Cristo (“com ele” – aponta
para cima)?
SILVILENE
O Adamastor ta compromissado por nós dois.
VILMA
Equívoco seu. O trabalho maior é para Deus. O
resto, Ele provê. Adamastor sabe disso? (cont.)
VILMA
(cont.) Em nome de Jesus!
VILMA
(CONT.)Na hora do sufoco foi lá, na igreja, que
ele se refugiou. Eu conheci o Adamastor no fundo
do poço. E não esqueça que fui eu quem
apresentou ele a você.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/16
16
SILVILENE
Maldita hora.
VILMA
Desdenhando? Adamastor é o marido que qualquer
uma pediria a Deus.
SILVILENE
Vida pessoal, não.
VILMA
Ué, mas não é isso o que vocês vivem fazendo
aqui?
VILMA
Vocês pensam que eu não percebo? Que sou cega? O
pior cego é aquele que não quer enxergar. Porque
Tiago já disse: “quem não quer ver, não verá”.
Este sim, é o verdadeiro cego. Aleluia!
Marlene acena para Silvilene se acalmar.
(cont.) Vilma olha acentuadamente para Silvilene, que encara por um
tempo e SAI.
(como “euzinha”) Fabíola adverte Silvilene.
FABÍOLA
Quer saber de uma coisa? Vai embora! Vai à luta,
meu bem. Isso aqui acabou para você.
CP Marlene.
MARLENE
Não sei, não. Fica nem que seja para
disfarçar. Hoje tem igreja. Pode estar
certa que a Vilma conta tudo pro o
Adamastor.
APROXIMAÇÃO CARRINHO OU GRUA
Silvilene faz menção de ir embora, mas permanece estática abraçada
com a bolsa.
7 EXT – DIA – RUAS DO RIO – SILVILENE VAI PARA CASA
Ruas movimentadas, pessoas caminhando se cruzam, automóveis em
movimento, Silvilene caminha ansiosa. Senta-se em um banco de
praça desolada. Abre a bolsa e apanha o folheto de mestre guru
prometendo o “encontro do amor incondicional em três dias”.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/17
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7A INT – DIA – APARTAMENTO DO GURU – ESCRITÓRIO OU SALA
MERGULHO 90º
O apartamento é humilde e a disposição dos móveis e roupas uma
bagunça. Os dois anfitriões parecem mendigos. Um TECIDO sob o
teto esconde infiltrações e a iluminação turva. Sobre a MESA de
atendimento, um ABAJUR ilumina a cena.
GRUA DESCE ATÉ A MESA
Silvilene está sendo atendida pelo guru NESTOR e sua enteada e
assistente CLÉO. A NARRAÇÃO de Silvilene trespassa a fala de
Nestor. Cléo usa um GORRO de lã escura.
NESTOR
Assim é que é bom. Como eu sempre
digo: alma tranqüila demais é o
prelúdio da morte. (para Cléo) É
ou não é? (para Silvilene)
Amarelo. (...) O que te aflige?
SILVILENE
Dá pra saber? Vida confusa. Uma
angústia... Vou desaparecer.
NESTOR
Em que sentido?
SILVILENE
Vou embora. Pra longe. Lembra do
Comandante Jorge Alberto?
NESTOR
Aquele caso, da internet, você...
Claro.
Cléo finge teclar um teclado arábico.
SILVILENE
Pois então, se tudo der certo...
Silvilene gesticula o ato de viajar.
SILVILENE
Justo hoje, que marte está em
confluência com Saturno.
NESTOR
Não. Marte em confluência com
Júpiter.
SILVILENE
Saturno.
Cléo gesticula a confluência.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/18
18
NESTOR
Júpiter, garanto. Fosse Saturno,
ora... (cont.)
Cléo bate com a palma da mão na outra, em concha.
NESTOR
(cont.) ...Tudo seriam flores.
Cléo se surpreende e desarma o ato, disfarçando.
NESTOR
Mas não. Júpiter, o planeta que
não é mais planeta, este sim...
Mal presságio.
SILVILENE
Presságio?
Cléo dispõe CARTAS de tarô sobre a mesa.
NESTOR
Coisas, assim... Deixa pra lá. Fez
a simpatia?
Silvilene entrega a maçã no saquinho, Nestor não aceita.
Silvilene abre o saco e tira a maçã.
NESTOR
Só você pode tocar! (...) O
vermelho, cor do amor, do
coração... este está em perigo,
Silvilady.
SILVILENE
Lene.
NESTOR
Como é?
SILVILENE
Silvilene.
NESTOR
É preciso muita cautela. Eu
vejo... Eu, vejo.
Nestor apanha uma carta de tarô sobre a mesa e aproxima dos
olhos.
NESTOR
Como eu lhe digo: o azul. O azul é
a cor da realização de seus
desejos. E aqui está.
Nestor mostra rapidamente a carta a Silvilene e coloca
imediatamente entre outras que Cléo embaralha.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/19
19
NESTOR
Tudo aquilo que acreditamos
verdadeiramente, se torna verdade.
Você precisa do azul. Do céu, do
mar...
SILVILENE
Ah, o mar...
Silvilene repete o gestual da confecção.
NESTOR
Tenho mais visão do que muito
vidente por aí. Essa vida é uma
constante aventura. Vai-se fazer o
quê?
NESTOR
Vamos nos concentrar agora. Cléo,
aos procedimentos de leitura do
futuro.
Cléo passa as mãos sobre as cartas.
CLÉO
Vejo nuvens. Tudo muito nublado.
Mas vejo algo que vem de longe...
mas não está muito claro...
Nestor suspira com uma desistência canhestra.
NESTOR
Vamos ter que apelar para o
espírito. Cléo, concentração.
Cléo cobre os olhos com o gorro e estende os braços sobre a
mesa.
CLÉO
Concetrar, mestre guru.
Concentrar.
NESTOR
Vamos lá, Cléo, traga para esta
mesa a solução para os problemas
de Silvilene.
SILVILENE
Vai, Cléo. Estou tão nervosa...
Cléo aproveita um desvio do olhar de Silvilene para levantar e
descer o gorro.
CLÉO
Sinto... Sinto... Sinto...
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/20
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SILVILENE
Sente o quê?
NESTOR
Calma, que ela está sentindo.
CLÉO
Sinto... Sinto...
Nestor cutuca Cléo.
NESTOR
Sente logo...
Cléo chacoalha e volta ao transe.
CLÉO
Sinto que falta substância.
SILVILENE
Como assim, substância?
NESTOR
Calma que ela explica.
Cléo esfrega discretamente o polegar no indicador.
CLÉO
Substância... Lastro...
Silvilene apanha a bolsa.
SILVILENE
Já entendi.
Do interior da bolsa, Silvilene tira uma pequena bolsa de
dinheiro, e de dentro desta DINHEIRO que coloca a contragosto
em uma CAIXA ornada com elementos esotéricos, que Nestor abre à
sua frente. Cléo observa por baixo do gorro, discretamente, o
conteúdo da bolsa de Silvilene e retorna ao transe.
CLÉO
Agora eu sinto...
SILVILENE
Agora vai sentir.
CLÉO
Concentração, mestre guru.
A partir deste ponto, a narração de Silvilene se sobrepõe às
falas de Cléo.
CLÉO
Ich glaube, das ist möglich. Warum
nicht? Verscheinlicht eine engel
sprechen, was commen Sie das?
Silvilene, em silêncio, se aproxima de Nestor e este pede para
que ela se cale.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/21
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NESTOR
O caboclo é alemão.
ELIPSE
Descontraídos, Nestor e Cléo explicam a Silvilene o melhor
caminho a seguir. (desenvolver falas)
NARRAÇÃO
“O mestre guru estava certo. As
previsões estavam certas. Era o
azul, o azul do mar... (cont.)
ELIPSE
CONTRAMERGULHO
Nestor confidencia a Silvilene, lendo em um livro com o rosto
colado. Ao fundo, soturna, Cléo embaralha as cartas de tarô.
NESTOR
Ouve só: é preferível lutar em
busca de dias melhores, do que
permanecer estático como os pobres
de espírito, que não lutam, mas
também não vencem. Que não perdem,
mas não tem a glória de ressurgir
dos escombros. Só lutar já é uma
vitória. Pode se considerar uma
vencedora.
8 INT – DIA – CONJUGADO DE SILVILENE – TARDE - SÁBADO
Porta da rua BATE. Silvilene deixa a BOLSA e um o pacote com o
vestido em cima da cama, ENTRA no banheiro e se senta no vaso.
Volta do banheiro com uma CAMISA branca do Adamastor molhada,
pendurada em um CABIDE. Pendura o cabide na PRATELEIRA. Apanha
uma caixa de papelão escondida, abre e apanha um pequeno URSO
de pelúcia. Abre o zíper do urso e conta o DINHEIRO que retira
do seu interior. Silvilene apanha uma BOLSA de viagem e guarda
algumas ROUPAS no interior. Ruídos de CHAVE na porta de
entrada. Silvilene se apavora com a entrada de Adamastor,
esconde o urso atrás de uns livros e joga o pacote atrás da
cama. Adamastor entra com JALECO de trabalho e estranha o
comportamento de Silvilene. Olha a camisa secando, se vira,
tira o JALECO e joga-o no chão.
ADAMASTOR
Já fez alguma coisa?
SILVILENE
Cheguei agora.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/22
22
ADAMASTOR
Faz agora, então, que eu estou com
fome.
FRIGIDEIRA esquenta arroz misturado com ovo. Ao lado, PEDAÇOS
de galinha em uma TIGELA. BATE com a frigideira no fogão.
Adamastor liga o computador e viaja. Vai ao banheiro. (ver
ações coordenadas com Silvilene) Adamastor come sentado na
cama. Silvilene se senta próxima no chão. Adamastor olha e
apanha um pedaço de frango do prato de Silvilene. Puxa o lençol
para limpar a boca. Silvilene se recusa a ir para a igreja.
Adamastor toma banho e se veste para ir a igreja.
ADAMASTOR
Não vai se vestir?
SILVILENE
Não, não vou.
ADAMASTOR
Por que não?
SILVILENE
Não quero. Hoje, não.
ADAMASTOR
Como assim?
SILVILENE
Vá sozinho.
ADAMASTOR
O que está acontecendo?
SILVILENE
Nada.
ADAMASTOR
Como, nada? Temos um compromisso.
SILVILENE
Vai chover, e eu quero dar um
jeito na casa.
ADAMASTOR
Amanhã você arruma.
SILVILENE
Não quero trabalhar num domingo.
TOCA o celular de Adamastor. Atende em viva-voz.
(criar falas)
Adamastor sai de casa. Leva a bíblia e o GUARDA-CHUVA.
(Silvilene em ação em casa – escreve bilhete de despedida
(narração off?) arruma as malas, experimenta vestido de
presente)
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/23
23
9 EXT – NOI – PORTA DA IGREJA – SÁBADO
CHOVE. Vilma encontra Adamastor e segreda sua desconfiança com
Silvilene.
10 INT – NOI – CONJUGADO DE SILVILENE – SÁBADO
Adamastor chega da igreja molhado da chuva.
CHOVE, RAIOS clareiam o ambiente. TROVOADAS. VENTO flana as
cortinas. Silvilene está com PIJAMA NOVO. Iniciam uma
discussão.
SILVILENE
Não agüento mais.
ADAMASTOR
O quê?
SILVILENE
Essa vida, esse abuso.
ADAMASTOR
O que foi?
SILVILENE
Não agüento mais!
ADAMASTOR
Ta pensando o quê?
SILVILENE
Vou sair fora.
ADAMASTOR
Nem pensar.
SILVILENE
Tem sido um sofrimento só.
ADAMASTOR
Vai me deixar no vácuo? Tire essa
idéia da cabeça.
SILVILENE
Não agüento mais o clima pesado
desta casa. Bem que Gêmeos eclipsa
com Júpiter, eu sabia que não
poderia dar certo.
Adamastor gesticula e pára desconfiado próximo à WEBCAM. Toma-a
nas mãos e olha-a detalhadamente. Aproxima-se de Silvilene e a
encara bem de perto. Silvilene se afasta. Adamastor abraça-a
por trás com as mãos por baixo dos braços. Silvilene dá uma
GARGALHADA inesperada e volta-se indignada.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/24
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SILVILENE
Porra, não me pega por debaixo do
braço! Você sabe que eu não gosto.
Adamastor se afasta.
ADAMASTOR
Alguma coisa está acontecendo, não
é?
SILVILENE
Eu, hem?
Celular de Silvilene TOCA, ela vê quem é e desliga. Adamastor
toma o celular de Silvilene e vê no dial o nome URSINHO.
ADAMASTOR
Não provoque satanás...
SILVILENE
Deus meu, Adamastor. Só podia ser
Leão. Com ascendente em Áries.
Silvilene (em alguma ação) e Adamastor deitados, Adamastor
sonolento assistindo o televisor, Silvilene trás o relógio
próximo do rosto para ver as horas.
TELEVISOR
Bispo sentado ao lado de uma mesa com DVDs e bíblias.
BISPO
Meus irmãos e minhas irmãs, meus
amados telespectadores, agora
vocês poderão desfrutar, nas suas
casas, das palavras de consolo e
resignação deste bispo que vos
fala. Comprando este DVD, você
estará colaborando com a obra de
Deus e tornando sua vida mais
amena e protegida.
Adamastor apanha a lata de manteiga debaixo da cama e aproveita
um BASEADO de maconha que já está pronto. Acende e traga.
Oferece a Silvilene com desdém e deboche.
BISPO (F.C.)
São versículos, frases de amor e
dedicação, salmos e manifestações
de carinho, resultados de minha
peregrinação por esse mundo. Por
apenas trinta e nove e noventa e
nove, você receberá em sua casa,
como todo conforto, este DVD.
Silvilene escova os dentes.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/25
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BISPO (F.C.)
E ainda mais, ganhará,
inteiramente grátis, este frasco
com areia do deserto de
Jetzamaneh, pisada por ele, para
inspirar suas orações...
Adamastor guarda a lata de manteiga debaixo da cama.
BISPO (F.C.)
E ainda mais, se você ligar agora,
ainda ganha inteiramente grátis,
este outro frasco com água do rio
Jordão, para unir à areia do
deserto e evitar a sede, conter as
atrações malignas.
Silvilene Passa por cima de Adamastor e esbarra sem querer no
ventilador, que passa a BATER com as pás na grade. Silvilene
move a grade do ventilador até que o ruído PARE. Silvilene
CONFLITA com o ventilador.
(usar a lanterna)
No computador, ela tenta fazer contato com o Comandante. Na
página, foto do Comandante com a legenda “OFF-LINE”. Na página
da tela, aparece repentinamente a legenda “ON-LINE”. Silvilene
dialoga com Comandante.
(Adamastor DESCOBRE PRESENTE DE Marlene E Fabíola)
Adamastor larga o celular, coça a cabeça, senta-se à mesa de
trabalho e lê a BÍBLIA. Com a bíblia na mão, toma Silvilene
pelo braço.
ADAMASTOR
Vamos tentar uma coisa.
SILVILENE
O que?
ADAMASTOR
Venha aqui. Se ajoelhe.
SILVILENE
Como é que é?
ADAMASTOR
Confie em mim. Ajoelha, porra!
Adamastor força Silvilene a se ajoelhar.
ADAMASTOR
Já sei o que está acontecendo.
(entona) Sai desgraçado.
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SILVILENE
Ah, não, não acredito. Por favor,
Adamastor, não inventa! Não entra
numa seara que você não conhece.
Vai fazer bobagem!
ADAMASTOR
Tranqüila. Abaixa a cabeça!
(entona) Fala comigo desenganado!
Silvilene resolve aceitar a situação para não conflitar e
representa.
SILVILENE
Estou aqui...
ADAMASTOR
Com voz grossa, ô abestada!
SILVILENE
(gutural) Ah, eu tomei este
corpinho aqui.
ADAMASTOR
E o que você está fazendo?
SILVILENE
To arruinando a vida dela.
ADAMASTOR
Tu é encomenda de alguém?
Silvilene exita, Adamastor dá-lhe uns tapas na cabeça.
SILVILENE
Diabo, tudo bem. Porrada na
cabeça, não!
ADAMASTOR
Abestado, abestado.
Anúncio do Bispo no televisor ligado.
ADAMASTOR
Sai abestado, livra este corpo,
esta alma.
Silvilene rosna e tenta morder a perna de Adamastor.
ADAMASTOR
Olha quem está do nosso lado. Ele
está aqui, aqui. Sai logo!
SILVILENE
(levantando-se) Pronto, já saiu.
ADAMASTOR
Ajoelha, tem que ser com
convicção.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/27
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Adamastor larga Silvilene que sai rastejando. Adamastor,
concentrado, não nota seu afastamento. Repentinamente se dá
conta que está só. Vai atrás de Silvilene, a encontra no
banheiro. Força a porta, ela não abre.
SILVILENE
Sai que eu estou fazendo um
descarrego.
Adamastor não se conforma, arrasado, tira a camisa e vê o
jaleco de trabalho jogado no chão. Seu celular TOCA e ele
atende.
TELEVISOR
Recolhimento de dinheiro na platéia, que aplaude, enquanto
colocam os valores no SACO de coleta.
BISPO
Cego... O maior cego é aquele que
não quer ver. Tiago disse: aquele
que não quer ver, não verá... Faça
sua contribuição, porque ele vê.
Abram seus corações. Sintam-se
livres deste peso maldito.
VOLTA A CENA
Bispo atende a uma chamada telefônica no ar.
BISPO (F.C.)
Tem alguém na linha? Pode falar
criatura de deus, como é seu nome?
DESESPERADA (F.C.)
Desesperada de Acari.
BISPO (F.C.)
Fala então, “desesperada de
Acari”. Qual é o seu problema?
DESESPERADA (F.C.)
Ah, seu bispo eu tenho problemas
na família, meu marido bebe, tenho
dívidas...
BISPO (F.C.)
Se acalme, desesperada. A
propósito, já fez o depósito do
dízimo este mês?
DESESPERADA (F.C.)
Ainda não, bispo. Preciso pagar
contas...
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/28
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BISPO (F.C.)
Não, não é assim que se faz,
desesperada. Primeiro, nós pagamos
o dízimo e, depois, se pudermos
pagamos as dívidas. Saudando seu
dízimo, depois, tudo virá.
ELIPSE
CHOVE, RAIOS clareiam o ambiente. TROVOADAS. Televisor ligado,
Silvilene deitada ao lado de Adamastor, que opera o controle
remoto. Silvilene vira-se de lado para dormir. Adamastor
aproxima-se lentamente e encaixa o seu corpo no dela. Silvilene
se afasta com um pulinho. Adamastor tenta outras vezes e é
rejeitado em todas. Vira-se frustrado para o seu lugar e aciona
o controle remoto.
TELEVISOR
Vários canais com programas diversos, até o programa do Bispo.
BISPO
Até que enfim voltaste para a casa
de deus, que te acolhe e ilumina a
sua alma desgarrada.
VOLTA A CENA
ELIPSE
Adamastor ajeita-se na cama, fingindo sonolência.
BISPO (F.C.)
Estamos aqui para aprender com a
vida aquilo que a vida quer nos
ensinar, mas nós não queremos
aprender.
TELEVISOR
BISPO
A vida é a vida. E o mundo gira. E
deus, este ser que tudo controla,
também controla a vida e o mundo.
A sua vida, a minha, a nossa vida.
RODAPÉ DA IMAGEM DO TELEVISOR – “ADQUIRA JÁ SEU CARTÃO “CREDIJESUS”.
VOLTA A CENA
Adamastor finge dormir. Silvilene levanta-se e passa pelo
ventilador, cujas pás batem na grade. Silvilene revoltada, mexe
na grade até que cessa o ruído. Segue até o computador.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/29
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BISPO (F.C.)
A vida, portanto, devemos a deus.
A passagem por este mundo é só uma
prova de que a realidade é
sagrada.
FIÉIS (F.C.)
Aleluia.
CHOVE, RAIOS clareiam o ambiente. TROVOADAS. Apanha a toalha e
o estojo de manicuro, prepara-se para fazer as unhas, mas ao
invés disso, as RÓI.
TELA DO COMPUTADOR
Comandante digita.
TEXTO – COMANDANTE – Meu chocolate... Que surpresa agradável!
(ver texto – Nosso último contato...)
BISPO (F.C.)
vamos tratar de um assunto que
pode arruinar a vida de uma
família, aleluia.
TELA
Silvilene ao vivo DIGITANDO.
COMANDANTE
Morro de paixão por ti, espero que
nada de mal aconteça. Está tão
escuro aí...
Silvilene acende a luz da escrivaninha sempre acompanhando a
sua imagem na tela. AJEITA as alças da blusa do pijama.
BISPO (F.C.)
Aleluia, irmãos! O sétimo
mandamento ordena: não trairás.
Mas, quem de vós não transgrediu,
aleluia, ainda que em pensamento,
aleluia, esta barreira da carne.
Silvilene olha para Adamastor, que PARECE dormir. Comandante
sorri.
BISPO (F.C.)
Quem nunca prevaricou diante de um
outro elemento e esqueceu de seu
sacro compromisso com o marido ou
a esposa? Aleluia. Trair, irmãos,
é uma das formas que o demo se
manifesta na carne, aleluia.
Silvilene TIRA os óculos. Em segundo plano, Adamastor ESPIA
Silvilene.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/30
30
TELA
Comandante se transfigura de satisfeito para assustado.
VOLTA A CENA
TROVÃO e RAIO
Adamastor de pé, perplexo, aproxima-se de Silvilene.
TELA
Comandante aponta Adamastor para Silvilene, tentando alertá-la
da aproximação que ele vê pela WEBCAM.
VOLTA A CENA
(ver situação com celular)
(A) Adamastor atrás de Silvilene, possesso. Silvilene desce a
blusa do pijama com sensualidade, cordão do Comandante ao
pescoço. Reação do Comandante na tela. RAIO. Ventilador passa a
BATER e Silvilene volta-se para trás, vendo Adamastor.
ADAMASTOR
Ah, então é isso? Quer dizer...
Sua safada, excomungada, possuída,
desgraçada!
Silvilene foge para a cama, transtornada. Adamastor se dá conta
que a imagem é transmitida, aproxima-se do computador, se
posiciona melhor, abaixa o short e aponta o sexo para a WEBCAM.
Silvilene, em segundo plano, está deitada na cama aos PRANTOS
cobrindo o rosto com as mãos. Adamastor APONTA a WEBCAM para a
cama. ACENDE a LUZ.
TELA
Comandante contorce o rosto com o que vê.
VOLTA A CENA
Adamastor deita-se em cima de Silvilene. Silvilene coloca a
língua para fora, tenta gritar e não consegue. Encontra sobre a
cama o controle remoto e LIGA o televisor. Adamastor olha de
lado para o televisor.
TELEVISOR
Bispo com as mãos espalmadas na direção da CÂMERA.
BISPO
Não, não matarás! Não matarás, por
deus, aleluia.
VOLTA A CENA
Adamastor irrita-se com a fala do Bispo e aperta ainda mais a
garganta de Silvilene.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/31
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BISPO (F.C.)
Afastai este demônio que domina
seu corpo e sua mente. Não permita
que o cão arruíne a sua vida...
TELA DO COMPUTADOR
Comandante disca seu CELULAR apressadamente.
VOLTA A CENA
O celular de Silvilene TOCA em cima da cama. Silvilene tenta
alcançá-lo e não consegue. Gesticula para que Adamastor o faça
e o atenda. Adamastor em princípio não entende, mas depois
larga o pescoço de Silvilene e atende o celular.
ADAMASTOR
Sim? Como? Hum...
Adamastor olha para a tela do computador. Levanta-se e caminha
em direção ao computador olhando fixamente para o Comandante.
Silvilene levanta-se da cama com dificuldade, ainda sufocada
com o estrangulamento.
ADAMASTOR
Como assim, uma proposta? O que
você quer dizer com isto?
TELA DO COMPUTADOR
Comandante fala ao celular expressivamente, gesticulando muito.
VOLTA A CENA
Adamastor continua caminhando até o computador, cada vez mais
atento ao que está sendo dito pelo Comandante.
ADAMASTOR
De que forma? Hum, sim...
Depósito... Entendo...
Silvilene passa cambaleante, em segundo plano e com as mãos no
pescoço, em direção à cozinha.
TELA DO COMPUTADOR
Comandante, recostado na cadeira, parece finalizar a proposta,
mais otimista.
VOLTA A CENA
Adamastor senta-se na cadeira do computador absolutamente
atento. Em segundo plano, Silvilene PASSA de volta da cozinha,
retira uma MALA de trás da cama e a coloca em cima. SAI e ENTRA
com um vestida com o presente, o vestido florido.
ADAMASTOR
Mas esta quantia... Sim... De que
forma? Um cheque?
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/32
32
TELA DO COMPUTADOR
Comandante gesticula que não e em seguida esfrega o polegar nos
dedos indicador e médio.
VOLTA A CENA
Adamastor reage positivamente. Silvilene apanha a mala, o urso
e passa por trás de Adamastor em direção à saída.
ADAMASTOR
Então, começamos a nos entender...
e, quando?
A porta de saída BATE. Adamastor fica indeciso entre sair atrás
de Silvilene e continuar ao computador.
TELA
Comandante gesticula as últimas explicações.
11 EXT – MADRUGADA – RUAS DO RIO – SOLIDÃO (RETIRADA)
COMO SEQÜÊNCIA 3
Silvilene solitária. Um MENDIGO se aproxima de Silvilene e ela
reage, batendo-lhe com o urso. Um outro MENDIGO se aproveita e
leva sua mala. Silvilene caminha, desolada, abraçada com o
urso. Silvilene entra numa LAN-HOUSE.
12EXT/INT – NOI – CASA DE COMANDANTE E SILVILENE – CONCLUSÃO
LEGENDA – TRÊS MESES DEPOIS
CONTRA-MERGULHO/SUBAQUÁTICA
CÂMERA LENTA
FUNDO da piscina. Reflexos no espelho da água com a CONTRALUZ
da LUA. SILVILENE de MAIÔ amarelo se prepara para mergulhar
como uma nadadora, mas mergulha de pé como uma criança.
FUSÕES
Partes do corpo de Silvilene banhando-se entre BOLHAS de ar.
Silvilene EMERGE no espelho d’água da piscina. Apenas detalhes
do seu corpo. Sobe a ESCADA. PERNAS de Silvilene.
SILVILENE (OFF)
Eu acreditei no meu sonho. Aliás,
a vida é um sonho acordado, onde
podemos mudar o enredo para pior
ou para melhor.
CARRINHO
Silvilene caminha sobre o deque até uma CADEIRA reclinável,
onde apanha uma TOALHA. Enxuga-se. SAI em direção à casa.
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/33
33
SILVILENE (OFF)
No meu caso, tive uma dose de
sorte, e meu sonho foi feliz. Mas
o início.
CÂMERA ESTÁVEL
Silvilene entra na casa, passa entre MÓVEIS e um TELEVISOR de
tela plana ligado em um FILME (F.C.) até uma ESCRIVANINHA onde
está um LAPTOP.
MALAS prontas para viagem. Sobre as malas, a FARDA do CMG.
COMANDANTE
(ao telefone)
Dez horas. É só buzinar que eu
saio. O número é este, mesmo.
Obrigado.
CMG e SV se encontram.
SILVILENE
Oi, amor.
COMANDANTE
Vou sentir saudades.
Comandante morde os lábios, ansioso. Silvilene abre a toalha.
Comandante sorri.
SILVILENE
Hum, a gente vai se falando, não é
mesmo?
Silvilene abre a toalha mais um pouco.
COMANDANTE
Você faz... (gesticula a mão) Se
eu pedir?
SILVILENE
Tudo. Tudo que seu mestre mandar.
BUZINA. Comandante apanha a mala, Silvilene a FARDA. Se
encaminham para a porta de saída.
Porta de saída, Silvilene abraça a farda e a entrega ao CMG.
Pisca-pisca do alerta do táxi.
Comandante pega as suas malas, coloca no bagageiro de um táxi e
despede-se de Silvilene. Entra no táxi. (F.C.)
Silvilene volta para a sala e senta-se em frente à televisão.
Troca de canis com controle. Silvilene volta para um canal e
vê, surpresa, Adamastor e Vilma dançando e cantando. O SOM do
televisor AUMENTA sozinho. Silvilene surpresa, HINO evangélico.
INTERCORTE TELEVISOR
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/34
34
Adamastor entra em cena com Vilma, Fabíola e Marlene dançando e
cantando hino evangélico.
CRÉDITOS FINAIS
FIM
Roteiro Enquanto 13 6/13/2010 0:42 a6/p6 35/35



CARACTERÍSTICAS DOS PERSONAGENS

Personagem Principal: SILVILENE

Características: Silvilene é costureira, mora em um conjugado com o “marido”, mas não gosta dele. É sonhadora, mística, acredita na possibilidade de realização de seu sonho de amor com o Comandante Jorge Alberto, que conheceu na internet. É uma mulher sensual, bonita, romântica.
Personagem Coadjuvante: COMANDANTE JORGE ALBERTO
Características: Personagem que Silvilene conheceu na Internet e pelo qual se apaiconou. Jorge Alberto é rico, romântico, também acredita no amor e em sua realização, homem forte, inteligente, decidido.
Personagem Coadjuvante: ADAMASTOR (Antagonista)
Características: Adamastor é “marido” de Silvilene. Vagabundo, um homem imprevisível, estúpido, e manipulador. Vive as custas de Silvilene, é um crente, radical.

Personagens Secundários:

Marlene: Amiga de Silvilene, torce por ela.
Fabíola: Amiga de Silvilene, também gosta dela.
Vilma: (Antagonista) Dona da loja de confecção, costureira, crente, amiga de Adamastor e não acredita em Silvilene.
Bispo: Bispo evangélico que aparece todas as noites na televisão, golpista, aproveita-se da fé dos crentes para tirar-lhe dinheiro, radical.
Angelina: Crente que participa das reuniões, sofre a influência do bispo....
Mestre Guru Nestor: Conselheiro de Silvilene, místico, que interfere na vida de Silvilene e lhe dá indicações para melhoria, consultor sentimental.
Cleo: Assistente do Mestre guru, enteada dele.
Desesperada do Acaraí: Outra crente que pede conselhos ao bispo...


CENÁRIO:
O Cenário é a casa de Silvilene, um apartamento conjugado, fica no centro do Rio de Janeiro. Também cenas que se passam na Confecção, onde Silvilene trabalha, e também na Internet, onde fala com o Comandante Jorge Alberto. Outras cenas são na televisão, as cenas do Bispo Evangélico. Outras cenas de Silvilene numa praça do Rio de Janeiro.

NECESSIDADE DRAMÁTICA DO PERSONAGEM

O sentimento que move nosso personagem princiapal, Silvilene, é o AMOR, o GRANDE SONHO DE AMOR. Ela acredita que sua vida pode mudar, acredita na realização de seu sonho de amor com o comandante. Acredita também na interferência de forças universais, como os astros, na vida das pessoas aqui nesse planeta, acredita que existe um destino e uma razão de ser para todos.... Vai em busca de seu sonho. A necessidade dramática portanto, é a realização deste sonho de amor.
SITUAÇÕES ANTAGONISTAS E CONFLITOS
Os conflitos que aparecem no caminho da realização dramática do personagem, são muitos. O principal é o quase absurdo e impossível sonho com uma pessoa da internet. Existem conflitos emocionais, onde Silvilene em alguns momentos não sabe se é verdade o que está lhe acontecendo. Ou, se a pessoa do Comandante pode ser virtual apenas, ele pode estar mentindo... Mas, o seu amor é maior que tudo. O seu companheiro atual, é um homem estúpido, que não tem nada a ver com o mundo sentimental de Silvilene. É um crente evangélico, que acredita em tudo o que o bispo fala, mas contraditório, moralmente falando, pois é um maconheiro, e um vagabundo, que vive as custas de Silvilene, e não quer perder esse lugar. A Sílvia, personagem amiga de Adamastor, também da igreja, desconfia de Silvilene e faz fofocas a Adamastor sobre ela. Outros aspectos de conflito, é a confluência dos planetas, que podem prejudicar a decisão de Silvilene. E, outro aspecto, é o atraso do Comandante, no início da história.

O CLÍMAX OU PLOT POINT PRINCIPAL

O clímax se dá quando Adamastor descobre o presente que Silvilene ganhou das amigas, e o comentário que Silvia fez sobre Silvilene e as suas desconfianças.... Isso acaba desencadeando situações, e Adamastor interroga Silvilene. Silvilene diz a ele que não quer mais uma vida em comum ao lado dele e ele não aceita. Nesta noite, Adamastor fica acordado, pois já está desconfiado em relação a internet, e vê Silvilene conectada com o comandante trocando juras de amor. Os dois começam a brigar, Adamastor quer estrangular Silvilene. O Bispo aparece na televisão nesta hora, e o que diz, acaba interferindo nesta ação. O comandante liga para o celular de Silvilene, que toca e Adamastor atende. Adamastor se conecta na internet e fala com o Comandante. O comandante faz uma proposta a Adamastor. A quantia em dinheiro oferecida para que livre Silvilene, faz com que a situação mude. Adamastor abre mão, e Silvilene sai de casa, para o encontro com o Comandante....

ADAMASTOR – ANTAGONISTA

O sentimento que move Adamastor, marido de Silvilene, é o interesse, o oportunismo, a crença rígida em contrapartida com o seu caráter contraditório. É um falso moralista. Usa isso apenas para se manter ao lado de Silvilene. Não é um homem inteligente, e reage negativamente diante dos obstáculos, usando a força bruta.

COMANDANTE JORGE ALBERTO

O Comandante Jorge Alberto, um cara inteligente, sensível, apaixonado, a força que move suas ações, é o amor e a sensualidade de Silvilene, que despertou seu anseio de viver ao lado dela. Ele acredita nisso. Ele sabe o que quer.

RESOLUÇÃO FINAL

A resolução de todos os conflitos se dá quando Adamastor conversa com o Comandante pela internet e aceita sua proposta. Adamastor ali se revela, é o que é, um mal caráter. E abre mão de Silvilene por causa de dinheiro. O dinheiro que o comandante lhe oferece. A carta de alforria de Silvilene....

SÍNTESE

Gostei muito desse roteiro de Cristiano Requião. O mais interessante, é esta viajem pelo mundo virtual, internet e televisão, e a interferência destes mecanismos nas nossas vidas. A forma como o Diretor trabalha em cena esta relação destes mecanismos e o espaço dos personagens.... O Bispo que está ali na televisão, o apartamento onde se encontram Silvilene e Adamastor e a internet onde se encontra o personagem do Comandante, amor de Silvilene. Há uma perfeita sincronia entre estes mecanismos e a interação dos personagens... Os personagens estão ali no momento necessário, se apresentam, complementam a cena de forma bastante humorística, e se interelaconam.
Mostrando exatamente o que acontece conosco de forma verossímil, no nosso dia a dia via internet, quando usamos o leptop, para nos relacionarmos com amigos virtuais, e para darmos direção as nossas fantasias e anseios, e até para embarcarmos num sonho de amor, que, ao contrário do que poderia se acreditar, pode ser possível....
E, mostra de outro lado, a televisão, o Bispo e seu poder de influenciar os telespectadores, invocar forças, e sugestionar as pessoas em casa para serem partícipes da igreja evangélica. O poder da sugestão, o falso moralismo, e o dízimo que caracteriza a manipulação dos fiéis obcecados de seu templo....
Enfim, o roteiro de Cristiano Requião foi muito bem escrito, e caracteriza-se por apresentar essa novidade, esse trabalho com o espaço, em relação aos personagens... Esse trânsito via internet e televisão.

CRISTIANO REQUIÃO

Profissional de cinema há trinta anos, já trabalhou como Assistente de Direção e Diretor de Fotografia em onze longas nacionais e estrangeiros, além de algumas centenas de filmes institucionais. Autor do primeiro documentário de montanhismo para o cinema (Dedo de Deus - 1986), produz, escreve e dirige seu primeiro curta-metragem de ficção.

sábado, 30 de outubro de 2010

Jacques Lacan parte 6/7 Grandes pensadores Encuentro completo

Jacques Lacan parte 4/7 Grandes pensadores Encuentro completo

ENCONTRO COM O PASSA DO - por Diadorim Sabiá

ROTEIRO LITERÁRIO

TÍTULO DO FILME: ENCONTRO COM O PASSADO
I
- Coronel Argel, a patrulha florestal, agradece muito sua presença aqui todos os sábados, e, hahahaha, os cavalos também.
Argel sorri para os soldados, e diz que sem esse contato com a natureza, não seria a mesma pessoa. Trazem os cavalos, cinco cavalos preparados para a cavalgada. Os outros amigos de Argel, Leandro, Raul, Emerson e Paulo, começam a argumentar entre si, se seguem o dia todo, ou param no armazém do Creonte, na estrada do Cerne.
Agora já estão em marcha, conversam coisas do trabalho, alguns deles são empresários, o Leandro e o Raul, e os outros dois, trabalham no exército, o Paulo e o Emerson.
O mais novo, Leandro, fala sobre suas aventuras românticas, os desafios, e convida os outros a falarem sobre as mulheres. Naturalmente isso acontece, todos eles são separados, com exceção de Leandro que é solteiro. Hoje excepcionalmente percebemos que Argel se encontra mais calado e introvertido. Embora não seja habituado a falar sobre suas vida pessoal com os amigos, acompanha o jogo deles, mas não parece se divertir muito.
Depois de 10 km de cavalgada, chegam até o Armazém do Creonte, onde tudo se vende, restaurante de frutos do mar, pescados, e pequena hotelaria ao lado, para atender turistas que visitam a região. Os amigos decidem dar uma parada ali, pois avistaram algumas turistas alemães. Argel no entanto, diz a eles que prefere seguir um pouco adiante, mas voltará em breve. Os amigos quase não percebem o que Argel diz, concordam com ele, mas estão mais interessados nas meninas ali...
Argel segue adiante em seu cavalo, adentrando mais na floresta e alcança o rio, vai ladeando o rio, observando o barulho dos bichos, o dia que está nascendo. Por ter vivido muitos anos em Manaus, no exército, na floresta Amazônica, e convivendo com os índios, não sente nenhuma dificuldade de tropegar por essas paisagens. Muito pelo contrário, seu coração se aviva mais, sua paixão reanima, e ele se sente parte daquele cenário ali. Já quase vencido uns 5 km, começa a sentir seu cavalo, áspero, e recalcitrante. O cavalo estaca repentinamente, não quer prosseguir e Argel se vê obrigado a descer e seguir andando... O cavalo parece ter sentido algo no ar, talvez um bicho perigoso, ou cobras... No entanto, à medida que anda, parece mesmo que até os ruídos de outros bichos se dispersam, e faz-se aos poucos um silêncio naquele lugar. Mais alguns metros adiante, Argel avista cacos de cerâmica pelo chão, flechas, coisas antigas, provavelmente um cemitério indígena. Fica ali por alguns instantes, observando e sentindo aquele lugar. Não imaginava que havia ali um cemitério, ouvira falar de uma pequena aldeia, mas ainda não entrará em contato com nenhum índio, nem sequer tinha avistado índios por ali.
Há muito tempo os índios já deixaram quase todos os costumes e se misturavam a tudo aquilo que vinha da cidade grande. Argel então, resolveu retornar, pois já estava um pouco tarde, e seus amigos certamente ainda se encontravam no Armazém. Logo que chegou, Argel visualizou os amigos numa mesa, em companhia das turistas alemães, e acredito, os amigos não dariam conta de sua falta se ele decidisse dormir no mato... Ao se reunir aos amigos, logo o Raul quis aproximá-lo de uma delas. Argel e a turista, Lídia, começaram a conversar.... Até o cair da noite. A turista alemã reparava em Argel seus traços morenos, de expressão forte, bastante másculo, um homem seguro e observador...
Voltaram para a cidade de camionete como de costume. Argel morava no centro de Curitiba. Divorciado e sem compromisso a algum tempo, Argel se instalará num apartamento, gostava de apreciar o turbilhão da cidade, e imaginar que ali havia mais selvagens do que em outro lugar no norte do Brasil, a floresta Amazônica. Argel, nos finais do dia, abria a janela, chegava à sacada do prédio, e, como no alto de uma montanha, ouvia e percebia todos os sons, distinguindo, sirenes, bozinas, gritos, enfim, o que vinha da cidade. Apurando seus ouvidos, pontos, referências, como aprendera com os índios. Gostava disso, apesar da cidade grande, tudo em seu íntimo era regido por uma lei maior. Sua natureza, poderia se ligar a qualquer pessoa, em qualquer lugar, e logo travava conhecimento, intuição, empatia. O silêncio, e o espírito das matas, como na Amazônia, regia o corpo, regia o funcionamento de seu corpo, a natureza e ele próprio estavam em harmonia, sincronia e unidade. Por isso, e para isso, Argel havia nascido, a sobrevivência, os modos de viver, apesar dos obstáculos, os desafios, e o modo de morrer...
Assim também, seguindo esse mesmo comando, conseguia sobreviver nesta outra selva, de concreto, e com outras espécies de homens.
Os amigos de Argel não entendiam e não chegavam a compreender essa sua particularidade. Viam a vida sem o compromisso de ser um homem verdadeiro, autêntico e real. Apenas gostavam de passar pela vida, e aproveitar as oportunidades, sem nenhum compromisso maior, ideal, quero dizer. Não tinham essa intuição selvagem que caracterizava a personalidade de Argel.
Nesta noite, durante o sono, Argel começou a sonhar, apareceram-lhe vários signos e significados ligados aquele primeiro contato dele com o cemitério dos índios. Muitas cenas antigas, de guerras, ataques, massacres de povos percorriam os caminhos do sonho. E assim, ele estava entregue ali, a um conteúdo que iria mudar sua vida daqui em diante. Argel acordou sobressaltado com a intensidade das emoções, e a veracidade desta experiência nos sonhos. E sabia que aquele sonho estava ligado a sua descoberta do cemitério. No outro dia, resolveu retornar aquele local, porém sozinho, não contou a seus amigos sobre o acontecido.
Esteve lá novamente, colheu o material, segurou entre suas mãos, sentiu e percebeu. E, olhando tudo aquilo, sentiu que precisava conhecer mais sobre aquela região. No caminho de volta, cavalgando na estrada, se deparou com uma índia que volvia a pé e descalça pela mesma estrada. Aproveitando este fato, se aproximou dela, olhou-a nos olhos, a beleza e o encanto daquela índia, não se assemelhavam a beleza das mulheres que conhecia na cidade. Era um outro encanto, e uma outra beleza. Uma naturalidade nos gestos, uma suavidade e uma inocência, que até então ele não encontrara ali com as mulheres com quem se relacionara... E, perguntou a ela se poderia dar informações sobre o cemitério... A índia, entendia perfeitamente a língua, falava tranquilamente, e disse a ele que poderia leva-lo até sua avó, na aldeia indígena, para ele próprio colher as informações de que precisava.
Argel ofereceu garupa para a índia que estava a pé. Ela aceitou, e os dois cavalgaram devagar, observando a paisagem, em silêncio, apenas na presença e na revelação de si próprios, que tinham acabado de se encontrar...
Realmente, uma pequena aldeia indígena, algumas famílias que viviam ali já a algum tempo, culturalmente adaptados, com outros costumes vindos da cidade. A índia levou Argel até sua avó. Sua avó era uma espécie de mentora espiritual daqueles indíos ali, guardiã de seu povo e dos segredos daquela raça. A velha índia estava de costas, quando sua neta pediu que olhasse e reparasse na presença deste homem, Argel. A velha largou o que estava fazendo, em frente a uma fogueira, colhendo e aplicando uma massa, e volveu os olhos, em direção a Argel. Não se espantou, mas reconheceu a pessoa que ali se fazia presente, na figura de Argel. Sorriu para ele, e pediu que se sentasse próximo a ela. Ofereceu algo para ele tomar, e deixou-o a vontade. A neta se retirou e os dois começaram a conversar. A velha mais ouvia do que falava a princípio. Argel se sentia a vontade diante daquela velha índia, porque assim sempre foi na selva Amazônica, e ali estava sendo assim também...
A velha índia contou a Argel sobre a aldeia, sobre sua origem, em que momento essas famílias resolveram se instalar ali, quais os problemas que enfrentavam, as dificuldades, a história de seu passado, os costumes de seu povo.... E falou com grande preocupação dos interesses de alguns homens que vinham e entravam na aldeia sem nenhum respeito. Eram homens que lidavam com empresas, não sabia ao certo a natureza dessas empresas, que cortavam madeira naquelas redondezas e coisas assim... Argel não disse nada a índia, mas compreendeu qual a intenção daqueles homens que a algum tempo rondavam a aldeia...
Retornou para a cidade com a promessa feita a velha índia, de retornar, e se aproximar daqueles índios e ajuda-los no que fosse possível. Argel tinha muitos amigos, muitos conhecidos, não só no exército, mas no Governo Federal, políticos e ativistas que sempre estavam ligados ao trabalho e desenvolvimento do povo indígena, e das tribos que ainda existem na Amazônia.
Argel visitou a aldeia indígena várias vezes, não só visitou como também dormiu ali, para perceber melhor a natureza das dificuldades que aqueles índios passavam. E, aos poucos, também foi se aproximando da neta da velha índia. Em seu coração viu nascer um sentimento de carinho e cuidado, a princípio, em relação a ela. Observava todos os passos daquela mulher indígena, admirava o seu trabalho, seu esforço, e progressivamente, a imagem desta mulher foi se fixando em sua mente e em seu coração, dando lugar a um amor que até então ele não sentira por outra mulher. Mas, ainda não revelara a ela, a intensidade de sua paixão. Apenas se contentava com a presença dela ali, de todos os índios, e de vê-la e percebê-la no quadro e no cenário de seus sonhos mais lindos. A única pessoa, testemunha do nascimento deste amor, era a velha índia, que tudo percebia, e tudo via, no mais íntimo de uma pessoa humana.
Á noite, ao redor da fogueira, os integrantes da pequena aldeia se reuniam e, as crianças brincavam enquanto lhes sobrava energia. Os pais contavam uns aos outros o que se passava durante o dia, e quando surgia, desta conversa, um fato mais relevante, acrescentava-se lhe um graveto ao fogo. As chamas se alvoroçavam e a luz alimentava os sonhos e esperanças deste povo. O manto da memória cobria aos poucos o presente, e a crença no destino tornava-se lenda. Eram os mesmos guerreiros de outrora.
As palavras de hoje eram substituídas por palavras de ontem, a língua tupi-guarani renascia ali entre eles, repetiam-nas, cruzavam os gravetos ao fogo, riscavam com a sola do pé o chão, e uma canção, como o murmurinho crescente de um rio, ganhava forma e ocupava o silêncio da noite. Ritmo e espaço, como os troncos e as árvores, o cipó e a unidade, a canoa e o rio, a caça e o caçador, uma só e mesma coisa.
Agora Argel acordara, sabia porque estava ali, o espírito deste povo entrara e cumulara seus sonhos, sua vida.

II
Infelizmente, Argel não sabia que seus amigos o queriam separar da tribo, da pequena aldeia, porque Raul, o empresário, estava envolvido na compra daquelas terras, juntamente com um Deputado Estadual daquela cidade. Raul sabia que Argel era uma personalidade muito conhecida entre os indígenas, desde a Amazônia, e o queria longe daquele lugar. Raul, irmão da ex-mulher de Argel, compunha uma intriga de interesses que vinha desde a herança da família passando por uma série de pequenos delitos empresariais, e Raul, não media as consequências de suas atitudes. Isto também porque frequentemente era instigado por sua irmã, que não aceitava a separação de Argel. Preferia ver Argel morto, a que outra pessoa ocupasse o seu lugar.
Naquele dia, Argel ao retornar para a aldeia, percebeu e sentiu em seu coração que alguma coisa havia acontecido. E, no início da madrugada, homens armados entraram na aldeia dos indígenas, aterrorizaram os índios, violaram o acampamento, a aldeia, os índios sem defesa nada puderam fazer a não ser assistir tudo. O mais terrível, a velha índia que tentara defender sua neta do ataque de um daqueles homens, foi agredida violentamente, e agora estava á beira da morte. Os índios, neste desespero todo, pretendiam, pegar suas coisas, e ir embora daquele lugar.
Á beira da morte, no entanto, a velha índia olhava para os olhos de Argel, ajoelhado ao seu lado, segurando sua mão. Argel intuira tudo aquilo e de alguma maneira, se sentia culpado pelo acontecido. Olhava desoladamente a índia e pedia-lhe desculpa por tão desumano propósito daqueles homens ali. E, prometia vingança e segurança para os índios. A velha índia, nos seus últimos instantes de vida, conseguiu ainda conversar com Argel, e revelar-lhe um segredo.
Argel fôra a criança que ela salvara no leito de sua mãe. Criança que quase morrera no nascimento. E esta criança estava predestinada a ser um grande guerreiro, e salvar o seu povo do império cruel da civilização. Ela disse a Argel, sorrindo, que sabia que ele viria um dia, e ficou muito feliz ao reconhece-lo, quando sua neta o trouxe naquela primeira vez. Disse a Argel pra não guardar rancor pelo que havia acontecido ali aquela noite, porque isso já havia sido previsto mesmo... Pediu a Argel que cuidasse de sua neta, em seu lugar, e cuidasse do povo, no lugar dela. As terras eram dele e de seu povo. E assim, enquanto Argel escutava a velha índia balbuciar essas palavras, reconhecia no rosto e nos traços indígenas todo o sentido de sua vida até então. Aos poucos o fôlego da velha índia Maira, foi se extinguindo, até que fechou os olhos para o sonhos dos espíritos, na mata. Neste momento, seus olhos ficaram focados nos utensílios que a velha usava para convocar os espíritos de seus ancestrais na pajelança, e, não teve mais dúvidas a respeito de sua própria vida. Segurou a mão da velha índia, e beijou-lhe a testa. Levantou-se e foi em direção a neta que estava próxima, vertendo lágrimas, e abraçou-lhe com muito carinho, e com toda a força deste mundo, garantindo através deste abraço o compromisso firmado com a velha índia e com os demais indígenas.
No outro dia, conversou com toda a tribo, formaram bases de resistência se houvesse ainda qualquer outro tipo de confronto ali. E Argel sentiu que todos confiavam nele, e aceitavam o seu comando para ser o guia daquela região. Argel disse a todos eles que iria conversar com o Governo Federal, para isso viajaria, e traria uma solução no que diz respeito as terras. Foi o que fez, viajou para Brasília, e esteve pessoalmente a frente do General do Exército Brasileiro, e a frente dos secretários todos ali dispostos. Porque também eles dependiam de Argel para se comunicar com os povos indígenas da Amazônia. Nesse tempo de convivência ali no sul do Brasil, com aquela aldeia, tudo foi transmitido pelos índios e chegou até os povos do norte do Brasil. Argel ganhou destaque, e confiança de todos.
Assinaram em comum, secretários e demais setores, a lei que concedia o direito daquelas terras aos índios, e, consequentemente, nada poderia ser feito para retirá-los dali. Argel agradeceu o empenho destas forças, porque sabia que, de comum acordo, índios e setores do exército brasileiro que protegiam as fronteiras do Brasil, dependiam um do outro, e precisavam se fortalecer, porque a Amazônia precisa continuar presente no mundo, e neste país chamado Brasil. A soberania brasileira.

III

Argel esteve novamente em Manaus, e fez uma pequena avaliação de tudo, esteve pessoalmente com caciques e chefes indígenas, percorreu os rios, e dançou com eles.
Todas as noites, o que Argel mais desejava era rever a Naiomi, neta daquela velha índia que salvara sua vida quando de seu nascimento. As noites eram maravilhosas naquela região que ele conhecia com a palma da mão, os ruídos, as matas, os rios, as cascatas, os bichos, o nome de tudo, e de todos os seres estava presente em seu espírito. E, da mesma forma como ele morria de saudades de Naiomi, a floresta fazia uma louvação em homenagem a sua chegada. O chamado da Samaúma ecoava por todos os cantos... em memória dos índios que se foram, dos grandes guerreiros e em razão da presença de Argel.
Argel retornou ao sul do Brasil, para a pequena aldeia, pois não conseguia mais resistir a esse apelo selvagem do seu coração apaixonado. Encontrou Naiomi, à beira de um riacho, preparando algumas coisas... Ela estava ali sozinha, agachada na beira da água, e colocava a água num pequeno pote. Ao seu lado, o cavalo de Argel relinchava, brincava, como que a conversar com Naiomi, ou lhe devolver esperança quanto a volta de seu dono, Argel. Naiomi, envolvida em suas lembranças, e no que estava ali fazendo, não percebeu a presença de Argel.
Argel ainda ficou por muito tempo contemplando aquela cena, e assinalando dentro de seu peito, todas as batidas e impulsos em direção a ela. Todo o seu corpo era um só chamado em direção a ela, como o chamado da Samaúma. Passo a passo, Argel foi até ela, e gritou o seu nome, NAIOMI, NAIOMI, NAIOMI. Naiomi levantou e correu em sua direção. Abraçou-lhe e os dois se beijaram com toda a magia e o segredo do amor. O cavalo de Argel brincava com ele e com ela.
Neste dia, os dois fizeram amor ali mesmo no riacho, nas águas profundas deste riacho, e após nove meses, nascera ali, uma criança, uma menina linda, fruto desse amor entre os dois, ou melhor, deste amor à natureza, deste amor entre duas raças e duas razões... A criança, foi batizada nas águas do riacho, com toda a aldeia presente, ao som das cantigas entoadas pelas velhas índias e pelos seus maridos, as crianças pulavam no rio, se banhavam, se renovavam naquelas águas. E, mais uma vez, o chamado da Samaúma foi escutado em todas as florestas deste país chamado Brasil.
O nome da menina, Samaúma.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

EXPRESSÃO

EXPRESSÃO

AMADO-AMIGO

Sinto tanto, tanto sinto e não sei responder.
OU,
OU o Amor se tornou concreto,
como a poesia concreta se tornou vazia
para os românticos...
OU,
O Amor está passando, trafegando entre os andaimes,
correndo riscos, o amor se finou em novo código,
do qual eu não tenho acesso.

Antes parecia que existia um sempre,
nos olhos do amor até as lágrimas eram lágrimas.
Hoje, o sempre é não conseguir acontecer nos três tempos,
ontem, agora e depois.
Lamento muito, diz um tempo se esgotando em partida,
ou se excendendo em espera.

Sinto tanto e nada serve.
O meu modo de amar não está funcionando,
está mesmo encrespando, feito virada em fita.

Me abraço ao meu carinho.
Percorro o meu sonho e a minha esperança,
as paredes não formam esquinas,
as vizinhas desavenças, parece que falta o fundo de tudo.
Ou, coberto está o céu por um teto absoluto de nada.

E a saudade então??? Ora, a saudade
foi esquecida, as vezes que amei
estão suspensas num rosto sem face,
numa máscara abatida de indiferença.

A minha solidão não é mais solidão
do que uma frase abandonada e cúmplice
do efêmero. Onda e espuma, meio sorriso que ficou
e se alargou na extensão deste mar que a nós separa.

O casulo do casal, os filhos da dispensa, o véu da liberdade,
o espaço do sorriso, o primeiro encontro, foram
devolvidos a mim e atestados enquanto utopia,
como um beijo dado ao espelho desta vidraça,
o rechaço de tudo.
O rechaço da importância de ficar um momento a mais,
quando seria possível amar e ser amado.

Olhar com outros olhos o outro e se aproximar,
apaixonar-se é a minha destreza de princípio, minha
via de mão única. A estrada onde os afetos e seus efeitos
se diciplinaram de tal modo que não há mais novidade.
E muito menos coragem. Eu não fico, me ultrapasso.

Outrossim, não consigo tocar a tua mão,
nem beijar os teus olhos, quando mais eu amo.
Quando mais eu amo...
Quando mais eu amo, e encontro
teus olhos nos meus, seguro o aflito desejo
e chamo o que me irá levar para depois.
No ato do momento, quando haveria entrega.
É tudo dizer, quando haveria entrega
outra mão te puxa, e conduz para o impossível
o beijo, e o meu testemunho.
E isso tudo, quando mais eu amo.

Não sinto mais a dor que me faria ir embora de vez.
Apenas eu simplifico o fim e sustento outra vez.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Jacques Lacan - No saben que lo saben

PAREDE (03) - por Diadorim Sabiá

PAREDE (03) - por Diadorim Sabiá

PAREDE (03) - por Diadorim Sabiá

PAREDE (03) - por Diadorim Sabiá

PAREDE (06) - por Diadorim SAbiá

PAREDE (06) - por Diadorim SAbiá

PAREDE (03) - por Diadorim Sabiá

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

AS SENSAÇÕES

AS SENSAÇÕES

... desensibilização. O ser-humano está perdendo a sensibilidade.
... as sensações do amor. Gostar de alguém, apreciar a companhia, sentir vontade de tocar, olhar nos olhos, descobrir esconderijos desta pessoa, inúmeras vezes repetir dentro de si mesmo, o tom da voz, a cor dos olhos, o jeito de ser, o jeito de se aproximar, o sorriso, a caminhada, a expressão, enfim...
... as sensações do amor, amado-amigo, a cada dia, a cada instante fechamos os olhos, escutamos a infinidade de ruídos, a infinidade de diferenças. As sensações do amor distinguem as formas, as cores, o cheiro, tudo que chega até a nossa necessidade, e abre o desejo.
... amado-amigo, eu me animo em dizer, sinto o espírito das coisas, sinto o alerta do tempo, a intuição que me mostra o momento oportuno. Sensações do amor, da proximidade ao outro. Alegria, conforto, ternura, abrigo, cuidado, carinho, destino.
... e o sentimento que chega também é compartilhado, até mesmo produz um sentido e significado novo para tudo aquilo ao meu redor. A árvore, as folhas, os pássaros, a grama, os bichos, compõem este quadro, fazem parte destas sensações...
... o chamado dentro de nós, é isto que precisamos saber escutar. Sentir a nossa frequência, o movimento, a passagem de sensações e sentimentos, a diluição dos estados do espírito, "precisamos" significa que nada seremos enquanto pessoa humana se não atendermos a isso.
...portanto, amado-amigo, o encontro com a natureza, nos ajuda a entender e perceber esse movimento. As criaturas da natureza nos dão gratuitamente a capacidade de respirar, viver, escutar, sentir, meditar, acreditar, responder, com autenticidade e naturalidade.
... amado-amigo, selvagem é o homem que vive nas cidades urbanas. O homem das matas faz parte da vida.


... amado-amigo, beijos.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A TEMPO

A TEMPO

...AMADO-AMIGO,
a tempo de dizer outras coisas, se vê que as vezes acreditamos e desacreditamos depois. Ando pelas ruas de Curitiba, assim sempre, longas caminhadas, observando o rosto, a expresssão quase a mesma, a pressa, o consumo, a ignorância, a miséria no ralo, no meio-fio um pedaço de alguma coisa.
... o pára-brisa dos carros, o pára-brisa das caras anônimas e tão conhecidas, tão sem inocência, tão exteriores e superficiais como uma mentira. Sem ternura, me parece o mundo, eu acredito e desacredito.
... ando pelas ruas, meu desassossêgo, minha procura, ah eu penso, se por acaso deparasse com os teus olhos na dobra de uma esquina, seria feliz. Seria feliz sim, te encontrar. O ar e a quentura do espírito, me ajudam a acalmar tudo aquilo que vejo. O homem se consumindo, sumido, ido, sem destino. Imediato numa proporção quase inumana.
... amado-amigo, olha só o resto de muitos, as propagandas dos candidatos pelo chão, parece que nem foram, sequer estiveram. Eleitos pelo voto do povo, começarão sentados e terminarão sentados, inércia própria do político, cadeiras que se arrastam para quase nada.
... procuro então enxergar sobre as árvores, ver o céu, achar um indício daquilo que acredito sobre este território febril das máscaras.
... acredito por instantes e desacredito depois. É a urgência de encontrar alguma ternura nisso tudo. Gente do povo, cachorro de rua, sorriso sem dentes, vendedor de pipocas, talvez. Compro um pedaço de doce de amendoin, adoço minha boca, beijar minha saliva, o gosto de saudade. O gosto que me falta e eu acredito.
... voltarei sempre a encontrar. O meu modo de ver, real encontro, eu sei. Ultrapasso o meu desânimo imediato, torno a encostar meu coração no outro, e as paredes se desfazem. Toco com a palma da mão o asfalto, recomeço em outro dia.
... as esquinas, o avesso das horas, a tempo de dizer como é necessário o amor, amado-amigo.

DELEGADO RUBENS RECALCATTI 1111 - por Diadorim Sabiá

sábado, 2 de outubro de 2010

AMOR DE ÍNDIO - MARIA BETHÂNIA

Maria Bethânia - Poema dos Olhos da Amada

É o Amor - Maria Bethânia

FOLHA AVULSA - por Diadorim Sabiá

FOLHA AVULSA

...amado-amigo,
imagino assim, corrigir ou anexar ao meu passado, ou ao meu futuro, uma única folha de lembrança, a mais suave, de todas a primeira, ou a única, inesquecível para sempre, mesmo que esta folha ou página seja avulsa.
... eu imagino, amado-amigo, a luz entrando pela janela, aos poucos meus olhos se abrem, olho o quarto, e estou inevitavelmente presa ao seu abraço, você que ainda adormece ao meu lado.
...não sinto espanto,nem vergonha, nada que desfaça o acalanto. Simplesmente sei que o amor é presente, autêntico. O calor do seu corpo ao lado do meu, esse estreito aconchego, aonde cabem todos os anos da sua vida, os anos da minha vida, todas as confissões, todos aqueles que se foram, os que ainda existem, que passaram e estiveram em nós.
... Imagino, amado-amigo, esta folha avulsa como uma ilha. Alto-mar, ligada ao sacrifício da solidão, ligada à extenuação do corpo cançado, ligada sobretudo ao horizonte, deixada ali confessa e testemunhal, prova.
... essa folha avulsa, amado-amigo, sempre estará em todos os momentos, quedada e silente, prestes a ser página de muitas páginas. Estará no intervalo, nesse efêmero momento de reconhecer o teu semblante em outro semblante, seja por engano, seja por coincidência, seja por semelhança.
...amado-amigo, eu te vi assim, ao meu lado dormindo, seu abraço circundando minha cintura, sua mão inflamando meu coração. Folha avulsa, estampidos do coração, calor da sua pele, descanço do que foi satisfeito, calma do que teve acabamento, desejo cumprido.
... Folha avulsa em nossas vidas como todo achado. Não é surpresa e nem mesmo memória, apenas signo. Estrela em todos os mares, lugares e noites desiguais.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

AO MEU AMADO-AMIGO

TODOS OS MOMENTOS

... estou aqui, ao teu lado, em todos os momentos. E isso deveria ser inacreditável. A resposta ou a atenção que chamo para essa presença efetiva, é querer. Se você não quizesse eu não poderia estar, e nem me sentiria assim...
... amado-amigo, é o lugar que sempre existiu e existirá em nossas vidas que faz a diferença. Este lugar é produzido de antemão em razão de tudo o que nós vivemos.
... vivemos juntos e convivemos com as demais pessoas. Todas essas pessoas compõem esse lugar, através dos afetos, emoções, sentimentos, pensamentos que foram compartilhados.
... amado-amigo, esse lugar ocupa todos os espaços por seu caráter de perenidade, de efetividade. Ainda mais, diferença e aceitação. Aceitamos o outro, olhamos ao outro, nos deixamos olhar, nos deixamos tocar, transmitimos um sentido e significado.
... querido, palavras assim, ou as vezes nenhuma palavra, simplesmente a presença. Sem julgamento precipitado, sem falsa modéstia, sem medo de ser o que simplesmente somos. Pessoas que vivem.
... amado-amigo, não importariam as conquistas se nestas conquistas não existissem outras pessoas. O que seriam as vitórias, se não tivessemos que passar aquele momento quase insuportável do cansaço, do desgaste, da prontidão ininterrupta?! Pois é, e poder dizer adiante, vc esteve presente, vc me acomodou em seu espírito.
... é isso que faz valer tudo e a vida.
... sempre te amando muito.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O CORAÇÃO

O CORAÇÃO

...amado-amigo, a alma, o espírito, sensação, sentimento, emoção. Localizar no corpo, esperamos que localizem no corpo humano algo assim parecido com uma doença, pathos, e depois o tratamento.
... não nos emocionemos muito, ou não nos desesperemos demasiadamente. Ou não sintamos nada. Localidade: habitando o corpo.
... o espírito, habita o corpo. O sujeito humano leva, conduz essa carcaça para todos os lugares possíveis e impossíveis, faz uso dela.
... transpassam essa carcaça com ferramentas, pode ser um prego, pode ser uma faca, pode ser uma bala, ou uma rajada de metralhadora. O corpo transpassado, literalmente cai, apodrece e desaparece, mistura-se a todo o resto.
... Localizar a vida no sujeito humano, mediante os afazeres cotidianos da violência, suprimindo o espaço e possibilidade de qualquer elaboração, torna-se difícil.
... a materialidade do corpo, corresponde à possibilidade de ladearmento, extensão de sua iniciativa, a produção inerente a seu comportamento neste lugar, o mundo.
...amado-amigo, ferir o sentimento, ameaçar a liberdade, gerir a miséria, violência contra o espírito de vida.

DESEJO E AMOR - AO MEU AMADO-AMIGO

DESEJO E AMOR

... DESEJO E AMOR, PERPETUAMENTE.
... quanto a isso, quero também lhe dizer, amado-amigo. Estamos todos sendo vítimas do sexo. Flagelo do sexo. Resto. Torno a sentir, e me lembro as primeiras recordações que o meu pensamento traz em relação ao sexo: proibição, pecado, culpa, castigo... São recordações.
... mas quando procuro em minhas lembranças, a forma do amor, naqueles tempos primeiros, a avassaladora paixão, seguida de "sempre". Para sempre te amar.
... o primeiro toque, no corpo do outro é um espanto, um descobrimento, uma aventura. A maior conquista. O beijo depois de tanto esperar, traz consigo o sonho de eternidade, a entrega absoluta.
...hoje, sinto muito, sinto muito por todos nós, o sexo não é mais desejo, é flagelo. Comiseração, ausência de graça, vazio.
...amado-amigo, a fantasia, que bela. As árvores da Praça do Expedicionário no outono, as folhas amareladas caídas, e estabelecidas ali, o encanto da noite... Ou, as luzes em pequenos pontos luminosos quando da chegada em uma cidade, a estrada, a solidão e a tua presença, depois de tanto tempo de espera.
...encontrar um amor, tocar a pele, sentir o arrepio, navegar no desejo, o corpo amado do outro, o prazer, todo o prazer dado e recebido...
... hoje, sinto muito amado-amigo, o sexo é flagelo.
... o desejo está para a espera, a conquista, a novidade,o querer precisa sentir.
... o querer precisa sentir para desejar e estabelecer uma ponte entre eu e o outro. Senão, quanta angústia, quanta falta de tato, quanta perversão e crueldade humanas.
... homem e mulher. A amizade é uma confissão da verdade. O universo, imagine a extensão do corpo, quantas miudezas, quantas partes somadas, e a vida nas veias, o pulso. O impulso. O impulso que me leva a tocar os teus lábios com os meus, e explorar todo o território do teu corpo, e estabelecer ali a minha vontade, dar e receber.
... me perder nas tuas vias e rotas, nas tuas mãos, até descobrir que estive naquele momento, entregando o meu espírito.
...infelizmente, hoje o sexo é flagelo-humano, miséria.
...a superfície da pele não consegue mais ser sensibilizada, o olhar não consegue mais enxergar, e nem o ouvido, escutar. As redes do internetez, são sacanas, são anais, são orais, mas não tocam o desejo, através do sentimento. Sequer passam perto... Uma orgia do internetez, uma fissura, uma cloaca humana de onde vêm e escorre toda a miséria, toda a anuência, toda a degradação.
... nada disso é comparável ao amor. Esse exílio que submete o homem, o sexo enquanto flagelo, rechaço absoluto da diferença humana, rechaço do homem e da mulher.
...DESEJO E AMOR PERPETUAMENTE. A prisão vista de dentro para fora, uma arma insólita, antes de morrer para a vida.
... não esqueço as lembranças, não as vivo, eu as movimento dentro de mim. Eu sei que tenho tocado o humano, eu sei que sou mulher, sinto o homem, desejo... quanto desejo, mas não vacilo nesse dejeto contrário, não piso neste lôdo infecundo.
... amado-amigo, desejo e amor. Sempre.