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domingo, 13 de junho de 2010

OS FILHOS DO PARAÍSO

COLÉGIO ESTADUAL DO PARANÁ.
CURSO DE PRODUÇÃO EM ÁUDIO E VÍDEO.
MATÉRIA: ANÁLISE DO DISCURSO FÍLMICO.
PROFESSOR: ANDRÉ DA VEIGA BARROSO
ALUNA: DENISE FRANÇA Nº 13 Turma: 1ª série / Noite

FILME: “OS FILHOS DO PARAÍSO”
FICHA TÉCNICA:
TÍTULO ORIGINAL: (Bacheha – Ye aseman)
LANÇAMENTO: 1997
DIREÇÃO: Majid Majidi
ATORES: Mohammad Amir Naji, Amir Farrokh Hashemian, Bahare Seddiqi, Nafise Jafar- Mohammadi, Fereshe Saraibandi.
DURAÇÃO: 88 minutos.
GÊNERO: Drama
STATUS: Arquivado

O filme começa com um close-up, nas mãos de um homem cozendo um sapato cor-de-rosa de uma criança. Depois a lente se abre, e vemos o menino que estava esperando pelo sapato, Ali, de 9 anos. Coloca o sapato num saco e vai até uma venda para comprar batatas. Deixa o saco entre caixas, enquanto procura pelas batatas no chão...
Nesse ínterim, um velho cego, camelo ambulante, chega e pergunta alguma coisa ao vendedor e este o autoriza a pegas algumas coisas ali. Como o velho é cego, leva por engano o saco de Ali, com os sapatos de suas irmã, Zahra.
Ali, que acabara de catar as batatas, vai procurar o saco e não o encontra. Desesperado, derruba as caixas de verdura, e o vendedor o manda embora, ele sai correndo...
A temática central do filme é o resgate deste par de sapatos de sua irmã. Simbolicamente colocado no filme, representando muitos aspectos da realidade desta criança e mais extensivamente, o povo muçulmano. O pequeno Ali e sua irmã, fazem uma promessa de não contar ao pai o acontecido, por medo. Enquanto isso, usam o mesmo par de tênis, durante a manhã é sua irmã e depois se encontram nas ruelas de Teerã, então Ali veste os sapatos e vai a aula, chegando quase sempre esbaforido e atrasado...
O povo oriental caracteriza o pé descalço em sinal de respeito ao lugar onde estão. Em casa, deixam os sapatos na soleira da porta e ficam descalços... E, nas mesquitas, da mesma forma, deixam os sapatos na porta, e entram para fazer suas orações...
Ali é apenas uma criança, mas a perda dos sapatos da irmã, e a tentativa de resolver este problema, para ele alcança dimensões bem maiores do que a aparente. Ser justo, honesto, honrar a palavra dada, não mentir ao pai. E, se comprometer com a verdade, sinal de hombridade que o faz ir as últimas consequências no resgate dos sapatos...
O universo da criança é representado no filme de maneira particular e sensível, não existe realidade ou maldade, senão um sentido lúdico, solucionar um problema através da percepção do mundo ao redor, sem conceitos ou pré-conceitos. Os meninos brincam entre si, andam de mãos dadas, beijam a face do amigo, sem que isto tenha uma outra conotação, é apenas um hábito da cultura oriental, do islamismo.
O menino Ali, embora pobre, é uma criança inteligente, sensível, e muito criativo. E, consegue solucionar este problema... ou pelo menos, este problema é a solução de muitos outros problemas. A sua questão consiste na própria resolução. Ao final do filme, já não suportando mais essa situação dos sapatos da irmã, ele se inscreve numa corrida para tirar o 3º lugar, pois quem ganhar este lugar, receberá um par de tênis...
Ao chegar na corrida, existem muitos meninos, meninos ricos, de outras escolas, aparentemente melhor preparados.... Ali larga e vai correndo, da mesma forma como fazia depois que vestia o tênis surrado para chegar até a escola, e lembrando de tudo que acontecera em razão disso... Foi derrubado na corrida, quando à posição terceira. Mas levanta-se, e continua correndo, e passa um, passa outro, e, ao final, absorto nessa tentativa, chega ao primeiro lugar....
... a câmera focaliza seus olhinhos para a foto da vitória, e ele está chorando... Chorando porque não foi o terceiro lugar, e logo, não ganhará o par de tênis.... e o filme termina com Ali chegando em casa, olhando para sua irmã e dizendo que tirou o primeiro lugar. E depois retira o tênis gasto, seus pés estão repletos de bolhas e os descansa dentro da água. A última cena, são os pezinhos de Ali na água e ao redor peixinhos nadando.... em close.
Tudo no filme é um encanto, e um registro da vida do povo oriental, a diferença de classes, a miséria. De outra maneira, apesar da miséria, a confiança, o respeito aos pais, o compromisso diário com as regras de conduta, e a verdade.... as ruelas, onde o povo habita, fotografias lindas desse lugarejo. Mas, a história principal, e a riqueza, é o mundo particular de Ali e de sua irmã Zahra. Um mundo lindo, um Paraíso...

O ESTÔMAGO

COLÉGIO ESTADUAL DO PARANÁ.
CURSO DE PRODUÇÃO EM ÁUDIO E VÍDEO.
MATÉRIA: ANÁLISE DO DISCURSO FÍLMICO.
PROFESSOR: ANDRÉ DA VEIGA BARROSO.
ALUNA: DENISE FRANÇA Nº 13 – 1ª SÉRIE/NOITE

FILME: ESTÔMAGO

FICHA TÉCNICA:
ESTÔMAGO é a história da ascensão e queda de Raimundo Nonato, um cozinheiro com dotes muito especiais. Trata de dois temas universais: a comida e o poder. Mais especificamente, a comida como meio de adquirir poder. E pode ser definido como “uma fábula nada infantil sobre poder, sexo e culinária.”
Em sua estréia mundial no Festival do Rio 2007, ESTÔMAGO consagrou-se como grande vencedor, tendo recebido quatro prêmios: Melhor filme pelo público, Melhor Diretor e Melhor Ator.
O filme é a adaptação de um conto.
Elenco: João Miguel, Fabíola Nascimento, Babu Santana, Carlo Briani, Zeca Cenovicz, Alexandre Sil, Paulo Miklos, Jean Pierre Noher...
FESTIVAIS: Festival de Rotterdan: Lions Award 2008.
Festival de Berlim: Seleção Oficial.
Festival de Punta del Este.

PRODUÇÃO: Zencrane Filmes foi criada no ano de 2000 por Cláudia da Natividade e Marcos Jorge, como escritório de criação e produtora de filmes.


RESENHA:

Gostei do filme. O Diretor do Filme tem um apreço muito grande pela culinária, e queria mesmo fazer um filme em relação à comida. Um amigo seu enviou-lhe alguns contos a respeito de comida, e ele acobou gostando de um dos contos e fez a adaptação baseada nele.
As cenas do filme contam a história de Nonato, um cozinheiro, e se intercalam, ora as cenas se passam na prisão, ora as cenas contam a história de vida de Nonato, antes da prisão. Nonato aprende a cozinhar num boteco, logo que chega de viagem, as coisas vão se sucedendo, e ele vai aceitando o que a vida lhe oferta. Aprende a cozinhar coxinhas, com o dono do Boteco, e suas coxinhas tem repercussão no bairro todo, fazem sucesso, o que não acontecia anteriormente com o dono do boteco. Descobre que tem um apurado gosto e refino para a cozinha e é descoberto por um cozinheiro local, que tem um Restaurante, o Giovani. Ainda no Boteco, Nonato conhece uma prostituta, e aos poucos se apaixona por ela, mas ela gosta mesmo é de comer... Quando Nonato já está trabalhando no restaurante, não esquece a prostituta e retorna ao lugar onde a conhecer para encontra-la. Mas a prostituta quer saber mesmo é de comer as comidas de Nonato, deliciosas....
As cenas de comida, e preparo, fazem parte de todo o filme, do início ao fim... Principalmente na cadeia, sua fama vai crescendo entre os detentos, por causa dessa sua vocação indiscutível... E isso ajuda-lhe a ter uma posição privilegiada na Penitenciária. As cenas da Penitenciária foram filmadas aqui no Paraná, e com a ajuda de um detento que foi convidado pelo Diretor para dar uma melhor noção do que acontece dentro de uma penitenciária, a conduta e comportamento dos presidiários...
Nonato é um personagem muito particular, ele não sabe o que são “metáforas”, e enquanto o mestre Giovani lhe explicar como encontrar uma boa “peça” de carne, num frigorífico, Nonato vai observando as coisas, e entendendo ao seu modo. A expressão “é como uma bunda de mulher...”, cai nos ouvidos de Nonato como “bunda mesmo”... E isso nos faz acreditar o mundo de Nonato anterior a sua trajetória na cidade grande, possivelmente uma família muito simples, com condições precárias, pouco estudo, e uma ingenuidade bastante visível, contraditória ao mundo onde acaba de ingressar.
Os conflitos no amor, com a prostituta, são evidentes. Podemos observar, que existe nesta relação uma conformidade de “gostos”, o cozinheiro, a comida, e a gustação. O sexo, e a relação com a carne humana, como oferta, a prostituição, e o ato de devorar a carne, porque a própria vida se incumbe de devorar o ser miserável, o homem pelo homem.
Os jogos de poder, desde o início, no Boteco, quando o dono oferece a Nonato, lugar para ficar, desde que limpe tudo e faça tudo, e depois, abusa dele, em razão do lucro que está dando as coxinhas que Nonato faz. E, depois, na Penitenciária, Nonato consegue um lugar de destaque em razão desta sua vocação, o que o ajuda a ficar numa posição mais tranquila... Haja visto que Nonato é um ser frágil, na sua ingenuidade e descaso mesmo... Não sobreviveria assim dentro de uma Penitenciária.
O ESTÔMAGO com a sua boca aberta, conseguiu lugar de destaque, é um filme que remete a vários sentidos, até antropologicamente falando. As cenas são fortes, realistas, densas, e existe um lirismo que vai passeando com as cenas, um “cheiro de alecrim”, que vai sustentando as cenas... nos conduzindo a esta vontade e a este apetite, a este sabor acre da vida.
Como cenário do filme temos os movimentos, as cenas no bar, nas ruas, na Penitenciária... São cenas bastante reais, correspondendo à situação do filme... As cenas da cozinha, a feitura dos alimentos, são bastante interessantes, o close na cebola picada, a técnica para o preparo das comidas... As cenas das prostitutas, as pernas, as bundas, os sapatos e vestimentas, e o contra-ponto, as carnes suspensas no frigorífico...
Enfim, o filme é muito bom, e nos introduz a uma outra realidade, a Cozinha, a Penitenciária, a prostituição, a história do filme consegue compreender e interagir essas três realidades, sem contradizê-las, mas colocando-as numa relação de sentido e significado.
E as reflexões que podemos fazer a partir do significado da carne, da comida, a fomentação e dilaceração humanas, a encruzilhada, o ESTÔMAGO, o trabalho da “bílis”, o pulsar e o triturar, o afago, a deglutição, as tripas da vida em contínuo deslocamento e transfiguração.

LUNA PAPA

COLÉGIO ESTADUAL DO PARANÁ.
CURSO DE PRODUÇÃO EM ÁUDIO E VÍDEO.
MATÉRIA: ANÁLISE DO DISCURSO FÍLMICO.
PROFESSOR: ANDRÉ DA VEIGA BARROSO
ALUNA: DENISE FRANÇA Nº 13 1ª SÉRIE – TURNO NOITE

FILME: “PAPA LUNA” (1999)

FICHA TÉCNICA:

Diretor: Bakhtyar Khudojnazarov
Escritores: Bakhtyar Khudojnazarov (escritor)
Irakli Kuirikadze
Data de Lançamento: 10 de março, 2000 (Itália)
Gênero: Drama/Comédia
Sinopse: O nascituro de Mamlakat (Kahamatova) é contar a sua história. Ela tem 17 anos, bonita e animada, e sonhando secretamente de se tornar uma atriz.
Prêmios: 9 vitórias e seis nomeações.
Atores: Chulpan Khamatova, Moritz Bleibtreu, Ato Mukhamedshanov, Polina Raykina, Merab Ninidze, Nikolai Fomenko, Lola Mirzorakinova, Sheraly Abdulkaisov, Dinmukhamed Akhimov, Azalbek Nasriev.


RESENHA DO FILME:

O filme se passa numa aldeia, não muito longe de Samarcanda. Aldeia do Tadjiquistão, estado independende situado na Ásia Central Soviética, banhado pelo mar Mediterrâneo. O povo desta região é um misto de árabes e ciganos. Nessa época haviam grupos militarizados e durante, a filmagem, houve uma certa dificuldade em razão da intervenção desses militares...
Lindo filme, realismo fantástico. A personagem central, Mamlakat , uma garota de 17 anos, vive com seu pai Safar, e seu irmão Nasreddin. É órfã de mãe. A garota é muito linda, e sonha em ser uma atriz, conhece tudo sobre os filmes norte-americanos e tem paixão por alguns atores do cinema americano, como por exemplo, Tom Cruise.
Um dia, o pai, juntamente com o irmão, viajam até outra aldeia, para levar coelhos que o pai cria, e nessa viajem, descobre em outra aldeia, um teatro, e com um vestido branco recém ganho do pai, corre até onde o teatro está... Mas infelizmente, chega ao lugar e vê que a peça já acabou.... Fica simplesmente frustrada e triste, porque sua paixão pelo teatro é maior do que si mesma... Anda pelos arredores, para saber onde estão os atores e vai dar numa espécie de floresta, nas circunvizinhanças... enquanto anda, percebe de repente que está sendo acompanhada de mais alguém e pergunta quem está ali, pois não consegue enxergar porque é noite de lua cheia... O sujeito diz a ela que é amigo de Tom Cruise, ela fica muito feliz, e continuam andando, e ela não o vê, mas conversa com ele....
De repente, os dois caem numa espécie de buraco, e vão deslizando pela montanha abaixo, nessa queda ele a violenta, e ela pela primeira vez sente um homem e tem um orgasmo ao final... Encontra-se de manhã caída à beira do mar, e repara que o seu vestido está rasgado e que ela perdeu a virgindade... Encontra-se novamente na aldeia, e corre até sua amiga, diz a ela que teve a experiência com um homem, um ator.... Dois meses depois, descobre-se grávida.... A narrativa do filme, desde o início é feita pelo bebê, Khabidula, que conta a história de Mamlakat, sua mãe...
Mais tarde, conta o que aconteceu ao pai, que fica quase maluco... E ele a pega, mais o irmão, e vão os três à procura do pai da criança, que acreditam ser um ator, mas nada sabem sobre o homem.... E, vão de aldeia e aldeia, em todos os lugares onde o teatro, seja qual for, está se apresentando.... Invadem a peça, no meio da apresentação, capturam o ator, e fazem com que ele diga se conhece ou não, a Mamlakat... Todos eles dizem que não foram o autor do acontecido.
Nesse ínterim, Mamlakat conhece um médico e se apaixona por ele. Da mesma forma, ele fica apaixonado por ela, pela sua inocência, beleza e sensibilidade... Ele é um sujeito sozinho e sonha em ter uma família, o fato dela estar grávida, só acalanta este seu desejo... Ela o apresenta ao pai, dizendo que achou finalmente o pai da criança... A princípio o pai reluta, mas depois, aceita o fato, e tudo está indo a mil maravilhas, prontos para a festa de casamento, felizes.... Infelizmente, tragicamente, no ato da realização do casamento, cai um boi do céu, sobre o pai e sobre seu marido, o boi mata aos dois....
Mamlakat fica com o irmão... E, na aldeia, devido ao preconceito, todos a chamam de prostituta, e cobram a presença de um marido... Quase a linxam... Mas na visita de um aviador a sua hospedaria, Mamlakat descobre que o aviador é o verdadeiro pai da criança que ela carrega no ventre e, se não bastasse, foi ele que empurrou o boi do avião, e que matou aos dois.... Mas, Mamlakat não se apaixona por esse aviador, e tenta assustá-lo com um revólver... ele sai correndo das balas... sobe num armário, e está tão apavorado que cai do armário adormecido pelo susto... Nunca mais acorda... E Mamlakat tem um marido, mas não sabe o que fazer com ele, quer despachá-lo num trem....
A história se segue até o fim, quando Mamlakat e seu irmão fogem do povo que corre atrás dos dois. O irmão, na tentativa de salvar a irmã, liga uma tomada, que está conectada ao teto do edifício, onde existe uma espécie de objeto voador... O teto sai e decola com Mamlakat em cima.... E assim termina o filme...

O filme é simplesmente lindo pela presença da fotogragia inigualável, que nos conduz a uma sensação de transposição, de estar mais além daquilo que está sendo visto. O mar mediterrâneo é visto várias vezes num grande plano aberto, geral, e as cenas são maravilhosas... Dá a impressão de ser até uma montagem, porque a beleza da fotografia é indizível... Tudo isso colabora para o realismo fantástico do filme, que transborda de um sentido além da realidade ordinária...
Eu não vejo no filme, uma falta de sentido, ou um não-senso. Vejo ali a presença de vários signos, símbolos, que nos colocam na presença de um sentido a ser percebido na interligação desses elementos simbólicos... O boi, por exemplo, quando cai do céu, e mata aos dois, não só torna a cena cômica, mas indica um sentido.
Outra cena espetacular, foi o momento em que Mamlakat é seduzida pelo homem na floresta... O momento em que ele a possuí, é muito lindo, os dois estão flutuando, e ela flutua no momento em que atinge o gozo, o escuro, com vacilações da luz que nos fazem ver o corpo de ambos, num ato de amor, é muito belo... Dá um sentido não sexual, mas místico ao ato de amor. Em nenhum momento dá a conotação e violência ou estupro. Muito pelo contrário, faz parte de um sonho de Mamlakat, faz parte do seu universo, e faz parte da inocência, e do momento mágico dela, pessoal. A realização desse momento, leva a todos os demais, no transcurso do filme...
Quando o pai, ela e o irmão, viajam no deserto à procura do homem, pai do seu filho, as cenas são muito engraçadas, quando eles invadem o teatro, a peça, e sequestram o ator, para inquiri-lo sobre o acontecido com Mamlakat. A figura do pai, nesse cenário, parece mais a figura do interditor, do censor, numa peça de teatro.... E é muito engraçado, enquanto o pai e o irmão dormem, na plateia, Mamlakat assiste a peça em prantos, sensibilizada pelos atores e atrizes... O teatro, a catarse de Mamlakat, representa a catarse de todos , nós diariamente nos sentimos cansados da vida real, sem sonhos, sem transgressões, sem aventura, sem esse transbordamento da emoção, e precisamos dessa catarse.
De muitas maneiras, o filme mostra-nos essa transposição do imaginário e do simbólico, a figura do pai, regula esse movimento. Franqueia essa passagem. Assim como o universo onírico, entre a censura e sua transposição, a cadeia dos símbolos, e o seu sentido. Aquilo que se esconde, e aquilo que aparece, de uma forma latente ou manifesta... Outra cena que representa esse objetivo, é a cena onde Mamlakat procura uma bruxa para fazer o aborto, pois não aguenta mais as pessoas da aldeia chamando-a de prostituta... Observamos a cultura do povo, ciganos e arábes, percebemos a crença, o místico, seus mecanismos, a conduta do povo, a superação de suas formas. Mamlakat está além de sua cultura, de sua tradição, respeita, mas o seu universo, o seu modo de ser, sua posição frente à vida consegue superar todas estas barreiras de conduta e de preconceito.
A beleza de Mamlakat transcende toda miséria do lugar e dificuldade. Uma beleza não apenas física, mas uma beleza quanto a sensibilidade, quanto a ingenuidade, quanto ao seu sonho, seu amor incondicional pelo pai e pelo seu irmão, excepcional. O momento em que ela sai de casa com a mala, e vai pegar a balsa. Todos saem e a deixam sozinha... Ela dança em cima da balsa, é muito lindo mesmo.... O feminino, a mulher, o universo feminino, o sentido do sonho, da gravidez, o filho no ventre, a vida mesma, em estado puro, um vir-a-ser. A realidade terrível da rejeição de todos, da exclusão, simplesmente é quebrada, e Mamlakat levanta e dança... Rompe o sentido real, através do imaginário, e cria um outro universo simbólico, além da realidade.
Essa ruptura com a realidade, e sua transposição caracterizam o filme... Todas as cenas são assim. Por isso esse filme se torna belo. A beleza da Arte é isso.

DAVID LYNCH

COLÉGIO ESTADUAL DO PARANÁ.
CURSO DE PRODUÇÃO EM ÁUDIO E VÍDEO.
MATÉRIA: ANÁLISE DO DISCURSO FILMÍCO.
PROFESSOR: ANDRÉ DA VEIGA BARROSO.
ALUNA: DENISE FRANÇA Nº 13 – 1ª Série/Noite

FILME: “ERASERHEAD” (1977)

DIRETOR: David Lynch

Primeiro longa-metragem de David Lynch. Estava na Faculdade de Belas Artes quando realizou o filme, mas só pôde termina-lo mais tarde. David Lynch partiu de sua própria vida para a idéia central do filme, a paternidade e o bebe. Sua namorada engravidou inesperadamente, sem que ambos quisessem um filho. E além disso, sua namorada teve uma criança com os pés deformados.
Lynch levou cinco anos para conseguir realizar o filme, auxiliado por uma bolsa do American Film Institute em Los Angeles.
Os filmes de Lynch são surreais. São bastante concentrados e densos.
Eu percebi inúmeras coisas neste filme de David Link. O universo onírico, os signos que são constantemente expostos nas imagens, a desestruturação de uma imagem perfeita, a fragmentação de uma direção linear para o filme... um compromisso com uma realidade imaginária, não irreal, mas imaginária... São torrentes, ele não pára de nos colocar diante de um mundo que mostra sua face de insensatez.
E isso é verdade. Somos constantemente bombardeados por imagens assim... Mas a nossa percepção consciente não nos deixa vê-las sem buscar um sentido, sem dar um significado a elas. Um significado aceitável. Os nossos pensamentos se dividem em pensamentos latentes e manifestos. Os pensamentos manifestos não caracterizam uma verdade, apenas uma boa-forma, uma resolução necessária. Os pensamentos latentes são aqueles que aparecem desta forma como a realidade aparece nos filmes de David Link. São truncados, assustadores, angustiantes, porque estão longe de uma elaboração secundária.
Neste filme de Lynch, a figura do bebê, é nada mais do que um retrato. Assim como nós nos deparamos com o insensato de nós mesmos, o outro, o outro-eu, não o ideal-do-eu, mas o estranho. A imagem de um filho só pode ser respondida em relação a um significante paterno. Se esse significante paterno, metáfora paterna, não estiver presente, com certeza este ser se tornará um estranho, uma coisa desconexa. Algo inadequado ou inapropriado.
Percebo neste filme de Lynch uma série de “demandas”, o significado não se faz presente, nem o sentido, mas as demandas do sujeito estão ali, e por isso mesmo ele se torna pesado, concentrado, denso...
David Lynch produziu o filme em preto e branco em razão da falta de dinheiro..., mas eu acredito por ser em preto e branco, caracterizou melhor ainda o seu trabalho.
A esquize do olhar, presente na obra de David Lynch. O espelho, o anteparo, a presença deste eu, desta imagem do eu, em outro lugar, em outro espaço, por isso essa distorção, causando esse impacto aquele que está acostumado a filmes “bonitinhos”. Caracteriza um imaginário bem à flor da pele, bem ao modo da esquizofrênia, ou a persecutoriedade da paranoia. Mas, isso não quer dizer, um filme “anormal”, porque a nossa realidade está repleta desta esquize, nós é que rechaçamos esta esquize, por nos parecer estranha, estranha aos nossos olhos... O que é uma grande mentira. Nós somos fragmentados por natureza, o nosso ego não caracteriza uma unidade, mas apenas uma identificação imaginária...
Gostei do filme de David Lynch. A figura do protagonista do filme, seus cabelos, mostram a imagem de David Lynch. Acredito que tudo ali está de acordo com a sua proposta enquanto produtor. O cenário, os personagens, a forma e o modo de colocação. Seria interessante se outros produtores caracterizassem essa mesma ousadia. Não o fazem hoje em dia, não por falta de dinheiro para a produção, mas por medo do conceito que iram ter dentro desta Arte, o Cinema.

MACHADO DE ASSIS E CHICO BUARQUE DE HOLANDA

COLÉGIO ESTADUAL DO PARANÁ.
CURSO DE PRODUÇÃO EM ÁUDIO E VÍDEO.
MATÉRIA: LITERATURA E CINEMA.
PROFESSORA: Andréa Garcia Zelaquett
ALUNA: Denise França Nº 13 1ª série / Noite

ARTIGO DE ANÁLISE
OBRAS: “BENJAMIM” – Autor: Chico Buarque de Holanda, 1944.
“MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS” – Autor: Machado de Assis, 1839.

ADAPTAÇÕES:
TÍTULO: MEMÓRIAS PÓSTUMAS, 2001.
DIREÇÃO: ANDRÉ KLOTZEL
TÍTULO: BENJAMIM, 2004.
DIREÇÃO: MONIQUE GARDENBERG


Dois autores masculinos, Machado de Assis e Chico Buarque de Holanda, ambos focalizaram em suas obras o tempo e a história, transcenderam ambos o tempo, a história e se tornaram universais em razão da maturidade com que tratam a condição humana, a realidade em que vivem e viveram, seu discernimento crítico e analítico do ser-humano, não apenas como um intérprete de sua realidade existencial, mas como fonte de transformação.
Tendo em vista, esses fatores, eu caracterizo um aspecto de relevância que tange a minha pessoa, enquanto leitora de ambas as obras, a figura da mulher, de que forma os escritores retratam a figura feminina, o que existe aí de assaz contundente neste universo masculino. Na obra de Machado de Assis transitam muitas personagens femininas na vida de Brás Cubas, em especial, Virgília. E, na obra de Chico Buarque de Holanda, as personagens femininas, Ariela e Castana Beatriz.
O horizonte feminino será apenas um resíduo imaginário do homem, ou a mulher existe de fato?! Nas adaptações de ambos os filmes, colhemos a imagem feminina e visualizamos ainda melhor essa tênue película que paira sobre A MULHER.
“- Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.
(...)
- Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és fábula. Estou sonhando, decerto, ou, se é verdade, que enlouqueci, tu não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma cousa vã, que a razão ausente não pode reger nem palpar. Natureza, tu? a Natureza que eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagelo, nem, como tu, traz esse rosto indiferente, como o sepulcro. E por que Pandora?” (Machado de Assis, Capítulo VII: O DELÍRIO.)
No filme, o diretor retrata “A Natureza” na figura feminina de Virgília.
Da mesma forma, no início do livro, “Benjamim”, a figura da mulher está caracterizada com a presença da morte:
“(...), e naquele instante Benjamim assistiu ao que já esperava: sua existência projetou-se do início ao fim, tal qual um filme, na venda dos olhos. Mais rápido que uma bala, o filme poderia projetar-se uma outra vez por dentro de suas pálpebras, em marcha a ré, quando a sucessão dos fatos talvez resultasse mais aceitável.” (Capítulo 1.)
E, ao final da obra:
“Como que através de um olho que girasse no teto, vê doze homens à sua roda, e vê a si próprio em corrupio. “Fogo!”, grita um, e a fuzilaria produz um único estrondo. Mas para Benjamim Zambraia soa como um rufo, e ele seria capaz de dizer em que ordem haviam disparado as doze armas ali defronte. Cego, identificaria cada fuzil e diria de que cano partiria cada um dos projéteis que agora o atingiram no peito, e na cara. Tudo se extinguiria com a velocidade de uma bala ente a epiderme e o primeiro alvo letal (aorta, coração, traqueia, bulbo), e naquele instante Benjamim assistiu ao que já esperava.” (último Capítulo, final).
Nas obras de Chico Buarque e Machado de Assis, percebemos essa semelhança, a morte presente no início e ao final do livro, relacionada à figura da MULHER.
A obra de Machado de Assis, de 1889, e a obra de Chico Buarque, 1944. A obra de Machado compreende o realismo, e a obra de Chico Buarque, o Modernismo. Para encaixá-las assim, historicamente.
Na história de Benjamim, podemos perceber o lirismo e sensibilidade que este personagem nos comunica do princípio ao fim, Benjamim, sua história de amor ao lado de Castana Beatriz e ao final, com Ariela. Já em Machado de Assis, a história de amor de Brás Cubas e Virgília não tem esse mesmo lirismo e doçura. Mas em ambas as obras, o estilo do autor se pauta na realidade, e a ironia é sim uma característica comum, mais em Machado de Assis do que em Chico Buarque.
Na obra de Machado de Assis, não percebemos o lirismo, mas as nuanças de amor que envolvem o casal, Brás Cubas e Virgília, tem uma aura de sedução, permissividade, e acima de tudo, ou seja, o que permeia o envolvimento de ambos, são relações de poder, aparência. Se houve amor, este amor sucumbe à hipocrisia social, ao regulamento de uma sociedade aristocrata.
Considerando a época em que essa obra foi escrita, a mulher vivia numa sociedade onde o seu papel se restringia ao marido, à família, à criação dos filhos. E ao homem cabia por sua vez, a função de provedor, ocupando um cargo dentro da sociedade que indicasse seu status e poder econômico, suas influências políticas... Mas os homens se permitiam, sem problemas ou questionamentos, casos e romances fora do casamento. A mulher nada mais significava do que uma extensão do marido, ou extensão pela e através da escolha paterna, não lhe era dado o poder de decisão sobre seu destino.
Mas, em todas as sociedades terrenas, desde o nascimento da civilização até os nossos dias, há lugar para a lascívia, o sexo e o deleite. A obra e o filme de Machado de Assis assim nos contam.
A narrativa é alinear, começa pelo final, com a morte de Brás Cubas, e posteriormente, através de flashbacks, lembranças, a história passa a ser contada. Assim também em Benjamim, começa pela morte do personagem Benjamim, e depois a história de sua vida é relembrada através do personagem Benjamim e através de Ariela Masé.
“(...) suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço: a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.” (Capítulo I – Memórias Póstumas de Brás Cubas.).
Observamos não só a alinearidade, mas também a interlocução, característica da obra de Machado de Assis. Ele conversa com o leitor, dialoga, se conecta ao pensamento daquele que está lendo... Coisa rara, pois imaginemos o quão universal é a obra de Machado, haja vista esta sua técnica, sempre atual e presente.
“(...) Tudo se extinguira com a velocidade de uma bala entre a epiderme e o primeiro alvo letal (aorta, coração, traquéia, bulbo), e naquele instante Benjamim assistiu do início ao fim, tal qual um filme, na venda dos olhos. Mais rápido que uma bala, o filme poderia projetar-se uma outra vez por dentro de suas pálpebras, em marcha a ré, quando a sucessão dos fatos talvez resultasse mais aceitável.” (Capítulo 1 – Benjamim.).
Chico Buarque evoca essa mesma alinearidade, mas além disso, observamos a metalinguagem, a alusão que ele faz à produção de um filme. Interessante, porque a lembrança aqui da mesma maneira como Freud a percebe, não é a mesma coisa que a memória. O sujeito, quando está lembrando, já está em outro lugar, outro espaço, nesse sentido, o ato de lembrar sua vida, recordá-la, é uma elaboração secundária, e produz um sentido que o coloca além, sempre para além...
Na obra de Machado de Assis, percebemos figuras de linguagem, como a ironia, a metáfora e a metonímia. Mais prevalente e com mais ímpeto, a ironia, podemos crer assim em razão do realismo. “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.” ( Capítulo XVII). A ironia e a metáfora.
“É minha!” dizia eu ao chegar à porta de casa.
Mas aí, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse, se lembrasse de dar algum passo aos meus arroubos possessórios, luziu-me no chão uma cousa redonda e amarela. Abaixei-me; era uma moeda de ouro, uma meia dobra.
“É minha! repeti eu a rir-me, e meti-a no bolso.” (Capítulo LI). Nesse capítulo observamos a moeda como metáfora. Além de retratar o que significavam as relações na corte. Relações de superficialidade, de status, aparência. Outra metáfora, anterior a essa, quando Cubas conhece Eugênia. Linda flor, mas “coxa”. Por que “coxa”, se bela?!
As metonímias na obra Machadiana, aparecem de forma bem clara na adaptação para o cinema, o filme coloca a figura de Virgília, brava com Cubas, com os braços cruzados, e batendo os pés no chão, nada mais claro do que esse gesto. Quando Cubas se separa definitivamente de Virgília, encontramos os dois no salão da Corte, e falam do desespero e da saudade, como se estivessem falando de coisas banais. Se despedem e Cubas ao chegar em casa, faz um escalda-pés, demonstrando assim a “sensação de alívio” com a separação...
“Viver não é a mesma coisa que morrer, assim o afirmam todos os joalheiros, que seria do amor senão fossem os vossos dixes e fiados? Um terço ou um quinto do universal comércio dos corações.” (Capítulo XVI). Consideremos nesta frase qual o lugar para o amor na vida de Cubas.
Em Benjamim, percebemos a presença da ironia, mas não com tanto impacto como em Machado de Assis. Talvez o lirismo do personagem Benjamim, e sua história de amor com Castana Beatriz e Ariela Masé, tornam menos grave a realidade, e consequentemente o impacto da ironia. Com maior peso na obra de Chico Buarque, é a sinestesia. A sinestesia que, para nós é de relevante uso não no romance, mas na criação do poema, o que caracteriza também o autor, Chico Buarque de Holanda em suas letras de músicas.
“(...) E quando ela acaba de passar, o sorriso não é mais dela, é de outra mulher que Benjamim fica aflito para recordar, como uma palavra que temos na ponta da língua e nos escapa. Ou como um nome que de pronto brilha na memória, mas não podemos ler porque as letras se mexem. Ou como um rosto que se projeta nítido na tela, e dissolve-se a tela. Benjamim precisaria rever a moça, pedir para ela repetir o sorriso e lhe reconstituir a lembrança.” (Benjamim, Capítulo 1).
Observamos na obra de Chico Buarque, a fluência do poema, do lírico. Chico Buarque está caracterizado nesta obra através do personagem Benjamim. No filme, observamos cenas do restaurante onde costuma frequentar, os quadros de atores e atrizes da cultura nacional. Observamos fatos que marcaram sua vida como a ditadura militar, o exílio, etc. No livro, quando Ariela Masé viaja a França, e se envolve com um professor subversivo. No filme, as música de Edith Piaf e Astor Piazzola, dão mais expressão ao enredo do livro.
No livro, um episódio singular que faz uma ponte com a música de Chico Buarque, “Cálice”, um dos ícones desta fase da ditadura militar. O personagem Alyandro, descobre que sua mãe é prostituta. “(...) Até que viu o primo do lado de fora, sorrindo, chamando-o com o dedo indicador, vibrando o indicador como se fizesse cócegas na noite. A contragosto, Ali saiu da padaria e foi conduzido pelo primo até uma rua escura, transversal. “Olha as putas”, disse o primo numa gargalhada. Ali gargalhou também, para imitar o primo, olhando aquelas mulheres que fumavam, cada qual dona de um poste. Gargalhou até ver sua mãe, apoiada no terceiro poste da calçada esquerda, de piteira.” (Capítulo 3). Em “Cálice” a letra diz: “...melhor seria ser filho da outra.”
Um exemplo muito bem humorado na obra de Machado de Assis, é o jogo de palavras e de números. Brás Cubas estava prestes a perder Virgília em razão da nomeação do Lobo Neves. Aconteceu então que o Decreto da nomeação saíra na data de 13, uma recordação triste na vida de Lobo Neves, o que fez com que desistisse do cargo referido. “Referiu-lhe que o decreto trazia a data de 13, e que esse número significava para ele uma recordação fúnebre. O pai morreu num dia 13, treze dias depois de um jantar em que havia treze pessoas. A casa em que morrera a mãe tinha o nº 13. Et coetera. Era um algarismo fatídico. Não podia alegar semelhante cousa ao ministro; dir-lhe-ia que tinha razões particulares para não aceitar.” (Capítulo LXXXIII). E, mais adiante, quando foi nomeado Presidente da Província. “Uma semana depois, Lobo Neves foi nomeado presidente de província. Agarrei-me à esperança da recusa, se o decreto viesse outra vez datado de 13; trouxe, porém, a data de 31, e esta simples transposição de algarismos eliminou deles a substância diabólica. Que profundas que são as molas da vida!” (Capítulo CX). E assim, o casal se separou...
O personagem Brás Cubas, ao final de sua vida, não tendo filhos e nem família, dedica-se à criação do “emplasto Brás Cubas”, para o alívio da Melancolia. Observamos aí, como Machado de Assis caracteriza o personagem, alheio a uma função ou cargo, vazio de ideais, e sem filhos. A função paterna é correlata de tudo aquilo que possamos observar na ordem social e cultural. Uma função simbólica que coloca todos os demais significantes a sua mercê. O personagem Brás Cubas tenta restaurar essa função que, por alguma razão, é falta ou deficiente, inicia uma teoria, de certa forma delirante, assim como muitos de seus personagens, Quincas Borba, e outros referentes a outras obras. O legado e a herança, são tratados com ironia, em razão da hipocrisia social, mas são elaborações que fazem parte do trabalho de Machado de Assis, como um questionamento e, ou, uma deriva pulsional no que tange a sua própria pessoa.
Também assim, na obra Benjamim, o personagem envelhece, e se pergunta sobre sua vida através de sua relação com Castana Beatriz, e posteriormente, Ariela. Com a personagem Ariela, Benjamim tenta essa mesmo trabalho de restaurar um significante, dar um sentido a sua vida. E, no último momento, o próprio Benjamim cristaliza a importância desse significado: “Na dianteira, um caminhão de lixo larga lufadas de fumaça, que Benjamim não se incomoda de aspirar fundo e declarar: “Este é um dos melhores acontecimentos da minha vida”.” E, nas últimas linhas do livro: “Tudo se extinguiria com a velocidade de uma bala entre a epiderme e o primeiro alvo (aorta, coração, traqueia, bulbo), e naquele instante Benjamim assistiu ao que já esperava.” (Último capítulo).
O que diferencia nesse aspecto a obra de Machado e a de Chico Buarque, é os personagens e sua relação com a culpa. Na obra de Machado, Brás Cubas não sente nenhum arrependimento ou culpa. Na obra de Chico Buarque, Benjamim vive essa sensação de arrependimento e culpa, em relação a morte de Castana Beatriz.
“Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas cousas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” (Último capítulo, Memórias Póstumas de Brás Cubas).
“Não faz mal”. Empolgado, ele disse outro dia que se considerava um sujeito sem graça, que vivia trancado no quarto, que só ia ao cinema para rever filmes antigos, e mais, disse que não se lembrava da última vez que beijara uma mulher, sem contar as putas. Ariela repetia “não faz mal”, “não faz mal”, “não faz mal”, o que suscitava em Benjamim uma arrogância de desejar rebaixar-se mais e mais. Agora mesmo, ao ouvir dela: “Esta noite eu sonhei contigo”, por pouco ele não declara com deleite: “Eu sou um desgraçado”. Mas se ainda assim ela falasse “não faz mal”, Benjamim num arroubo seria capaz de completar: “Eu matei a tua mãe”. (Capítulo 5, Benjamim).
No segundo caso, a obra de Chico Buarque, a ironia do destino permeia a vida de Benjamim, e, no filme, observamos através das imagens, essa sincronia do passado e do futuro do nosso personagem. Tudo se passa como se fosse ontem.
As adaptações, de ambas as obras, seguem os livros, são fiéis à história contada pelos autores em questão. Não se apropriam de especulações, e nem dissolvem as reflexões maiores destes autores. Cumprem o seu objetivo: caracterizar a obra no cinema. Apenas um ponto diferencial, o sentido comercial. A obra de Machado de Assis, foi apresentada no filme, mas não teve uma repercussão comercial muito elevada, e nem foi apelativa. Já a obra de Chico Buarque, foi adaptada para o cinema e teve uma repercussão maior, com alguns apelos eróticos em função da personagem de Ariela... Mas, a contento, o personagem Benjamim, por Paulo José, foi excepcionalmente bem elaborado, com toda a desenvoltura de um ator maduro e sensato.
Retomando o ponto nevrálgico desta discussão, a presença da mulher, e sua singularidade em ambas as obras. Percebemos nestes autores masculinos, a abordagem da mulher tem sua caracterização histórica, e cultural. Em seu aspecto imaginário, a figura feminina se capacita nestas funções: a mulher como mãe, e a mulher enquanto prostituta. Em ambos os casos, a mulher não é referida como sujeito ativo, mas coadjuvante de uma situação, coadjuvante de um personagem masculino, ou enquanto parceira lógica, funcional, dos significantes que a precederam, o pai, o filho, o marido, etc.
Isso não quer dizer que a mulher, A MULHER, se torna uma figura depreciada pelos autores, mas que “o feminino” é assim representado na ordem simbólica, e toda elaboração secundária, depende deste sentido a priori. O que muda singularmente, quando se trata de um romance escrito por uma mulher, como fôra estudado em nossa presente matéria, o “Divã”, e “A Hora da Estrela”.
O universo masculino em alguns momentos, talvez traga algum constrangimento para uma feminista, não é o meu caso, longe disso, mas, o constrangimento não é nada mais do que uma reação normal, uma reação pudica daquilo que o homem revela de si mesmo a partir do que recebe de informações, e do que deriva sua vida particular e social. Já à mulher, cabe a elaboração sempre melhorada e não acabada, de seus caminhos e de seus desvãos. E, principalmente, já que passamos algum tempo refletindo nestas obras uma relação de amor entre os personagens, trazer este contexto para a atualidade, para o aqui e agora, e observar o nível de maturidade que existe nesta relação entre homens e mulheres.
A obra de arte é assim especificada, uma produção de sentido, mesmo no não-sentido, ou no rechaçado, tanto maior é a incumbência de um significado, na falta de relação, um vir-a-ser. Somos humanos, espectros da nossa própria luz ou, sombra.

O DISCURSO FÍLMICO

COLÉGIO ESTADUAL DO PARANÁ
CURSO DE PRODUÇÃO EM AUDIO E VÍDEO
MATÉRIA: ANÁLISE DO DISCURSO FÍLMICO PROFESSOR: ANDRÉ
ALUNA: DENISE FRANÇA Nº 13 TURNO: NOITE - 1ª SÉRIE

FILME: “O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN”
Considero este filme um dos melhores que assisti. As imagens do filme, assim como todo cenário, são visivelmente estudadas, é usado um filtro que deixa um tom verde e vermelho predominante. A história se passa numa cidade francesa, o cenário vai desde o apartamento de Amélie, a lanchonete onde ela trabalha, as ruas do bairro, algumas casas, estação do metrô, enfim, é uma pequena cidade...
O sentido e encadeamento da história foge dos padrões habituais, os personagens possuem um sentido a partir da presença de Amélie, suas vidas mudam em razão da interferência desta jovem.... Os detalhes e segmentos da narrativa, introduzem um elemento representativo, o símbolo, o signo, o sentido que envolve todos os personagens. Este sentido, só Amélie o possue, ela percebe no ser humano esse elemento escondido, esse vetor significativo e inacabado, que representa uma verdade maior de cada personagem.
Portanto, as cenas, os quadros, percorrem todo o ambiente, e sempre acabam por evidenciar um elemento significativo. Pode ser uma colher, pode ser um quadro, pode ser um gesto, uma expressão. A lisura no trabalho com esses elementos dentro do ambiente focado, nos remete a sensações e lembranças..., mais do que a pensamentos. É um sentido poético, o filme nos devolve isso, essa sensação mais além, que prende nossa atenção. Transcendência em relação à realidade que se apresenta.
Percebemos também alguns elementos surreais, como a figura do Anão, e objetos com características de sonho, infância, que sofrem uma metamorfose, tornando-se reais, passando por personagens...
Uma história com início, meio e fim. Mas nos introduz, em razão de todos esses recursos, uma outra dimensão e um outro espaço, um outro tempo se faz presente. Desde o quadro pintado pelo vizinho de Amélie, até a caixinha achada por ela, representam esse outro espaço, para onde Amélie conduz os demais personagens, e onde a vida deles ganha um novo sentido. Eu diria que é a produção de um outro sentido, do novo.
A fotografia é clara, bem definida, a câmera salienta a expressão das pessoas, o rosto, os olhos, o corpo, a importância de um detalhe que fará ou dará sentido a outras coisas ali naquele instante.
Enfim, um filme que deve ser assistido outras vezes, para apurar ainda mais o seu sentido, o seu resultado, e os elementos expressivos que o diretor usou.


FILME: “SANTIAGO”

Um filme que trata da linguagem fílmica, além da história de Santiago... Uma metalinguagem, portanto. Mas, a minha impressão foi de que, a princípio, o diretor tinha uma intenção e um programa, e depois, com o conhecimento do personagem, reviu e mudou o programa do filme. E isto é muito importante no que diz respeito a esta figura de “Santiago”, um dos mordomos da casa.
A fotografia é um dos elementos base deste filme, assim como o enquadramento da câmera. Existe uma porta, e além desta porta, está a figura de Santiago e suas lembranças... Não é só um enquadramento que deixa o ambiente fixo, sem mobilidade, mas um enquadramento que institue um elemento simbólico, a porta, a janela, o quadro, a transparência, sugerindo que nós precisamos abrir a porta para ver, ou, a transparência. A própria casa, que se refere a história de uma família, tem espaços amplos, e os vidros, são um elemento que sugere um vínculo com o que está ali fora, e por outro lado, o limite, a situação desse lugar.
Este filme é um documentário. Mas a figura de Santiago, ao ser entrevistado, coloca muitos elementos ali, além de informações, que ultrapassa o sentido de um documentário. A presença lúdica de Santiago, faz ver outra coisa. A expressão das mãos de Santiago, uma mímica que conta uma outra história, ou, que interfere naquela rigidez ali, assim como na rigidez e postura do diretor...
... infelizmente, para o Diretor, não foi possível manter a intenção incial. Felizmente, para Santiago, que nos fez conhecer outros universos, e outros começos, apesar da finalidade de sua obra, a memória da nobreza...
Numa das cenas finais, Santiago está sentado, e a mulher perde a paciência com ele, e o faz reiniciar mais de duas vezes, o que iria dizer.... Santiago a cada momento, se recompõe, e volta a falar. Acredito que nesse momento dá para perceber toda uma tentativa de recorte, de omissão, de restauração... Mas, como a figura de Santiago é mais forte, transcende a impostura, nada pode ser feito, a não ser continuar...
Acho eu, que muitas outras coisas se passaram nesses cinco dias de filmagem... A sensação que tive ao assistir esse filme. Mesmo a narrativa do diretor, falando sobre Santiago, sobre a família, não me parece assim tão cordata.
Considero também um filme muito especial, que requer outras vezes, para apurar os detalhes, para sentir melhor esse elemento expressivo.



COLÉGIO ESTADUAL DO PARANÁ.
CURSO DE PRODUÇÃO EM ÁUDIO E VÍDEO
MATÉRIA: ANÁLISE DO DISCURSO FÍLMICO PROFESSOR: ANDRÉ
ALUNO: LEANDRO BASSO Nº 26 1ª série TURNO: noite


FILME: “O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN”

Um filme bem diferente dos demais. É a história da vida de uma menina, desde a infância até sua idade adulta. Desde pequena, Amélie se distingue das outras pessoas. Ela consegue captar algo mais nos outros seres ao seu redor. E, ao longo do filme, modifica a vida das pessoas que conhece, seus amigos e pessoas da família. Tira a pessoa daquela rotina, da mesmice e a introduz num outro universo.
Por isso, no filme, nós vemos a câmera pegar elementos do cenário muito particulares, e são esses elementos que dão a direção e o sentido da cena em questão. Pode ser o rosto da pessoa, pode ser um detalhe como uma xícara, um movimento, um quadro... Enfim, esses objetos estão relacionados com este sentido a mais, e esse elemento no filme, conecta cada pessoa, uma a outra. Como aquela cena na lanchonete, onde Amélie, consegue despertar o olhar de um homem para uma das funcionárias ali, porque antes, ele nem a enxergava....
Essas intervenções de Amélie na vida das pessoas, dá um outro sentido a vida delas, e o filme tem um aspecto cômico, engraçado, á medida que vai sucedendo. Outra coisa, são alguns personagens fictícios, que se juntam ao personagem, como o Anão, que dá sentido à vida do pai de Amélie. Ou uma fotografia, o álbum de fotografias, que dá direção á vida do futuro namorado dela.... e assim por diante.
Existe um filtro de cores, que faz com que as imagens tenham um tom vermelho e verde predominante. As expressões dos rostos dos personagens ganham muitas vezes o close da câmera, particularidades do ambiente. É uma forma de conexão entre os personagens, e entre eles e Amélie.
Alguns efeitos, como dar vida a seres inanimados, como uma foto, ou um bichinho de pelúcia do quarto de Amélie, ou a um quadro, ou outra coisa, remete ao mundo dos sonhos, da fantasia, da infância. Um elemento surreal.
A música e tudo ali, não torna a história um reflexo da realidade, mas lhe dá uma dimensão poética, por isso esse filme é muito especial e deve ser assistido outras vezes...



FILME: “SANTIAGO”

Esse filme é um documentário sobre a vida de Santiago, um dos mordomos de uma família nobre. O diretor do filme é um dos filhos dessa família, e pega esse mordomo para dar um depoimento sobre os fatos e pessoas da época.
O diretor, usa a casa onde moravam, e as primeiras cenas são feitas nessa casa, mostrando o espaço físico, as janelas, corredores, e depois começa a falar de Santiago. Santiago será entrevistado. A característica particular deste filme é que ele também fala da linguagem fílmica, por isso, além de um documentário, é também uma metalinguagem...
Nós ouvimos a pessoa que entrevista Santiago, ouvimos o que ela diz, suas correções, a alteração da postura de Santiago, e assim por diante.
Mas, o diretor muda o programa do filme, à medida que a pessoa de Santiago vai tomando evidência. Porque Santiago não é qualquer mordomo. Tem uma vida muito especial, ao longo de sua vida, Santiago fez um trabalho falando sobre a vida da Nobreza, sobre a história da nobreza. O seu trabalho de memória classifica muitas pessoas, fornece informações incríveis sobre essas pessoas, e tudo confeccionado em folhas datilografadas... Essas folhas são muitas vezes filmadas e colocadas em primeiro plano no filme.
Santiago então, vai se tornando o personagem central deste documentário.... o seu gosto refinado, a sua expressão, dão um outro sentido ao documentário, apesar da rigidez inicial, e da programação inicial.
Como característica desse filme, vemos as cenas mobilizadas, o ambiente, e quando Santiago é entrevistado, a câmera é colocada de maneira que vemos primeiro uma porta e depois a presença de Santiago. A porta se coloca entre a câmera e Santiago. Uma “janela”, dando a noção de limite, ou daquilo que vai além...
É um filme muito concentrado, e por isso precisamos revê-lo outras vezes, para sentir, e perceber outros fatores.

RESENHA ANÁLISE DE OBRAS E FILMES

CURSO TÉCNICO EM PRODUÇÃO AUDIOVISUAL
ARTIGO DE ANÁLISE COMPARATIVA DOS DISCURSOS LITERÁRIO E FÍLMICO DAS OBRAS LITERÁRIAS “A HORA DA ESTRELA” E “DIVÔ E SUAS RESPECTIVAS ADAPTAÇÕES PARA O CINEMA.

Desde o primeiro contato com as duas obras literárias, até o momento onde nos deparamos com a apresentação dos filmes, adaptados de ambas as obras, muito foi acrescentado em nossa maneira de perceber a literatura e discernir os elementos de sua contextualização, signos, símbolos, significado, sentido, etc. Desta maneira, este enriquecimento na observação e percepção foi aprofundado ainda mais, com a imagem nos filmes.
“A Hora da Estrela” , romance de Clarice Lispector, de 1977, conta a história de uma nordestina que veio para a cidade do Rio de Janeiro, trabalhando como datilógrafa numa firma, e morando num subúrbio. Conhece Olímpico de Jesus, outro nordestino, operário metalúrgico, com quem tem um simples e “inofensivo” relacionamento. Além dele, Macabéa, a nordestina, tem uma amiga, Glória, e outras amigas de quarto...
“Divã”, romance de Martha Medeiros, de 2002, conta a história de Mercedes, uma dona-de-casa casada a princípio e, no desenrolar dos acontecimentos, começa um processo de análise, separa-se e descobre outros movimentos em sua vida até então desconhecidos...
A narrativa das obras citadas acima, tem um sentido alinear com passagens interpolares. O romance de Clarice Lispector conta a história da nordestina, mas no curso dessa história particular, Clarice cria um narrador-personagem, que reflete sobre o comportamento e ou conduta da nordestina.
A narrativa da obra “Divã”, também alinear, conta a vida de Mercedes por ela mesma, sem interferência do narrador. Ela fala sobre sua vida com um analista e, no livro, vai rememorando, lembrando sua vida, e questionando seus valores.
O personagem central em ambas as obras, é um personagem feminino, anti-herói. Em “A Hora da Estrela”, a nordestina Macabéa é um retrato da miséria, insignificância. A dinâmica do narrador, que não é fixa, faz com que ele próprio discuta o personagem Macabéa, e inclusive, faça comentários, tente otimizar a personagem, fazê-la crescer na narrativa. Mas Macabéa sempre volta a ser uma tentativa infrutífera de construção. Talvez a autora, nesse sentido, utilize o personagem metaforicamente para descrever a encruzilhada onde se encontra o escritor ao realizar sua obra. O narrador discute deste o início o ato de escrever, metalinguagem, e chega ao ápice, quando se apaixona por Macabéa. Observamos nisso, o momento de “independência” da obra em relação ao seu autor, onde o leitor aparece. O leitor dá vida a obra literária, a partir de sua interpretação, de sua contextualização, de sua realidade particular.
O personagem da obra “Divã” de Martha Medeiros, também é um personagem que mostra as vicissitudes da sua própria vida, e suas frustrações. Mas Mercedes não é assim tão contundente quanto Macabéa, porque o contexto histórico, o sócio-cultural deste personagem é outro. A personagem Mercedes vive e faz parte da classe média alta, se há alguma “miséria” é mais no sentido de ver o ser humano como transeunte ante todo o seu repertório existencial, emoções, sensações, sentimentos que transitam, se modificam, se solidarizam e outras vezes entram em contradição.
Macabéa mora num subúrbio do Rio de Janeiro, local, e toda a história se desenvolve no quarto onde ela dorme, com as amigas, no trabalho, e em uma praça, com pequenas variações. Um espaço bem delimitado, mas a extensão do que isso reflete é bem maior. São todos aqueles indivíduos retirantes, que saem do nordeste tentando, num êxodo cruel, sobreviver na “cidade grande”.
No “Divã”, a história se ambienta num bairro de classe média alta, e também poucas variações, o seu contexto é mais local do que global. Mas, o psicologismo da personagem, pensamentos e reflexões, tornam-se universais, pois dizem respeito a própria vida humana.
Em “A Hora da Estrela”, a história tem continuidade, vai a seu limiar, só é fragmentada e entrecortada pela economia afetiva do narrador, que comprime e extende a metamorfose da personagem. Em o “Divã”, observamos que os pensamentos e fragmentos do discurso pessoal de Mercedes, faz com que as cenas se interrompam, voltem ao passado, sejam retomadas, significadas, e assim consecutivamente. Isso para compreender as motivações e interesses de Mercedes, quanto a sua história de vida.
A linguagem em ambas as obras, é uma linguagem compreensível, ao alcance de todos. Clarice Lispector, no entanto, elabora a simplicidade da personagem de tal forma que coloca a nós questões universais, nós refletimos Macabéa, fazemos um juízo de valor, retomamos nossas reflexões e pensamentos, a princípio na tentativa de remediar a “pobreza” da personagem, e aos poucos nos vemos em frente a uma humanização da miséria, nos confrontamos com essa mesma miséria no dia-a-dia e, o que fazemos?!
No livro “Divã”, a personagem Mercedes também faz um giro sobre a dignidade de seu mundo, a validade e qualidade de sua conduta existencial, mas, a nosso ver, a escritora Martha Medeiros, não tem a mesma capacidade de elaboração como o faz Clarice Lispector. Clarice faz com a Língua o que outra autora ainda não conseguiu e nem sonha fazer. Isso em razão da sua própria pessoa, do seu estilo inigualável.
Em ambos os romances, há uma história com princípio, meio e fim. E também, em ambos a “história de vida” é um cumprimento da história pessoal de cada um, retomada, reavaliada e reimprimida. Porque o próprio ser humano produz em seu dia a dia, os dias subseqüentes, o futuro. Produz o sonho, a esperança, ou, do contrário, o colapso, a decadência. Dois seres com vidas semelhantes, podem ter destinos opostos em razão daquilo que produzem a partir daquilo que vivem.
A arte de Clarice Lispector é incomum, a plurissignificação, não apenas pela contingência da variedade de significados, mas pela maneira como o seu estilo único aguça nossa sensibilidade, sentimentos e sensações, fazendo com que extraiamos da própria vida, pela lembrança ou recordação, sensações semelhantes. Quem sabe, o vazio de Macabéa e a própria miséria da personagem não sejam um convite a um preenchimento. Um ato de colorir um personagem sem cor, e transformá-lo para a vida.
Já a obra de Martha Medeiros, suas reflexões e pensamentos através de Mercedes, assentam num padrão, não são excessivamente longínquos.
O solilóquio Clariceano tem muito a ver com a “música”, tanto que Clarice Lispector se refere à música em sua dedicatória. E, por incrível que pareça, a musicalidade de suas letras. O escutar, o ouvir, o silêncio e a meditação, o ritmo, o tempo, estão presentes em seu ato de escrever. Talvez ela escreva como quem compõe uma sinfonia.
As obras de Clarice e Martha Medeiros, possuem em seu contexto, o fluxo de consciência, o efêmero, o subjetivismo. Em “A Hora da Estrela”, o narrador se interroga, deixa seus pensamentos saírem e escorrerem na ponta da pena. Volta, retoma, nega-os, ilude-os, simplifica-os, devolve-os, compartilha-os, enfim, não atrela o seu fazer apenas numa seqüência, e num raciocínio frio, esgotável em uma pergunta única.
Martha Medeiros, mais simplificadamente, dá as nuanças deste mesmo movimento. Deixa o pensamento vir, chegar, e os participa de primeiro, de prima.
Percebamos o nome do livro “A Hora da Estrela” e o desenlace da vida desta miserável nordestina. Ao final, depois de sair de uma cartomante que lhe devolve a esperança, a alegria (ela até sorri) o sonho, ao atravessar a rua, absorta em seus devaneios (talvez os primeiros), é atropelada por um carro que tem o emblema de uma estrela, a marca.
Essa estrela, tal qual o “símbolo” , pode remeter a muitas coisas, desde a estrela de Davi, alumiando e prescrevendo a chegada de Jesus, enfim, também para Macabéa (quem sabe, Macabéia dos macabeus), exista salvação, se não é morrendo que se nasce para a vida eterna... E, ou, aquela suprema conversão, quando em estado de devaneio, apostamos no ideal, caminhamos da realidade à realização de um sonho, transitamos na utopia. Característica do ser humano, mudar, criar, transpor.
O nome “A Hora da Estrela” tem um sentido irônico e revelador. Irônico e sarcástico em relação aos moldes primários da injustiça e da miséria do povo nordestino. E revelador em relação aquilo que podemos e conseguimos produzir a partir de uma “aparente” miséria. O fato de descrever a miséria e significar sua essência, sua verdade, já é um ato de mudança, para o escritor e para o leitor.
O filme “A Hora da Estrela”, adaptação baseada no livro, segue a obra da escritora, mas descarta o narrador. O cenário do filme é bem realista, frio. A personagem do filme segue a personagem do livro, corresponde mesmo à pobre Macabéa. O filme é classificado como gênero dramático porque se fundamenta numa história de amor, entre Olímpico e Macabéa. Pobre amor e quase irrealizável, mas existente naquele mundo parco de Macabéa. Tem seu valor e sua ternura naquele último momento onde Macabéa é atropelada e Olímpico se volta após a recusa de Glória, caminha para o subúrbio onde mora Macabéa, para entregar-lhe um presente, um bicho de pelúcia...
Outro aspecto revelado pelo filme, é essa cisão na personalidade de Macabéa, o não-eu. Macabéa segura nas mãos um espelho quebrado e vislumbra sua imagem, questiona sua própria identidade, parece uma pessoa sem existência. Pequenos detalhes no filme conseguem demonstrar aspectos do livro, como também o rádio onde Macabéa assiste notícias, recolhe palavras novas, aprende sobre a linguagem, o caminho para a formação de seus primeiros pensamentos. No filme, Macabéa pergunta a Olímpico o que é isso, o que é aquilo, esperando que ele a ajude a entender... Em outras circunstâncias, Macabéa pede desculpas, como se só a sua presença fosse um incômodo aos outros. Característica do livro de Clarice, pois aquele que se questiona, transforma sua existência, nasce para o mundo, marca presença em relação aos demais. Tal é o papel do rádio ali no filme: as histórias e os sonhos de amor, o rádio anuncia como promessa de uma nova vida.
A personagem Macabéa retrata também, aproveitando o gancho, o sonho do povo nordestino que se evade para as grandes cidades, à procura de felicidade. Muitas vezes, não só a cidade grande não oferece nenhuma oportunidade de crescimento, mas o nordestino, como qualquer outro imigrante, perde sua identidade cultural. E, quando uma pessoa perde sua identidade cultural, acaba se despersonalizando, e sendo marginalizada pelos demais. Tal é a representação de Macabéa, assim o fator “determinista” encontrado no manuseio da personagem.
A diretora Suzana Amaral , manteve as características do filme, mas retirou o narrador, porque acreditamos seria muito difícil elaborar o filme com as reflexões e comentários do personagem-narrador. Ou, talvez, para deixar o filme mais claro e compreensível do que o livro, mais complexo em suas conotações.
Nas obras “Divã” e “A Hora da Estrela”, existem muitas semelhanças, e diferenças. A personagem é feminina, a heroína é uma “anti-herói”, e o psicologismo inerente as duas obras. As reflexões e pensamentos em torno da existência humana, a partir das indagações a respeito de si mesmo. O que difere em ambas as personagens, as reflexões intimistas de Macabéa são realizadas através do narrador e, em o “Divã”, a personagem Mercedes realiza o seu próprio descobrimento, sem intervenção de um narrador. Mesmo o seu analista, é o silêncio. O silêncio do leitor que a assiste.
O maior diferencial entre ambas as obras, é o padrão sócio-cultural. Macabéa é uma retirante miserável, vivendo num subúrbio do Rio de Janeiro e, Mercedes, uma dona-de-casa, classe média alta.
Em ambas as obras nos deparamos com a morte, Macabéa morre ao final da história, e a amiga de Mercedes que tem um papel fundamental em sua vida, também morre de câncer. Mercedes se separa de seu marido, após longos anos de vida em comum, e retoma todos os seus conceitos, conceitos que a cultura oferta, mas que muitas vezes não trazem a felicidade e nem a verdade. Esta separação é um rompimento, uma morte, com tudo aquilo feito o passado. Uma transformação, uma renovação, um vir-a-ser. De uma forma bem mais elaborada por Clarice Lispector, Macabéa vai a cartomante, e esta lhe diz que encontrará logo um grande amor, uma estrela em seu caminho, luxo, riqueza, felicidade... E, absorta nesses pensamentos, é atropelada por um carro, que tem a estrela como marca-símbolo. “A Hora da Estrela”, a sua derradeira hora, o seu momento de realização, morre feliz, e porquê não, o momento onde ela consegue deter sua vida, consegue aparar o sentido para sua existência nesse mundo. A morte em ambas as obras tem essa conotação de renascimento. E a obra de arte, literária, ou outra forma de arte, também em sua interação com o mundo, com as pessoas, tem esse sentido de reaparecimento, descobrimento, anúncio, transformação. Não é a toa que o artista é aquele que cria uma outra realidade, um espaço e uma dimensão diversos da realidade ordinária.
Por isso, tão necessário a leitura, a formação de um pensamento, o desassossego que nos leva a produzir coisas novas, a procurar outros elementos e outros meios. A dignidade humana consiste nisso, revelar sua transcendência em mais alguma coisa, ultrapassar seus próprios limites.
A adaptação das obras literárias para o cinema, nos parece válida e importante, mesmo que hajam deformações, ou que a adaptação não chegue a ser aquilo que a obra literária apresenta. Mas toda transmissão e revelação de conhecimento, a produção artística nos parece válida e imprescindível à humanidade.

DENISE FRANÇA