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quarta-feira, 24 de junho de 2015

NELSON ROGRIGUES COM FREUD: O PÁTRIO FEMININO BRASILEIRO

Danielly Sampaio
Denise França
Pontifícia Universidade Católica do Paraná
História do Teatro Brasileiro

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Resumo

Este artigo busca interpretar e identificar o universo feminino abordado pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, buscando assim, entender não só o contexto em que o feminino é usado, mas também a forma em que ele representa os valores e as tradições familiares, vinculados com os desejos e paixões intrínsecas nas personagens. O texto se desenvolve com uma análise minuciosa da peça, baseando-se nos estudos de Sigmund Freud e aplicando seus conceitos, os quais, nos permite entender os signos da linguagem rodrigueana, encontrando suporte nas considerações de Jacques Lacan e de Jean-Paul Sartre sobre o tema. Com isso, propõe-se com esse artigo a elaboração de argumentos conclusivos, com comparações de leituras complementares para melhor explicitar a genialidade de Nelson Rodrigues, construindo-se assim, fundamentos que defendem o quão impactante, singular, inovador e atemporal ele foi para o teatro brasileiro.

Palavras-chave: Nelson Rodrigues. Freud. Feminino. Doroteia.


Questo articolo cerca di interpretare e identificare l'universo femminile coperto dal drammaturgo Nelson Rodrigues, cercando così di capire non solo il contesto in cui viene usato il femminile, ma anche il modo in cui rappresenta i valori e le tradizioni familiari legate con i desideri e passioni intrinseche nei personaggi. Il testo è stato sviluppato con un'analisi approfondita del gioco, sulla base di studi di Sigmund Freud e applicando i suoi concetti, che ci permette di comprendere i segni del linguaggio rodrigueana, trovando sostegno in considerazioni di Jacques Lacan e Jean-Paul Sartre su il tema. Pertanto, si propone di questo articolo lo sviluppo di argomenti conclusivi, con i confronti di un'ulteriore lettura per spiegare meglio il genio di Nelson Rodrigues, costruendo così le fondazioni che sostengono quanto impressionante, unico, innovativo e senza tempo è stato per la teatro brasiliano.

Parole Chiave: Femmina. Theater. Modernismo. Sessualità.

 


INTRODUÇÃO

A universalidade humana e a pessoa única nos coloca um problema: os critérios do sentido. O que nos faz diferentes de todos os outros homens nessa imensa cadeia humana, é a escuta, a fragmentação do nosso discurso e necessariamente, o que produzimos como efeito, o sintoma, o lapso, a mentira, o engano, o transtorno, a emasculação do sentido e a alienação do sujeito.


1- NELSON RODRIGUES
 
  Nelson Falcão Rodrigues nasceu no Recife em 23 de agosto de 1912. Aos 3 anos de idade foi para o Rio de Janeiro com a família, onde seu pai, o jornalista Mário Rodrigues, funda o jornal “A Manhã”.
            Nenhuma falsa modéstia: é assim que a obra de Nelson Rodrigues acontece no cenário brasileiro, enquanto jornalista, enquanto escritor, enquanto dramaturgo.  Ele escuta, ele faz a sua leitura da realidade da sociedade do Rio de Janeiro, numa sede de jornal, relatos de casos de homicídio, crimes passionais e desde os 13 anos de idade trabalhava como repórter policial.  Seu irmão, Mario Rodrigues, é assassinado por uma mulher em frente ao Jornal “A Crítica”, em 1929, e Nelson vê tudo acontecer, fato que marcou profundamente a família Rodrigues.
            Autor de crônicas da vida cotidiana, Nelson escreveu  “Álbum de família” (1945), Senhora dos Afogados (1947), “O anjo negro” (1948), e por fim seu maior sucesso jornalístico, “A vida como ela é” (1950). Essas crônicas abordam temas que trazem repúdio a sociedade e principalmente escárnio da censura e da plateia. Álbum de Família, por exemplo, foi submetida à censura Federal, e só foi liberada para ser produzida 22 anos depois de sua criação. Nelson Rodrigues o bem diz em O anjo pornográfico, 1992:
Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino., E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino).

            Em 1949, escreve Doroteia, peça que será o foco deste artigo. Considerada uma peça mítica, pelo  crítico literário, Sábato Magaldi. A peça estreou em 1950, no Teatro Phoenix, no Rio de Janeiro sob a direção de Z. Ziembinski, precursor do que chamamos de "noção de diretor" no teatro brasileiro. Considerada uma peça realista, Doroteia faz parte do teatro chamado "desagradável", denominação que o próprio autor aceitou, pois, levando em consideração a época conservadora em que Nelson estava, suas peças no mínimo incomodavam a sociedade, afinal, ele estava expondo para quem quisesse ver, a realidade que estava escondida, questionando os padrões de ética e moral familiares e sociais.




2- A LEITURA DE DOROTÉIA

           Antes de entrarmos no contexto desta peça, vamos abordar alguns fragmentos necessários e imperativos na obra de Sigmund Freud, conceitos por ele formulados que nos farão entender e analisar um pouco melhor os signos desta linguagem rodrigueana. Mesmo porque, Freud não era desconhecido para Nelson Rodrigues: se tratasse de um pintor, poderíamos dizer que Nelson Rodrigues pintou o cenário carioca com as cores da paleta de Sigmund Freud.
            A modernidade de Nelson Rodrigues está nesta leitura inaugural desta realidade sociocultural, a sociedade carioca. Num segundo momento, descobre-se na obra de Nelson Rodrigues uma sintaxe própria, assim como o estilo ao apropriar-se desta brasilidade inesgotável em tudo o que escrevia.
            O feminino rodrigueano é decantado desta realidade e transfigurado. De modo que a mulher em Nelson Rodrigues, é uma mulher transformada pelo desejo que a causa. E nisto, também a coincidência com a leitura de Freud.  O corpo feminino passa a outro nível de leitura, o desejo do analista. Assim também, o corpo feminino na escrita de Nelson Rodrigues passa a apresentar o corpo do feminino. Por isso, essa complexidade, esse ciclo mítico onde encontramos DOROTÉIA.
            Ademais, a primeira obra de Nelson, Vestido de Noiva, sob a direção de Ziembinski, nos mostra a antecipação do sentido, deste novo sentido e colocação a posteriori, o que viria a se dar, o desejo da mulher. E essa colocação é sui generis, pois as cenas são atemporais, são simultâneas, abrangendo três campos específicos, o imaginário, o simbólico e o real. Assim também, impressiona sua contemporaneidade, pois esses são os três espaços onde Lacan faz sua releitura de Freud.
            A privação, a frustração, a castração, são estas três categorias da relação do sujeito com o objeto em seus níveis de complexidade: privação (real), frustração (imaginário), castração (simbólico). Os três termos de referência da falta do objeto. Esse deslocamento freqüente na obra de Nelson Rodrigues, da mulher que deseja, da prostituta, da mãe, da irmã, da cunhada, enfim, postulam esse deslocamento do olhar sobre a mulher, dessa leitura que faz a causa do desejo que a constrói como feminino, enquanto corpo do feminino. Serge André faz um comentário a esse respeito em O que quer uma mulher?, 1986, p.23:
Uma quarta grande temática se destaca no trajeto que Freud efetua em torno da questão da feminilidade: se não há sexo feminino enunciável como tal, a feminilidade não pode ser concebida como um ser que seria dado desde  o início, mas como um se tornar – e um se tornar que, paradoxalmente, se inaugura para a menina a partir de seu complexo de masculinidade.
            Nesse sentido, é preciso que ela o diga, para ser. É preciso um interlocutor. Em Doroteia, no inicio da obra observamos sua chegada na casa das primas, D. Flávia, Carmelita e Maura. Doroteia vestida de vermelho. Nelson Rodrigues escreve:
         (CASA DAS TRÊS VIÚVAS – D. FLÁVIA, CARMELITA E MAURA. TODAS DE LUTO, NUM VESTIDO LONGO E CASTÍSSIMO, QUE ESCONDE QUALQUER CURVA FEMININA, DE ROSTO ERGUIDO, HIERÁTICAS, CONSERVAM-SE EM OBSTINADA VIGÍLIA, ATRAVÉS DOS ANOS, CADA UMA DAS TRÊS JAMAIS DORMIU, PARA JAMAIS SONHAR, SABEM QUE, NO SONHO, ROMPEM VOLÚPIAS SECRETAS E ABOMINÁVEIS. AO FUNDO, TAMBÉM DE PÉ, A ADOLESCENTE MARIA DAS DORES, A QUEM CHAMA, POR COSTUME, DE ABREVIAÇÃO, DAS DORES, D. FLÁVIA, CARMELITA E MAURA SÃO PRIMAS, BATEM NA PORTA. SOBRESSALTO DAS VIÚVAS. D. FLÁVIA VAI ATENDER; AS TRÊS MULHERES E DAS DORES USAM MÁSCARAS.).
                        As primas perguntam a Dorotéia, “- Teve a náusea?!”. Ao que Dorotéia fica em silêncio, só respondendo depois. Imperativo categórico, neste início. E essa referência à Náusea, nos faz remeter também à obra de Sartre, A Náusea. A náusea que é esta marca de herança, onde esta questão do desejo da mulher está efetivamente encerrada. A privação, o furo, a falta neste significante feminino. Mais adiante, as botinas, fetiche, significante que encerra o masculino. O existencialismo sartreano, coloca a náusea como a sensação do corpo frente ao descobrimento do ser no mundo: o design.
            Esse furo, esse vazio, questões limites do homem, o sexo e a morte.
            Nelson Rodrigues intitula Dorotéia como uma farsa. Assim diz Apud Carlson, 1997, p.48.
A FARSA é uma terceira coisa nova/ Entre a tragédia e a comédia/ De ambas,Usufrui a liberdade./ Mas as restrições lhes evita./ Acolhe príncipes e dignitários./ Ao contrário da comédia; e recebe/ Como os hospitais e as tabernas,/ A massa vil dos plebeus,/ O que a senhora tragédia jamais fez,/ Não se restringe  a alguns temas – a todos aceita:/Leves e pesados, sagrados e profanos,/ Rústicos e urbanos, alegres e tristes./Não se importa com os lugares:/Passa-se na Igreja, na praça, seja onde for,/Quanto ao tempo, se não ocorrer num só dia,/Ocorrerá em dois ou três.
           
            A ironia sendo decantada a cada momento, na medida em que a peça vai se desenvolvendo.
           As três viúvas, D. Flávia, Carmelita e Maura, demonstram tanto com seus diálogos, quanto com o lugar em que eles acontecem, o seu horror ao sexo, suas cenas só acontecem na sala, para que não aja intimidade com as pessoas, suas faltas de visão, que não as permitem enxergar os homens, é a segurança delas que não vai haver desejo, o fato de que as botinas, que representam o noivo de Das Dores, gerar o caos na casa, nos mostra essa aversão a sexualidade e a própria natureza humana: "Porque é no quarto que a carne e a alma se perdem!... Esta casa só tem salas e nenhum quarto, nenhum leito. Só nos deitamos no chão frio do assoalho..." (D. Flávia, Dorotéia, I, 206).
           Como que para evitar o desejo e a sexualidade, as viúvas usam  como lema o tornar-se feia, nenhum um pouco atraente, sem ser desejável aos olhos dos outros e nem poder desejar, usam máscaras que representam as chagas e a feiúra, além de roupas pretas e castas. Por isso, quando vêem Dorotéia, suas primeiras reações são de rechaço, afinal é ela uma mulher bonita, isso conseqüentemente atraia o desejo masculino para ela.
          Elas reprimem tanto aquilo que na verdade sentem, que se espantam quando Dorotéia começa a falar a verdade, expondo o fato de que ela não teve a náusea, que conseguia ver os homens, que era prostituta e que era perseguida pelo jarro, que representa o desejo.

3. O NOME-DO-PAI: A REFERÊNCIA PATERNA

            Dorotéia, ao perder o filho, fez juramento de se tornar uma mulher de bom conceito social. Conserva o filho morto dentro de seu quarto, até a putrefação. Essa face da morte que percorre a escrita de Nelson Rodrigues lembra o “destino”, as três irmãs e as três parcas confeccionando a sorte humana. A mulher neste contexto é a natureza velada. Quando, através do sexo, tenta-se descobrir essa máscara e revelar, é a morte que se apresenta, horrenda, como a alertar sobre um “limite”, a interdição dada pela metáfora paterna.
            Quando tocamos nesta face da mulher, no sentido da compreensão do seu desejo, outra coisa vem em seu lugar. O corpo do feminino, o indizível  do seu sexo, inventa, produz uma demanda de sentido que está , para a escuta, para a leitura. Não pode ser dar ou se fazer sem esse movimento. Neste indizível, uma palavra vem inventar, filtrar, produzir, instalar um sentido ou significado onde também encontramos o lugar da arte.
            Por isso, falamos no início deste artigo em universalidade e unidade. Porque a mulher não pode ser dita, não faz parte de um conjunto universal. A cultura do desejo de morte tenta, inevitavelmente criar subsídios na esfera do artifício e não da arte, para fazer sua representatividade, mas é inútil, ainda falta. Há falta a ser do lado da mulher, reivindicando, demandando uma leitura. A sintomatologia dos quadros femininos, desde a histeria, anorexia, bulimia, síndrome do pânico, depressão pós-parto, circunscrevendo esse buraco, do inominável na mulher.
            Falamos em universalidade, unidade, em categorias do sentido. Para agora, neste “resto”, produto do corpo do feminino, transportado pela pulsão de morte, encontrar o “ato”. A morte, é isso que ela vem representar no corpo do feminino: limite que faz do pensamento, erupção da ação: assim em Dorotéia, a morte do filho.
            Lembrando a diferença entre pensamento latente e pensamento manifesto, Freud o coloca bem-dito na Interpretação dos Sonhos, quando fala do trabalho da censura, da força superegóica, os mecanismos da repressão, força que imanta para si este lugar, e o tempo, devolvendo sua produção.
            As botinas, metáfora que Nelson usa para representar o masculino, fetiche, é esse falo, a causa do desejo. Não é o órgão masculino, mas o movimento do desejo do outro, a falta que acalanta o desejo. Os homens usam fetiches, as mulheres não.
Todo fetiche se produz neste caminho da pulsão escópica sobre o sujeito infante. Este ver não-ver. Isto que foi visto anteriormente, que antecipa o que não poderia ter sido visto na mulher. É assim que se apresenta o fetiche: um dar a ver, no adiantamento desta negação do sexo. Observemos o desenvolvimento que Jacques Lacan faz a esse propósito em O seminário, livro 4, p. 41:

Do mesmo modo, vocês puderam observar que o número de fetiches sexuais era bastante reduzido. Por quê? Além dos sapatos, que desempenham aí um papel tão importante que podemos perguntar como é que não se presta mais atenção a eles, encontram-se apenas as ligas, as meias, os sutiãs e outros – todos muito chegados a pele. O principal é o sapato. Como se podia     ser fetichista nos tempos de Catulo? Aí, também é um resíduo.

            E rechaço de todo elemento masculino que o torna representável: uma fissura lógica necessária. Assim também o produto artístico, o produto não é só objeto, é revestido de uma aura para quem o cria. O objeto torna-se coisa, recuperando um enunciado de Freud: “Elevar o objeto à dignidade de Coisa”. No Seminário de Jacques Lacan, livro 4, p. 40, ele fala:

Se ontem à noite falou-se em objeto, foi para tentar definir os estádios do desenvolvimento, e com efeito a noção de objeto é importante nesse aspecto. Mesmo assim, não apenas a imagem do corpo não é um objeto, como nem mesmo poderia se tornar um objeto. Esta observação, muito simples, que não foi feita por ninguém a não ser de maneira indireta, vai lhes permitir situar exatamente o estatuto da imagem do corpo com referência a outras formações imaginárias.

            Negação, rechaço, foraclusão: três formas lógicas no âmbito do imaginário, real e simbólico, falta do significante paterno que implica o sujeito dentro da sexualidade, no universal. Por isso, acepção da palavra, é sempre sublimação do ato que o encarna. Segundo Jacques Lacan, Seminário: livro 4, p. 47:

Este esquema comporta que o que é significante de alguma coisa pode se tornar a qualquer momento significante de outra coisa, e que tudo o que se apresenta na vontade, a tendência, a libido do sujeito é sempre marcado pelo vestígio de um significante – o que não exclui que talvez haja outra coisa na pulsão ou na vontade, algo que não é de modo algum marcado pela impressão do significante. O significante é introduzido no movimento natural, no desejo, ou no demand, termo a que recorre a língua inglesa como a uma expressão primitiva do apetite, qualificando-o de exigência embora o apetite enquanto tal não seja marcado pelas leis próprias do significante. Assim, pode-se dizer que a vontade vira significado.

            O mistério que envolve essa mística de Dorotéia tem várias implicações. Mas principalmente, nestes fragmentos de vida, desde a prostituição até o encontro com as irmãs, após a morte do filho, o inusitado retorno, o núcleo familiar, a estrutura primária, o simulacro cultural... Algo ali, em Nelson Rodrigues, quer dizer exatamente isso: não faço parte, estou voltando, e é isso o que me representa como farsante, mas sou outra coisa. Indubitavelmente, sei de tudo, de todas as provas, culpas, pecados....

            E chegamos então à conclusão, necessária e independente, a estrutura sempre sofre uma ruptura, seja ela qual for, no que diz respeito à arte, no que diz respeito a essa transfiguração artística.
            A mulher, o que ela encarna não é aquilo que o real do seu corpo nos diz, mas é a imantação do significado, a produção de um sentido novo.
 Rodrigues não é só um dramaturgo moderno, ele é espetacular em sua teoria feminina, abriga a mulher brasileira dentro do modernismo, constrói um corpo do feminino dentro da cultura popular brasileira, dentro da sociedade carioca. Envolve esse corpo do feminino nas mazelas da realidade. Joga com o sonho, a fantasia, sexo, desejo, gesticula para esse homem moderno, faz sinal desta fronteira inominável que é a morte, conduz esta mulher, deslocando este limite mais para a frente, formando uma nova linguagem.
Melhor dizendo, cavalga na palheta de Freud, sabe o que está construindo quando escreve Dorotéia. Nelson Rodrigues faz essa transposição do feminino, navegando na mulher que o ventre brasileiro preside, estampa a cor desta feminilidade e seu gozo azul, amarelo, verde.... A linguagem nasce, a tragédia pressupõe, a cultura restitui, a natividade destas ondas, deste mar, do ímpeto selvagem e inoculador do sentido, só nasce de seu protesto vivo e inovador contra o preconceito e toda série de repressões que ao longo de sua vida, é testemunha.
Isso é a obra de Nelson Rodrigues: testemunho, versículo prévio de toda uma apoteose brasileira, contemporaneidade, imortalidade.


 Referências
ANDRÉ, Serge. O que quer uma mulher? 3ª Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda., 1987.

COTTET, Serge. Freud e o Desejo do Psicanalista. 2ª Ed.  Rio de Janeiro:  Jorge Zahar Editor Ltda., 1993.
FREUD, Sigmund. A interpretação dos Sonhos. 2ª Ed. São Paulo: Círculo do Livro S.A. 1990.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda., 1985.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 4: a relação de objeto. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda., 1995.
OFICINA DE TEATRO. Dorotéia. Disponível em: www.oficinadeteatro.com.br. Acesso em: 09 de abril de 2015.

VELLOSO, Helvídio de Castro. 1ª Ed. AS PULSÕES: palavras ditas e não escutadas. Curitiba: Livraria do Eleoterio,1999.

domingo, 10 de maio de 2015

NELSON RODRIGUES COM FREUD: O ESPÍRITO DA MULHER

Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Escola de Comunicação e Artes
Curso Bacharel em Teatro

Denise França
Email: franca.denise08@yahoo.com.br

                TOMO I
               A universalidade humana e a pessoa única nos coloca um problema: os critérios do sentido. O que nos faz diferentes de todos os outros homens nessa imensa cadeia humana, é a escuta, a fragmentação do nosso discurso e necessariamente, o que produzimos como efeito, o sintoma, o lapso, a mentira, o engano, o transtorno, a emasculação do sentido e a alienação do sujeito.
                Nelson Falcão Rodrigues nasceu no Recife em 23 de agosto de 1912. Aos 3 anos de idade foi para o Rio de Janeiro com a família. Onde seu pai, o jornalista Mário Rodrigues funda o jornal “A Manhã”.
                Nenhuma falsa modéstia: é assim que a obra de Nelson Rodrigues acontece no cenário brasileiro, enquanto jornalista,  enquanto escritor, enquanto dramaturgo.  Ele escuta, ele faz a sua leitura da realidade da sociedade do Rio de Janeiro, numa sede de jornal,  relatos de casos de homicídio, crimes passionais e desde os 13 anos de idade trabalha como repórter policial.  Seu irmão Mario Rodrigues é assassinado por uma mulher na sua frente, no Jornal “A Crítica”, em 1929. Fato que marcou profundamente a família Rodrigues.
                Crônicas da vida cotidiana, “Álbum de família” (1945). Em 1948 escreve “O anjo negro”, “A vida como ela é” (1950).
“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino).” (Nelson Rodrigues, 1992. O anjo pornográfico).

                Em 1949, escreve Doroteia, peça que será o foco deste artigo. Considerada uma peça mítica, segundo o crítico literário, Sábato Magaldi. Estreou em 1950, no Teatro Phoenix, no Rio de Janeiro sob a direção de Z. Ziembinski. Considerada uma peça realista.
                Antes de entrarmos no contexto desta peça, vamos abordar alguns fragmentos necessários e imperativos na obra de Sigmund Freud, conceitos por ele formulados que nos farão entender e analisar um pouco melhor os signos desta linguagem rodrigueana. Mesmo porque, Freud não era desconhecido para Nelson Rodrigues: se tratasse de um pintor, poderíamos dizer que Nelson Rodrigues pintou o cenário carioca com as cores da paleta de Sigmund Freud.
                A modernidade de Nelson Rodrigues está nesta leitura inaugural desta realidade sociocultural, a sociedade carioca. Num segundo momento, descobre-se na obra de Nelson Rodrigues uma sintaxe própria, assim como o estilo ao apropriar-se desta brasilidade inesgotável em tudo o que escrevia.
                O feminino rodrigueano é decantado desta realidade e transfigurado. De modo que a mulher em Nelson Rodrigues, é uma mulher transformada pelo desejo que a causa. E nisto, também a coincidência com a leitura de Freud.  O corpo feminino passa a um outro nível de leitura, o desejo do analista. Assim também, o corpo feminino na escrita de Nelson Rodrigues passa a apresentar o corpo do feminino. Por isso, essa complexidade, esse ciclo mítico onde encontramos DOROTÉIA.
                Ademais, a primeira obra de Nelson, Vestido de Noiva, sob a direção de Ziembinski, nos mostra a antecipação do sentido, deste novo sentido e colocação a posteriori, o que viria a se dar, o desejo da mulher. E essa colocação é sui generis, pois as cenas são atemporais, são simultâneas, abrangendo três campos específicos, o imaginário, o simbólico e o real. Assim também, impressiona sua contemporaneidade, pois esses são os três espaços onde Lacan faz sua releitura de Freud.
                A privação, a frustração, a castração, são estas três categorias da relação do sujeito com o objeto em seus níveis de complexidade: privação (real), frustração (imaginário), castração (simbólico). Os três termos de referência da falta do objeto. Esse deslocamento frequente na obra de Nelson Rodrigues, da mulher que deseja, da prostituta, da mãe, da irmã, da cunhada, etc. e tal, postulam esse deslocamento do olhar sobre a mulher,  dessa leitura que faz a causa do desejo que a constrói como feminino,  enquanto corpo do feminino.
“Uma quarta grande temática se destaca no trajeto que Freud efetua em torno da questão da feminilidade: se não há sexo feminino enunciável como tal, a feminilidade não pode ser concebida como um ser que seria dado desde  o início, mas como um se tornar – e um se tornar que, paradoxalmente, se inaugura para a menina a partir de seu complexo de masculinidade.” (André SERGE. O que quer uma mulher? 1986: p.23)

            Nesse sentido, é preciso que ela o diga, para ser. É preciso um interlocutor. Em Doroteia, no inicio da obra observamos sua chegada na casa das primas, D. Flávia, Carmelita e Maura. Doroteia vestida de vermelho.
            “(CASA DAS TRÊS VIÚVAS – D. FLÁVIA, CARMELITA E MAURA. TODAS DE LUTO, NUM VESTIDO LONGO E CASTÍSSIMO, QUE ESCONDE QUALQUER CURVA FEMININA, DE ROSTO ERGUIDO, HIERÁTICAS, CONSERVAM-SE EM OBSTINADA VIGÍLIA, ATRAVÉS DOS ANOS, CADA UMA DAS TRÊS JAMAIS DORMIU, PARA JAMAIS SONHAR, SABEM QUE, NO SONHO, ROMPEM VOLÚPIAS SECRETAS E ABOMINÁVEIS. AO FUNDO, TAMBÉM DE PÉ, A ADOLESCENTE MARIA DAS DORES, A QUEM CHAMA, POR COSTUME, DE ABREVIAÇÃO, DAS DORES, D. FLÁVIA, CARMELITA E MAURA SÃO PRIMAS, BATEM NA PORTA. SOBRESSALTO DAS VIÚVAS. D. FLÁVIA VAI ATENDER; AS TRÊS MULHERES E DAS DORES USAM MÁSCARAS.)” (RODRIGUES, Nelson. DOROTÉIA)

                                As primas perguntam a Dorotéia, “- Teve a náusea?!” . Ao que Dorotéia fica em silêncio, só respondendo depois. Imperativo categórico, neste início. E essa referência à Náusea, nos faz remeter também à obra de Sartre, A Náusea. A náusea que é esta marca de herança, onde esta questão do desejo da mulher está efetivamente encerrada. A privação, o furo, a falta neste significante feminino. Mais adiante, as botinas, fetiche, significante que encerra o masculino. O existencialismo sartreano, coloca a náusea como a sensação do corpo frente ao descobrimento do ser no mundo: o design.
                Esse furo, esse vazio, questões limites do homem, o sexo e a morte.
                Nelson Rodrigues intitula Dorotéia como uma farsa.
A FARSA é uma terceira coisa nova/ Entre a tragédia e a comédia/ De ambas,Usufrui a liberdade./ Mas as restrições lhes evita./ Acolhe príncipes e dignatários./ Ao contrário da comédia; e recebe/ Como os hospitais e as tabernas,/ A massa vil dos plebeus,/ O que a senhora tragédia jamais fez,/ Não se restringe  a alguns temas – a todos aceita:/Leves e pesados, sagrados e profanos,/ Rústicos e urbanos, alegres e tristes./Não se importa com os lugares:/Passa-se na Igreja, na praça, seja onde for,/Quanto ao tempo, se não ocorrer num só dia,/Ocorrerá em dois ou três. (Apud CARLSON, 1997: p.48.)
               

                A ironia sendo decantada a cada momento, na medida em que a peça vai se desenvolvendo. 

sábado, 25 de abril de 2015

PANORAMA DO TEATRO BRASILEIRO - RESENHA

CURITIBA, 25 DE ABRIL DE 2015.

SÁBATO MAGALDI:  PANORAMA DO TEATRO BRASILEIRO

Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Curso Bacharel em Teatro
Denise França

            Sábato Magaldi escreveu Panorama do Teatro Brasileiro em 1926, com a finalidade de publica-lo em outros países, para que outras culturas pudessem se acercar da História do Teatro Brasileiro. Desde a sua origem catequizadora, com os padres Anchieta, Nóbrega, até a modernidade. Nosso autor deixa bem claro, desde a insurgência do teatro vindo da Europa para o Brasil, já em sua complexidade espacial, os povos que aqui se criaram, também assim o teatro brasileiro foi amplo, formando-se com a formação do povo brasileiro. Não poderia ser outro o nosso teatro, segundo Sábato Magaldi. Mesmo na modernidade, com a introdução de técnicas de direção, com Ziembinski em Vestido de Noiva, quando se prefere certamente acreditar que o diretor transforma o teatro brasileiro, podemos dizer anteriormente que o diretor se apaixonou pelo efeito brasileiro de ser. E assim foi. A modernidade brasileira no teatro não é nada mais do que o  jeito e o ato de fazer culturalmente estabelecido pelo povo brasileiro. Seguiu-se o Teatro de  Comédia e o Teatro de Arena em São Paulo, a partir das  expressões e manifestações políticas que eclodiram nesta mesma época. Sábato Magaldi demarca os espaços do regionalismo brasileiro, a obra de Suassuna, a obra política e crítica deste sujeito compondo os mundos do nordeste brasileiro, a alegoria dos sertões em espírito que transfiguram este humano brasileiro em esperança. Os cordéis, o atacado regionalista em cena nas feiras de Santana. A emissão desta religiosidade que vem desde os padres catequistas, adquirindo ao longo do tempo, a transfiguração nestes personagens do teatro que marcam em cena, como O auto da compadecida, de Dias Gomes, a esperança de um povo, crucificado. E assim é, para nós, a obra de Sábato Magaldi, um feixe complexo de relações que só pode ser compreendido através de um estudo aprofundado destes episódios históricos, da prevalência do homem brasileiro, causa de um enredo que se queria compor através de um olhar que vem de fora, e efeito das constatações do fato, oriundo da compreensão de uma sintaxe própria, linguagem brasileira e não portuguesa. A história sempre será uma produção de significados outros, quando recontada. A crítica teatral e a imersão de Sábato Magaldi nos fatos e contextos históricos, permite evidenciar o quanto este autor prima pelo respeito à arte,  os acontecimentos, as opiniões e o registro destes fatos. Só assim podemos precisar e elaborar o processo de modificação e transformação de um povo em seu fazer criativo. O que faz a atualidade de uma obra, mesmo crítica em seu tempo. O que vale dizer, a obra de Sábato Magaldi é um estado de exegese que desloca o signo ao significado, ou seja, quando se pretendia civilizar o povo brasileiro num fazer europeu, na arte, o que pudemos comprovar na plenitude deste ato, a uma civilização brasileira, o ato de um  povo, em sua diferença cultural: nossa brasilidade. E isso é fazer uma crítica comprometida com a verdade, segundo Magaldi. Aquele que se compromete com o objeto de seu estudo, está disponibilizando esse tempo, a história, sobre seus frutos, e consequentemente, deixando a possibilidade de olhar a qualquer tempo e a qualquer momento, absolvendo-se do julgamento que cristaliza essa história e modifica sua verdade. Haja visto que os vestígios deixados pelo artista são sabiamente uma autentificação de passagem, transcendência e não arbitrariedade, individualismo radical. Percorrendo os meandros da obra de Sábato Magaldi, as esquinas da memória, observamos além do jornalista e crítico, o escritor  em seu pleno desenvolvimento. Porque literatura é estilo. E estilo é verdade. Intransferível o estilo de um autor: impossível de reprodução. Sábato Magaldi tem em sua pena o poder de se fazer presente no passado que o antecedeu, como um olhar fotográfico. O que nos faz pensar sobre o espírito do artista, sobre a transcendência atemporal da obra. A construção histórica do teatro brasileiro são esses ladrilhos calcados neste solo de brasilidade. Depurar o seu sentido e sua importância só cabe a alguém que o pode atestar a veracidade, recuperando todos os hiatos, silêncios, pausas, até alçar a voz que se fez presente no agora, do ato cênico. É assim o ato de representar, de atestar a presença, a perenidade do personagem.
  


NELSON RODRIGUES SEMPRE

APRESENTAÇÃO DOS ALUNOS DE TEATRO PUC/PR
NELSON RODRIGUES SEMPRE

ATORES:

DANIELLY SAMPAIO - ELZA
DENISE FRANÇA - NELSON RODRIGUES VELHO
EMERSON MIRANDA - COADJUVANTE  "A SERPENTE" - A VIDA COMO ELA É
FERNANDA BIBIANO - LEONOR
MARILDA PIRES - A VIDA COMO ELA É
MARIA DAS GRAÇAS SUARDI - A VIDA COMO ELA É
MATHEUS FREITAS - BIÓGRAFO JORNALISTA
GEORGIA RANGEL - BONITINHA MAS ORDINÁRIA
JOSÉ HILÁRIO DA SILVA - NELSON JOVEM






sexta-feira, 6 de março de 2015

TRECHO - DENISE FRANÇA

CURITIBA, 05 DE FEVEREIRO DE 2015.

PRODUÇÃO DE TEXTO: PROFESSOR OTTO
PUC - PR


O TEMPO, O VENTO E UM AMOR QUE NÃO TEM JEITO

TRECHO

No bagaço das horas, a BR projeta quinhões de luzes, faróis sobre o meu destino.
Existe um trecho feito em hora anunciada.

Anonimamente parto, outros destinos vão de encontro ao meu,
transitam ramificadas nesta BR, as várias naturezas do Adeus.

Onde acabo de chegar, atravesso, perpasso o naco e o tabaco
do outro.
Estes sonhos teus manifestam rancor.
Incredulidade.
Te reconheço como um visitante noturno,
frio e voltado à indiferença,
ou diurno capaz na necessidade
deste desejo feito rio assoreado
em sobras,
cada mulher....

Cidade ausente,
vila ou princípio de memória,
nessa estrada que me cabe,
onde tanto é mais,
um fato contado,
desfeito e dado ao desfrute.

O claro desaparecimento
e assiduidade à mesmice,
me declaro com a ausência
de quem parte.


DENISE FRANÇA




sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O TEMPO, O VENTO E UM AMOR QUE NÃO TEM JEITO - DENISE FRANÇA

CURITIBA, 26 DE FEVEREIRO DE 2015


l


Anfiteatro da Casa Estrela
PUC-PR


26/02 PRIMEIRO DIA DE AULA: LITERATURA DRAMÁTICA - PRODUÇÃO DE TEXTO
Volto de bike, a noite está linda, as cigarras e esta lua comovem meu coração que já não sabe do amor mais do que a partida, Mas esse conhaque, essa lua, deixam a gente comovida como o diabo...

O TEMPO, O VENTO E UM AMOR QUE NÃO TEM JEITO
Dessa primeira que se foi, muitas outras virão.... Eis a resposta que te dou, indelicadamente como quem tem o propósito de dissimular o amor e libertar o coração, em asas aladas, para socorrer este prisioneiro e sua liberdade cativa.
Ardor e dor juntos contemplam a ausência e a saudade.
Um desamparo e um primeiro vazio soçobram, escoltados pela lua nua e terna. Ainda aquele abraço envia seu calor ao corpo, lembrança é uma esquina sem encontro.
Ass,: Denise França

FREUD COM NIETZSCHE: MALDITO HOMEM - DENISE FRANÇA

CURITIBA, 19 DE NOVEMBRO DE 2014.


por Denise França
Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Filosofia I




            Friedrich Wilhelm Nietzsche, nasceu em Rocken em 15 de outubro de 1844 e morre em Weimar em agosto de 1900. Filósofo, crítico cultural, poeta e compositor alemão do século XIX.
            Obras:
            O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música
            Humano Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres
            A Gaia Ciência
            Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém
            Além do Bem e do Mal, Prelúdio a uma Filosofia do Futuro
            Genealogia da Moral, uma Polêmica
            O Anticristo, Praga contra o Cristianismo
            Ecce Humano, de como a gente se torna o que a gente é
            Nietzsche contra Wagner

            Sigsmund Schlomo Freud, nasceu em Freiberg in Mahren, 06 de maio de 1856, e more em Londres em 1979. Médico, psiquiatra, neurologista criou a Psicanálise.  

            Obras Completas de Sigmund Freud


             

            Nietzsche precedeu a Freud. Nas obras do primeiro, Além do Bem e do Mal, Demasiado Humano, Genealogia da Moral, observamos  peculiariades da mesma natureza dentro da obra de Freud : Mal-estar na Cultura (1930). Nietzsche fez o que até então, ainda não se tinha observado no campo da filosofia. Observemos em Humano Demasiado Humano:


“43. Homens cruéis, homens atrasados. — Devemos pensar nos homens que hoje são cruéis como estágios remanescentes de culturas passadas: a
cordilheira da humanidade mostra abertamente as formações mais profundas, que em geral permanecem ocultas. São homens atrasados, cujo
cérebro, devido a tantos acasos possíveis na hereditariedade, não sedesenvolveu de forma vária e delicada. Eles mostram o que todos nós fomos, e nos infundem pavor: mas eles próprios são tão responsáveis como um pedaço de granito é responsável pelo fato de ser granito. Em nosso cérebro também devem se achar sulcos e sinuosidades que correspondem àquela mentalidade, assim como na forma de alguns órgãos humanos podem se achar lembranças do estado de peixe. Mas esses sulcos e sinuosidades já não são o leito por onde rola atualmente o curso de nosso sentimento.”


            Assim em Freud, falando sobre a origem da  consciência, sobre os estatutos do ego (o mestre em sua potência),  sobre o superego, sobre a culpa.
            O mal-estar na cultura se dá em razão deste véu que encobre a verdade que precede a história do sujeito. O esquecimento, o recalque primordial, coloca no sujeito este véu, que o faz entrar nesta vida pelo seu viés, a insatisfação, o sofrimento, o desprazer, o sintoma. Este viés o lança para a vida, além de sua pretensão de dar uma identidade ao desconhecido, faz mais do que isso, produz o espetáculo de uma aparência estrangeira na terra de ninguém.
            Assim é o homem, para Nietzsche e para Freud. A compulsão de repetição, um dos conceitos fundamentais da psicanálise, nos garante que o sujeito humano erra, ele produz essa falta a ser, no tempo de vida, através da vida que subsiste a ele, ao seu tempo, no desejo que virá a ser, no outro.
            O sujeito humano deixa suas pegadas neste deserto, solda o seu motivo, e o seu motivo tem o saldo da culpa.
            Nesta paráfrase do Deserto, não menos que o deserto e a sarça ardente que ali esteve presente: “Eu Sou Aquele que Sou”.

            O homem andou por aqui, Nietzsche quizera falar assim: o homem andou por aqui. E por isso, escreve também Zaratustra, o super-homem. Nesse abismo onde ecoa a voz: “Eu Sou Aquele que Sou”, o silêncio submete o homem a viver neste deserto, a produzir e a subsistir neste silêncio e nesse impasse, depois que o homem morreu: Deus morreu!
            E a trilha que lhe resta é esta: Deus está morto.... Uma notícia: Deus está morto!  Este assassínio do homem pelo homem ocorre nessa migração espontânea do êxodo, onde as tábuas dos mandamentos são jogadas ao fogo, pelas mãos de Moisés. Freud, lança o último texto: Moisés e o Monoteísmo.
                        A alma de Freud, Freud sabe que está morrendo, e escreve esse texto como arcabouço de toda sua obra, como um legado imprescindível a esse outro, ao que virá. E nos deposita a maior de todas as pérolas: a história dos judeus. O ferro e a face de Deus impregna a sua pena. Literalmente a sua pena,  porque Freud está morrendo do câncer que o corrói em dores violentas.... 
            Ecce Homo, Nietzsche escreve para Wagner, é para Wagner que Nietzsche escreve: O nascimento da tragédia no espírito da música, A ARTE. Amar a quem se ama, que destino cruel: amar a Wagner. Contra Wagner, última obra de Nietzsche. Amar a quem se ama, que destino cruel do homem, neste deserto entregue depois que proclamou que Deus está morto.       
            Amar a quem se ama: AMAR AO PRÓXIMO COMO A TI MESMO. Entregue ao homem na mesa do holocausto, na última ceia, comendo com os seus, o filho do Homem disse:  AMAR A QUEM SE AMA. Porque sabia, exatamente o que lhe sucederia naquela noite, atravessando a face da verdade, o viés do humano, no sortilégio do beijo
            O sortilégio do beijo, encontramos na obra de Freud, o sonho da Injeção de Irma. O sonho dos sonhos. Onde aparece a fórmula da trimetilamina, onde Freud vai de encontro à morte. A descoberta do INCONSCIENTE. Freud nos diz aqui: PARA SEMPRE.  A via RÉGIA PARA O INCONSCIENTE SÃO OS SONHOS ( AInterpretação dos Sonhos). 
            Uma pena que tenham traduzido tão mal a obra dele. A ironia com que a pena de Freud tece seus pensamentos, e a ternura com que deposita ali as mais tênues impressões do humano, são perdidas. Os psicanalistas não sabem o que fazem...
            Nietzsche atravessou a música, escreveu sobre o espírito do homem, a música de Wagner. Aliás, a obra de Nietzsche é uma composição, é uma letra. E nisso, Freud é fecundo: a letra morta funda o apelo do homem ao título de Deus.
            Já estava escrito, há nisso em Nietzsche o maior de todos os sortilégios: O Anticristo, praga contra o Cristianismo. O cajado, este cajado que faz do homem, virulento em seu fastídio, pela submissão à perseverança dos males, introduz o Anticristo, como uma função tempo, neste espaço de sua letra.
            Já estava escrito, o livro. O livro da Vida, já está escrito. Nietzsche escreve para todos e para ninguém, assim falou Zaratustra, o profeta. Falar para todos e para ninguém, novamente, em sua letra, percebemos o que há de mais fundamental na fala humana, a escuta.  Que a música nos entre pelos ouvidos, pelos sentidos, e nos obture a alma, com o amálgama do inanimado, temos o sortilégio de morrer pelo esquecimento, através do esquecimento, somos conduzidos à morte.
            Somos artífices do BEM e do MAL, onde, só onde, nesta função do tempo, colocada irrisoriamente em lugar do esquecimento:”Assim Falou ZARATUSTRA” . Um livro para todos e para ninguém.  Espaço. Ele lançou aí o mesmo que Freud: O INCONSCIENTE É UM LUGAR.
Freud depois, nos diz: “Wo Es war, soll Ich werden” (1932 p. 86). Lembremos da sugestão de Lacan para a tradução:
Là où c’était, il me faut advenir. (Lá onde isso estava, devo (-me) advir.)
E Garcia-Roza em seu Freud e o Inconsciente (1994): “Ali onde se estava, ali como sujeito devo vir a ser. “

            Freud nos diz:  “uma força pela qual somos vividos, acreditando vivê-la.”
            E Nietzsche em seu Além do bem e do mal (1992), “um pensamento vem
quando isso [es] quer e não quando eu [ich] quero”.
            Que a nossa transcendência dependa disto. Quais os meios pelos quais o humano atravessa a linha da vida, chegando à morte. A morte de si mesmo, todos ros dias sendo viceralmente vivificada na transmissão deste sentido. O seu “falecer”: fale-ser, como dizia Lacan. Através da fala, atravessando a morte.
            Sua aparência de ser: o sentido. A construção de um saber. Freud decifrou através desta pedra de roseta, na comparação entre três línguas, o repertório do inconsciente:
“O inconsciente também é uma articulação de significantes e podemos ver Freud, na prática, produzindo este campo da investigação, ao notar na fala de seus pacientes aquilo que aparece repetidas vezes em seus sonhos e parapraxias. Freud, desse modo, inventa sua própria Pedra de Roseta, assinalando sua própria versão do cartucho de Champollion. Assim Freud observa ocorrências repetitivas, Lacan inicialmente marca o inconsciente como um tropeço, mas também enfatiza a repetição do inconsciente que sempre diz o mesmo.” (FINK, FELDSTEIN, JAANUS, 1997)

            Este aturdito, interditado, este ditado é um promessa, um voto. Um significante que remete a outro significante. A língua mãe, os judeos o sabem. Naquela época, a transmissão oral. E Jesus, o rei dos Judeus o fazia pelo povo, através do povo, seu ato era público, emancipado: o aramaico. Mas em Jesus não havia separação entre a fala e o ato.Ecce Homo trazia a marca do seu sinal, in corpo.

         E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério;  E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando. E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?  Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra. E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra. Quando ouviram isto, redarguidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e a mulher que estava no meio. E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais.” (João 8:3-11)


            Movia o pó da terra, a função tempo. Freud, nos fala em pensamento manifesto e pensamento latente. Entre o ato e a palavra, já se passaram séculos. O pensamento se faz ato.
            E escreveu no chão:  o lugar mais próximo do homem é o coração.



  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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FREUD, Sigmund.  O Mal-estar na Cultura. Ed 1. Coleção L&PM Pocket.  São Paulo:  2010.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano Demasiado Humano, Um Livro para Espíritos Livres.Ed 1. Local: Coleção L&PM Pocket, São Paulo:  2010.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealigia da Moral, Uma Polêmica. Ed 1. Local: Coleção L&PM Pocket, São Paulo:  2010.

TEATRO: A CONSTRUÇÃO DO HUMANO NO PAVILHÃO DA LOUCURA - DENISE FRANÇA

Denise França
Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Produção Científica


Resumo

No pavilhão da loucura, o homem está à mercê de um constructo lógico forjado da necessidade social de separar, rotular, padronizar comportamentos.  No teatro, o homem produz uma possibilidade de relativizar os traumas humanos através de uma construção em nome da arte. Quando estes dois quadros se juntam, a vida adquire um outro formato, com plasticidade viva, o ser humano cria, tece em uma palheta de cores variadas. A orientação deste percurso através da loucura e do teatro nos indica outros meios e mecanismos para ressarcir ao louco o seu lugar e a sua propriedade dentro da sociedade e dentro dos variados discursos. Visitamos a obra de Antonio Quinet, Freud, Lacan, Foucault, Viola Spolin. Um artigo de  Nadja Cristiane Lappann Botti e Michele Cecília Silva Torrézio, falando sobre o Festival da Loucura em Barbacena, Minas Gerais, Brasil. Utilizando técnicas de improviso, espontaneidade, partitura corporal, este pavilhão da loucura torna-se um espaço de produção de sentido. Como resultado, a loucura cede ao desejo que a funda, suspende o espaço da instituição que se apropria dela, produz um outro espaço onde o modo humano encontra sua raiz na criação de um novo sujeito, devolvendo-lhe seu rosto submerso em trevas.

Palavras-chave: Teatro. Loucura; Partitura-corporal; Imagem.



Sommario

Nel padiglione della follia , l'uomo è in balia di un costrutto logico forgiato di bisogno sociale di separare, etichetta, uniformare i comportamenti. Nel teatro, l'uomo produce la possibilità di relativizzare il trauma umana attraverso un processo in nome dell'arte. Quando queste due tabelle sono unite, la vita prende un altro formato , con la plasticità in diretta, l'essere umano crea, tesse in una tavolozza di colori diversi. L'orientamento di questo viaggio attraverso la follia e il teatro ci mostra altri modi e mezzi per risarcire il posto pazzesco e le loro proprietà nella società e nei vari interventi. Abbiamo visitato l'opera di Antonio Quinet , Freud , Lacan , Foucault , Viola Spolin. Un articolo di Nadja Cristiane Lappann Botti e Michele Cecilia Silva Torrézio, parlando del Festival Madness in Barbacena, Minas Gerais, in Brasile. Utilizzando tecniche di improvvisazione, la spontaneità, il punteggio del corpo, questo flag di follia, diventa uno spazio di produzione significat. Di conseguenza, la follia concede il desiderio che la fionda, sospendendo lo spazio della istituzione che se ne appropria produce un altro spazio in cui il modo umano è radicata nella creazione di un nuovo soggetto, lui tornando la faccia immersa nelle tenebre .
Parole chiave: Teatro; Madness; Score - corpo ; Immagine .





Nos séculos que precedem a nossa contemporaneidade, observamos o universo dos fenômenos alucinatórios, delírios, automatismo mental, comportamentos curiosos e incompatíveis com a realidadade ordinária serem tratados como anomalias, até mesmo fenômenos demoníacos e serem rechaçados pela sociedade logo em seguida.
A construção do humano não se dá de maneira gratuita, sem nenhum esforço. A condição humana, o repertório humano é extremamente complexo. Imaginamos o ser humano, seu destino, suas vicissitudes e nos deparamos com grandes problemas, lacunas, processos pouco sanados, frustrações no que diz respeito às pesquisas nesta área.
O repertório científico é elaborado pelo pesquisador, sofrendo da mesma forma os seus revezes. Os paradigmas criados no âmbito científico tem um prazo de validade, os conceitos são reformulados, os aparelhos tecnológicos mudam a realidade de vida deste humano homem, gerando efeitos em seu próprio comportamento.
Desde os mais remotos tempos, a compreensão da humanidade não nos parece tranquila, o modus vivendi,a inter relação entre as pessoas se tornou caótica.
Segundo Antonio Quinet; “O ator como agente do ato, se dirige ao outro numa cena que faz laço. Todo ato é teatral. “Quem é você no momento do ato? Quem fala? A quem se dirige? Para quê?” Isso corresponde aos papéis que desempenhamos na vida, na relação com os outros – tema central das práticas teatrais.” A contrução e restituição deste sujeito, principalmente in corpo, é função desta prática, desta linguagem do teatro. O empenho do teatro em relação ao sujeito psicótico, desenvolvendo  práticas e jogos teatrais que produzam esta imago identificatória do sujeito.

Observamos o quanto os jogos, as dinâmicas do teatro, em sua linguagem e aplicação, produzem nesta esquize do psicótico, a constituição de sua imagem, enquanto sujeito e pertencente ao grupo social.

O interesse nesta pesquisa surgiu do estudo da Psicanálise, no que se refere á Psicose em específico, e dos instrumentos e ferramentas empregadas na tentativa de manutenção dentro das instituições psiquiátricas.
Ao contrário, a linguagem teatral propicia a produção de uma imago e  estabelece um laço social, lugar de pertença, orientação referente.
Existe um vasto repertório bibliográfico, centenas de autores entre psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, filósofos, educadores, falam sobre esta temática específica, a psicose. No entanto, escolhemos para o nosso objetivo, alguns autores.
Antonio Quinet, nasceu em 1951, no Rio de Janeiro, se formou em medicina, com especialização em psiquiatria. Foi para Paris, em 1979, onde se tornou membro da École de la cause Freudienne  . Voltou ao Brasil, em 1989, e participou de várias iniciativas, culminando na fundação da Escola Brasileira de Psicanálise do Campo Freudiano em 1995. Depois, enveredou pelo Teatro, como dramaturgo. Criando a Cia Inconsciente Em Cena. Fundada por Antonio Quinet em 2007 a Cia. Inconsciente em Cena cria e apresenta seus espetáculos baseados em pesquisas sobre a relação do teatro com a psicanálise junto ao Mestrado e ao Doutorado de Psicanálise, Saúde e Sociedade da UVA , com o objetivo de trazer ao grande público numa linguagem teatral as descobertas da psicanálise.
Umas das obras de Antonio Quinet, Psicose e laço social, discute a partir da obra de Freud,O mal-estar na civilização, o mal estar dos laços sociais, onde se erigem os quatro discursos, segundo a proposta do psicanalista Jacques Lacan: o discurso do mestre, o discurso do universitário, o discurso da histérica, o discurso do analista.
Segundo Quinet:

“A noção de representação vem do conceito de mimesis, de “A Poética”, de Aristóteles, que ele define como o próprio da arte: representar – e não imitar – a natureza. Quando vemos uma maçã num quadro, não está em questão se aquilo é ou não é uma “verdadeira” maçã. A representação artística é uma maneira de se expressar a verdade da maçã ou, no caso do teatro, de uma ação. O teatro é uma verdade feita de mentiras; a histeria é uma mentira feita de verdades. O teatro encontra a histeria ao nos propor um rompimento da barreira entre verdade e mentira, entre realidade e ficção, pois coloca ali no real do instante o sujeito-ator-personagem com suas contradições e paradoxos, fantasias e sonhos, histórias e estórias.” (QUINET, Artigo, O GLOBO, 2013)

            Segundo Lacan, “em relação ao simbólico, se o esquizofrênico se especifica por “não ter o socorro de nenhum discurso estabelecido”, no paranoico “o significante representa o sujeito para outro significante”, indicando-nos a tentativa do sujeito de se inserir num discurso como laço social.”
             Em O mal estar e a civilização, Freud nos deixou um importantíssimo legado sobre a cultura, a arte e as manifestações expressivas do humano como uma forma de manutenção do sujeito dentro desta sociedade e sua constante reivindicação de dar ordem a este não senso, através do seu ato, produzindo e reconstruindo uma história onde ele se autorize, seja autor, saindo assim da sua postura de objeto, desejo do outro, esquize.
            A foraclusão do nome-do-pai, nos casos de esquizofrenia, paranoia, melancolia, assim referida na obra de Lacan, indica a necessidade desse vetor e função dentro da estrutura humana, onde o sujeito possa advir, representar-se em lugar do abastecimento desta falta, deste significante que em sua ausência, promove a precariedade das relações.
            A sociedade contemporânea norteia uma demanda de apoio no ato de dominação que constitui o discurso em sua origem, os laços sociais se expressam no ato de governar e ser governado, educar e ser educado, no ato de se fazer desejar, o ato histérico, o ato espistêmico da ciência contemporânea, onde o saber é aquele que manda. “Imperativo epistemológico: ‘Não importa o que aconteça, continue avançando, continue trabalhando para o saber.’ (QUINET) Saber obedecer e saber produzir.
            Segundo Antonio Quinet , todo discurso é discurso de dominação. Em nossa civilização moderna, o mestre, o universitário e o capitalista. Não há como escapar deste laço senão pela produção de um outro discurso que cumpra a função de suspender esta demanda inicial do sujeito, dada pela sua própria existência, e produzir um outro significante, dentro desta cadeia simbólica. O teatro, a linguagem teatral, a formatação do personagem, a ficção, a produção de uma partitura corporal, especifica a possibilidade deste sujeito se inserir, estar presente, e se constituir em sua fala de outro modo.

            As instituições psiquiátricas atualmente, se deparam com essa inércia que vige neste sistema fechado, e observam a necessidade de outro tipo de suporte, na tentativa de amenizar o sofrimento destes indivíduos.  A demanda de recuperação de um sujeito dentro de uma instituição psiquiátrica requer toda uma estrutura, através de enfermeiros, terapeutas, psiquiatras, psicólogos, funcionários, e ainda assim, a manutenção deste sujeito não corresponde a um tratamento adequado.
            A familiarização com novas técnicas que se originam de uma orientação dentro do mundo artísitico, a prática da pintura, do artesanato, favorecem que este sujeito produza elementos significativos no caminho de sua “cura”. Observamos a imensa dificuldade inerente à estrutura psicótica, deste indivíduo se relacionar com o mundo ao seu redor e consigo mesmo. A consciência do seu próprio corpo, e a sua avaliação imagética se encontra prejudicada em decorrência desta fragilidade estrutural, e por isso, é necessário o trabalho com o corpo e a aproximação deste indivíduo com outros do mesmo grupo, do grupo com outros grupos. A diferença se produz em função desta interelação humana. O sujeito isolado, excluído, não produz qualquer tipo de tecido expressivo.
      O mal-estar na cultura se faz presente em todos os setores e todos os grupos sociais, embora percebamos que a tecnologia proporcionou um saber sobre o organismo humano, em seu funcionamento, esse mesmo organismo humano desconhece este funcionamento, no sentido de que a consciência de si mesmo se aparta daquilo que o corpo fabrica e produz como reação aos estímulos externos, e em relação aos acontecimentos que norteiam a vida deste indivíduo. O rechaço é uma característica deste sujeito dentro do núcleo social, em qualquer forma de estrutura, e em qualquer forma institucional. Isso se dá, no mundo moderno, a construção ordenada em torno de um vazio.
Essa esquize do sujeito permanece intacta em seu fundamento, se conecta com a realidade, produz ou tenta produzir elementos de assimilação, os significados, gera novos juízos de valoração, uma ordem para ser ingressa, mesmo assim este furo, o foracluído ocasiona toda espécie de sintomatologia, e inclusive, as somatizações perenes em nossa vida. A produção da ciência é o próprio vírus inoculado no espírito desta coletividade.
            Na esquizofrenia, o delírio persecutório, as alucinações, a melancolia, elementos do foracluído, o impossível, o não significável, a perda e o encontro com esse vazio tornou-se hoje, o sintoma de uma violência que se faz presente todos os dias, a violência é nossa agregada permanente. Freud em o Mal-estar na cultura, já estabelecia esta conexão com a ordem contemporânea, ou seja, a esquizofrenia, a paranoia, a melancolia, não seriam mais um quadro particular, delineado pela excelência de sua estrutura, mas a própria ordem estabelecida, na fronteira deste  homem proibido e manipulável, onde os efeitos da fala, o domínio e a submissão, a coerção o excluem do exercício de sua humanidade.

            Falamos de estruturas e sistemas, habitamos a linguagem, produzimos outro homem no lugar deste impossível, o real. Isto é um fato.
            Observamos outra autora, Viola Spolin, em sua obra Improvisação para o Teatro,ela rompe o silêncio dizendo: “Todas as pessoas são capazes de atuar no palco. Todas as pessoas são capazes de improvisar. “ O tempo, o espaço, e a ação. Atenhamo-nos à partitura corporal do esquizofrênico, atenhamo-nos à partitura corporal de um obsessivo, melancólico ou compulsivo... Não nos deixa mentir sobre essa consideração do signo presente no corpo do sujeito, enquanto um corpo isolado, construído. E o sintoma não é mais do que ISSO.
            O estranho, o corpo estranho fala, o sintoma é esse corpo inerte, insignificável que recobre a pele do sujeito, inominável talvez, mas presente e concreto no dia a dia. Produzindo seus efeitos, fornecendo a esta realidade coletiva um modo e uma especificadade de relação e relações.
            Voltamos a Freud, em o Mal estar na cultura:

“Toda renúncia ao instinto torna-se agora uma fonte dinâmica de consciência, e cada nova renúncia aumenta a severidade e a intolerância desta última. Se pudéssemos colocar isso mais em harmonia com o que já sabemos sobre a história da origem da consciência, ficaríamos tentados a defender a afirmativa paradoxal de que a consciência é o resultado da renúncia instintiva, ou que a renúncia instintiva (imposta a nós de fora) cria a consciência, a qual, então, exige mais renúncias instintivas. “


                A memória, a lembrança: o esquecimento é o efeito correlato de uma atitude do homem organizada a partir da coletividade. O espaço de produção, essa fissura lógica na construção de um saber, subntende que a expressão humana se volta para uma calterização deste rechaço e deste esquecimento.
            A consciência humana, portanto, ou pelo menos esta parca noção que temos sobre nós mesmos, subverte nossa natureza primária, da necessidade, criamos a insurreição do desejo. Esse lado obscuro que a psiquiatria não alcança, no que diz respeito às psicoses, o pode bem marcar e considerar a linguagem do teatro.  E porque a psiquiatria não o alcança, porque ela se estende na organicidade funcional deste corpo. A tentativa de promoção de uma alteridade neste sujeito, pela toxidade  da forma, O REMÉDIO E O RECEITUÁRIO CLÍNICO, se encontra também como resultado desta patologia ainda maior, fruto da relação deste sujeito psicótico com o médico, o sistema que o condiciona. 
            Toxidade da forma: e a natureza de toda droga, desde aquela droga que se atribuiu no início dos estudos de Freud, em A interpretação dos sonhos, o sonho dos sonhos, oSonho da Injeção de Irma, faz alusão a esse complexo que se estende a nossa contemporaneidade, como droga diluída à alma do sujeito.

“Dois anos antes de Lacan escrever sua tese sobre a paranoia, Dali define a paranoia crítica: ‘Uma atividade com tendência moral poderia ser provocada pela vontade violentamente paranoica de sistematizar a confusão. O fato mesmo da paranoia, especialmente a consideração do seu mecanismo como força e poder, conduz-nos às possibilidades de uma crise mental de ordem, talvez equivalente, mas, em todo caso, nas antípodas da crise a qual nos submete igualmente o fato da alucinação.” A “vontade violentamente paranoica de sistematizar a confusão” situa o delírio na paranoia, em oposição à alucinação, como um forte mecanismo mental. Dali continua: “Creio estar próximo o momento em que, por um processo de caráter paranoico e ativo do pensamento, será possível (simultaneamente ao automatismo e a outros estados passivos) sistematizar a confusão e contribuir ao descrédito total do mundo da realidade.” (QUINET, pg. 109)

            O delírio, a alucinação, o fenômeno psicótico e seus mecanismos, reencontrados sob esta perspectiva do espaço da cena, descobrem este avesso, a vontade de domínio, o silêncio coercitivo, as implicações da verdade testemunhada, não dita, identificada aos contornos e faces da expressividade.  A demarcação desse tempo remoto, o lapso do vazio emudecendo as bocas, o grito e o pânico , a ausência desta ordem,  o imperativo do gozo, constituem outro deslocamento do sujeito, numa agressividade construída e menos dilacerante. Verificamos com este trabalho o quanto neste sujeito existe uma possibilidade de se inserir e consequentemente produzir um referencial que o permita viver, quando o beneficiamos com as técnicas provenientes do teatro.

A REFORMA PSIQUIÁTRICA
            Em 1970, surge no Brasil, o Movimento de Trabalhadores em Saúde Mental, depois na década de 80, o movimento sanitarista, e só na década de 90 esses movimentos caminharam para as primeiras iniciativas no sentido de desinstitucionalização dos manicômios (Amarante, 1995). O processo de Reforma Psiquiátrica no Brasil vem acontecendo aos poucos, ainda existem resistências no sentido de manter tais instituições, mas hoje em dia, até mesmo as camadas da população mais carentes, até elas já começam a entender a “loucura”, as doenças mentais, de outra forma. Trata-se portanto de uma quebra de paradigma.
            Assim como Antonio Quinet identifica os discursos como estruturas sociais, e sua relação com o poder, assim também o faz Michel Foucault, em sua obra “Microfísica do poder”:
“Não se trata de libertar a verdade de todo sistema de poder − o que seria quimérico na medida em que a própria verdade é poder − mas de desvincular o poder da verdade das formas de hegemonia (sociais, econômicas, culturais) no interior das quais ela funciona no momento.”

“O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas
que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve−se considerá−lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir.”


          Outro belo trabalho foi realizado pelas alunas da Universidade Federal de São João Del Rei, Minas Gerais, Nadja Cristiane Lappann Botti e Michele Cecília Silva Torrézio:Festival da loucura e a dimensão sociocultural da Reforma Psiquiátrica. Neste artigo elas fazem uma exploração sobre as Instituições Psiquiátricas em sua origem, a instrumentação destas instituições e, posteriormente, descrevem o primeiro manicômio de Barbacena, suas condições, seu funcionamento, Esse artigo produzido por elas deixa bem claaro o quanto a problematização da loucura tem relação com o poder, assim como o demonstra Michel Foucault.
          Cada vez mais, observamos esse pensamento sobre o discurso institucional e o poder estar em pauta na pena dos intelectuais, na análise daqueles que se comprometem com a verdade e seus saberes.
          No artigo de Botti e Torrézio:
“Historicamente no país organiza-se no dia 18 e ao longo do mês de maio, o Dia da Luta Antimanicomial, com inúmeras atividades culturais, artísticas e científicas em várias cidades do país, com o objetivo de sensibilizar e envolver novos atores sociais para a questão (Pitta, 2011). Sabe-se que variadas produções artístico-culturais têm sido o palco da construção da nova relação entre a sociedade e a loucura, apontando para maior protagonismo dos sujeitos tradicionalmente limitados ao papel de doentes mentais e objetos do saber psiquiátrico (Basaglia, 2005).”

            Protagonismo este indicando maior auteridade, independência em relação a esses mecanismos de poder em torno do qual a sociedade se organiza. Outra vez, observamos a  necessidade de atualização dos conceitos, uma leitura mais autêntica acerca da realidade de vida de quem vive sob esse estigma da doença mental.
            E sem dúvida, coletamos os resultados desta mobilização que vem acontecendo já há algum tempo.  O psicótico e sua partitura corporal mostram signos  variados, a serem trabalhados e perpetuados dentro do espaço cênico. A atemporalidade da loucura nos adverte sobre o tempo deste véu que no impede de ver claramente. Foucault nos fala emHistória da Loucura:

         “O espírito do homem, em sua finitude, não é tanto uma fagulha da grande luz quanto um fragmento .de sombra. A verdade parcial e transitória da aparência não está aberta para sua inteligência limitada; sua loucura descobre apenas o avesso das coisas, seu lado noturno, a imediata contradição de sua verdade. Elevando-se até Deus, o homem não deve apenas superar a si mesmo, mas sim desgarrar-se completamente de sua essencial fraqueza, dominar de um salto a oposição entre as coisas do mundo e sua essência divina, pois o que transparece da verdade na aparência não é o reflexo dela, mas sua cruel contradição.”



         Lembramos também as considerações feitas por Freud acerca do inconsciente. Encontramos categorias próprias a este espaço,  uma dessas categorias se refere à antítese, ao par de opostos que não , a existência de um nega a existência do outro.
        E seguindo:

“Qual é esse ato? Ato de crença, ato de afirmação e de negação
— discurso que sustenta a imagem e ao mesmo tempo trabalha-a,
cava nela, estende-se ao longo de um raciocínio e organiza-a ao
redor de um segmento de linguagem. O homem que imagina ser de vidro não está louco, pois todo aquele que dorme pode ter essa
imagem num sonho. Mas será louco se, acreditando ser de vidro,
concluir que é frágil, que corre o risco de quebrar-se e que portanto não deve tocar em nenhum objeto demasiado resistente, que deve mesmo permanecer imóvel, etc..55 Este raciocínio é o de um louco, mas deve-se observar que, em si mesmo, não é nem absurdo nem ilógico. Pelo contrário, as figuras mais coercitivas da lógica estão, nele, corretamente aplicadas.” (FOUCAULT)


         No curso dessa pesquisa bibliográfica, contatamos com vários pontos de conexão entre um autor e outro, Confirmando nossos argumentos acerca da postura das instituições psiquiátricas no que diz respeito à loucura. A transformação dos conceitos ao longo do tempo, procurando estabelecer um nível de compatibilidade com a realidade histórica. Mudando gradativamente a formatação, atualizando lá onde se faz necessário um rigor lógico e conceitual, para que o sujeito dentro desta estrutura, não seja vítima do poder e do desmando daqueles que estabelecem leis coercitivas.
            Principalmente, fornecer a estes indivíduos novos instrumentos de produção do sentido, corpo e voz, a partitura corporal deles mesmos, a expressividade humana em sua riqueza e diferença. Essa plasticidade dos fenômenos psíquicos pode enriquecer o nosso repertório mimético: 
o idêntico. Os animais se camuflam para enganar ao predador. Ora são plantas, ora são folhas, e depois, saem deste recorte e deixam ali uma lição. Existe nessa esfera da sobrevivência, o campo e o limite. Algo a ultrapassar, quando o predador é o próprio homem.
            O teatro é esta pele, esta reentrância e esta fita moebiana por onde passam os filamentos das sensações mais sutis; E esse véu que se abre em asas para alçar um voo através da imaginação. O teatro perpetua os segredos da alma, as miragens da paixão, e nesse recuo ínfimo do silêncio e do aprisionamento da carne ao homem, do aturdito, esse mistério sublime se delineia mais uma vez.






  Referências


FOUCAULT, Michel. A Microfísica do Poder. 25ª Ed. São Paulo: Editora Record, 2014
FOUCAULT, Michel. História da loucura. São Paulo: Editora Perspectiva S.A.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na cultura. Porto Alegre: L&PM, 2010.
LACAN, Jacques. . O Seminário de Jacques Lacan,  Livro 3: As Psicoses. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda., 1988.
QUINET, Antonio. Psicose e laço socialesquizofrenia, paranoia e melancolia.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda., 2010.
SPOLIN, Viola. Improvisação para o Teatro . São Paulo: Perspectiva, 2005.
Botti, N. C. L. & Torrézio, M. C. S. (2014). Festival da loucura e a dimensão sociocultural da Reforma Psiquiátrica. Psicologia & Sociedade, 26(n. spe.), 212- 221.