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sábado, 30 de junho de 2012

POETA MARTINS DAGOSTIM

          Queira o sol ainda me agraciar
          na sombra assim que da sua ida
          ocultar-se nas nuvens da vida
          com a amizade de quem ficar

          Sei que a eternidade apagará
          o que se fez na curta passagem
          ...a longa estrada desta viagem
          ao finito mortal infinita não será

          Quem quer viver da incerteza
          afligir-se-á com toda certeza
          no momento certo quando for

         Mais vale ser alegre sorridente
         que chorar e ficar descontente
        ...rejeitar o certo amando a dor?

Bruno e Marrone Cabecinha no Ombro Chalana DVD Acústico 2





DEDICO AO FREI MAURO VELOSO ESTA MÚSICA:  EU TE AMO.

FREI MAURO VELOSO CAPUCHINHO - POR DENISE FRANÇA

CURITIBA, 30 DE JUNHO DE 2012.



MEU GRANDE E AMADO AMIGO FREI MAURO VELOSO CAPUCHINHO.

Hoje fui até a igreja dos capuchinhos, na missa das 17hs, e encontrei o Frei Mauro Veloso. Grande alegria encontrá-lo. Fiz o Curso Bíblico com o Frei Mauro, por um ano. Velho Testamento, também o Novo Testamento. O Frei Mauro é um dos melhores, conhece a história bíblica como ninguém.

Isso não é tudo. Frei Mauro tem diabetes, desde menino, e convive com a doença a vida toda, como ele mesmo diz, uma companheira. 
Frei Mauro viajou pelo mundo todo. Sabe falar vários idiomas, apaixonado pelas culturas e raças. Apaixonado por Jesus. 
Este capuchinho é um homem magnânimo. Conhece o coração dos homens... O espírito dele e a presença dele trazem alegria para minha vida, por isso o considero amigo, e amigo-amado.

ENCOSTA TUA CABECINHA NO MEU OMBRO E CHORA, E CONTA TUAS MÁGOAS TODAS PARA MIM... 

Ele cantava esta música durante o curso bíblico. Não sei dizer quanto amor, e quanto carinho lhe dedico, por tudo o que fez e faz, a vida lhe responde com a VIDA, e com a imortalidade. 

COM A IMORTALIDADE.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

INFECÇÃO - DENISE FRANÇA

Curitiba, 26 de junho de 2012.


A VIDA COMO ELA É.

Quinta-feira passada, eu e o dentista demos curso ao tratamento para o implante. Ele apenas abriu e colocou um pino para manter a gengiva aberta até  fazer a modelagem do dente...
Na sexta-feira, continuei minha vida diária, não tomei nenhum remédio, só chá de malva, e fiz o que sempre faço, o trabalho doméstico, etc e tal. No sábado, de manhã fiz exercício, e assim consecutivamente. No domingo, uma festa joanina aqui em casa em homenagem ao meu avô Joanim, desde manhã até a 22 horas, em atividade.
Nenhuma cirurgia me faz parar, sempre continuo minhas atividades. E nem se eu quisesse poderia parar, porque o meu SEMANCOL, faz com que eu não deixe meus pais fazerem o trabalho aqui de casa...
Contudo, domingo e segunda-feira, começou uma infecção na gengiva, e se estendendo pela boca.Liguei para o doutor e fui falar com ele. Ele ficou surpreso, porque em dez anos como paciente dele, nunca houve nenhum problema. E ele ficou preocupado, e eu também. Recomendou que tomasse Amoxilina, e fizesse uma  panorâmica da boca.
Esta noite, não dormi, fiquei com dores, e a boca inchada, principalmente embaixo da língua. De manhã cedo, peguei a minha bike e fui pedalando até o centro para fazer a panorâmica, o maior frio. Fui e fiz, e logo apresentei para ele. Ali não havia nada de errado, ele achou que a infecção não era resultado do implante, mas talvez de outro dente, ao lado. E, recomendou um outro dentista, amigo seu, que trata de canal, para fazer uma avaliação.

Cheguei em casa, e pedi ao meu pai, para me levar até o CABRAL, pois eu moro nas Mercês. Ali começou a via Cruzis. O meu pai começou a falar, e começou a despejar em cima de mim, tudo o que faz a quase quarenta e oito anos.... Exatamente as mesmas palavras. Só que eu respondi. E quanto mais eu respondo e falo o que penso, mais ele fica agressivo, irritado, furioso. E não adianta, porque eu sou assim, não posso e nem devo concordar com as coisas que fala.

Disse que eu sou uma pessoa que se isola. Esse isolamento, na minha juventude, foi causado em razão dele não me deixar viver como todo mundo da minha idade vivia. Mas isso não foi o suficiente. Além de me isolar dos amigos, me isolava das pessoas, distribuindo a todas as pessoas da família uma IMAGEM que não corresponde aquilo que eu sou.
Eu disse a ele: "O senhor se lembra daquela vez que chamou a polícia em frente à Igreja dos Capuchinhos, para me prender????"  E ele disse: O que?! Eu fiz isso??? Eu nunca fiz isso!!!!

MEU DEUS!!!  Eu estava dentro da igreja, assistindo uma missa, e tive vontade de cantar. Porque estavam tocando em camerata, JESUS ALEGRIA DOS HOMENS, fiquei emocionada e começei a cantar. Mas estava cantando porque sabia  cantar. O segurança da igreja, chegou ao meu lado e disse: Denise, pare de cantar!!!. Eu olhei para ele e disse: Não vou parar... E ai, minha gente, absurdamente, aquilo virou uma briga, e ele me pediu que eu saisse da igreja. Eu saí, e lá fora meu pai veio de encontro, porque alguém havia ligado para ele. E começou a me repreender, e ele disse: "CHAME A POLÍCIA!!!"

Eu fiquei atônita e disse para ele: "chamar a polícia, então chame!!!!".  E ai, o segurança disse que não era razão para isso. Olhem o absurdo da coisa.

Outro fato, minha avô de 94 anos de idade, mãe do meu pai, estava no Asilo de idosos, uma pensão. E, num sábado, a mulher que cuidava daquele lugar, ligou para casa as 23 hs da noite, e eu atendi o telefone. Ela disse que minha avó estava mal, e tinham levado para um posto de saúde. Meu pai atendeu o outro lado da extensão do telefone e disse para ela que iria no outro dia ver o que estava acontecendo. Novamente, fiquei atônita, saí de casa andando, e peguei a Avenida Manoel Ribas, a pé, em direção a Santa Felicidade para ver minha avó.

Aconteceu uma coisa extraordinária: eu pedi carona para um  carro que ali passava. Só pra chegar até santa felicidade. E o cara me perguntou aonde eu ia. Eu disse: vou até o pensionato de fulana. E o cara disse: nós conhecemos, te levamos lá. Isso é extraordinário, e sempre acontece em minha vida, nas situações mais dificieis e inusitadas. Lá fomos nós.

Quando cheguei lá, adivinhem, meu pai tinha ido atras de carro. Com aquele mesmo furor, e agressividade costumeira a ele nessas ocasiões, onde eu "desobedeço" as suas ordens.... Entrei no carro, e fomos até o posto de saúde. Minha avó estava sentadinha numa cadeira de rodas, não conseguia falar, provavelmente um ínício de derrame. O médico disse que ela deveria ir para o Hospital. Único hospital disponível, em Piraquara. E estávamos em pleno inverno, noite muito fria.

Chegamos lá, na enfermaria, haviam muitas mulheres, e no quarto, umas quatro camas. O cobertor, era aquele cobertorzinho barato, pobre. A enfermeira chegou para colocar o soro na minha avó, levou um tabefe na cara, que eu até ri.... hhahaha. E a enfermeira disse então que ela ficaria assim sem soro. E que alguém tinha que ficar com ela no quarto, cuidando, porque ela tinha mais de 80 anos.

Meu pai teria que ir no outro dia, pegar minha irmão no aeroporto, que vinha de São Paulo. Eu me dispus a ficar. E fiquei. Não tinha levado nenhum casaco para enfrentar aquele frio. Não tinha nada ali. Mas fiquei. O Hospital de Piraquara era tão frio, nossa. Ai eu fiquei deitada num banco e a enfermeira me trouxe uma coberta. Nesse dia, eu estava com dor no ombro, e isso me deixava com dor de cabeça. Olhem a situação. E, para não morrer de frio durante a noite, eu descia e ia dar uma volta na quadra, enquanto fumava um cigarro, nessa época eu ainda fumava. Depois voltava e ficava olhando minha avó.

Foram dois dias nos hospital de Piraquara, eu vi ali coisas horríveis. E, na manhã do dia seguinte, a enfermeira pegou minha avó, e colocou numa cadeira de banho e disse que ia dar banho nela. Mas, o banho era frio, porque não havia agua quente. Eu disse a enfermeira que minha avó era muito idosa, para tomar banho frio. Mesmo assim, deram o banho nela, porque era o procedimento normal...

A minha avó não podia mastigar, porque estava sem dentadura. E a mulher do leito ao lado, que tinha diabetes, disse para molhar o pão no leite, e tentar dar a ela. Foi o que fizemos, mas ela rejeitava e cuspia. Diante deste estado de coisas, eu liguei para o meu pai, puta da vida, e disse para ele vir até lá... E ele do mesmo jeito: com o mesmo furor e agressividade, colocando tudo como se fosse problema meu, como se eu estivesse fazendo coisas erradas.

No domingo, quando não aguentei mais de sono, porque não dormira, e por causa da dor no pescoço, peguei o ônibus, vim até a Praça Santos Andrade, e como não tinha mais dinheiro, vim andando até em casa. Quando cheguei aqui, me trataram como se eu estivesse fazendo escândalo por nada. Disse ao meu pai, para ir até lá ver ela, porque eu não aguentava mais ficar ali, sem dormir.

O fato é, que no domingo, tiraram minha avó de lá, e trouxeram ela para o pensionato. E, A VIDA COMO ELA É, MINHA AVÓ MORREU ALI NO PENSIONATO.

Pois bem, isso não é um desabafo. É A MINHA VIDA. Num outro dia, da mesma forma, quando respondi ao meu pai, ele disse isso: VOCÊ MALTRATOU MINHA MÃE NO HOSPITAL!!!   E eu olhei para ele e disse: " QUE DEUS PERDOE O SENHOR POR TUDO O QUE VEM FAZENDO....".

Hoje, eu disse a ele muitas coisas, mas disse a ele principalmente isso:  ESSA PESSOA QUE O SENHOR TEM NA CABEÇA NÃO SOU EU.  E não existe nenhuma possibilidade de diálogo entre nós. Porque consecutivamente e sistematicamente, são coisas desse tipo que eu ouço.

Meu pai tem 83 anos, e minha mãe, 78 anos de idade. Meu irmão é casado, e minha irmão, visita eles, apenas duas vezes por ano. Não passam fome, porque o meu irmão, ajuda, todos ajudam. Minha prima gosta muito deles, sempre está a disposição.

Eu, do meu lado, mesmo sabendo e sentindo tudo isso, continuo realizando os trabalhos desta casa, e faço tudo mesmo. Jardim, limpeza, cuido dos cachorros, toso, dou banho, tudo. Assim como estive à disposição para cuidar de outras pessoas, simplesmente por este fato: porque eu me coloco no lugar do outro.

Hoje, mais uma vez, percebi que meu pai, vai morrer sem ter noção do que eu sou, do que eu sinto, de tudo aquilo que faz com que eu me sacrifique para que a coisa funcione. E isto não é um pensamento narcisista de quem quer mostrar aos outros que é bom, mas É A MINHA VIDA EXATAMENTE ASSIM, CONTADA POR MIM, VIVIDA POR MIM, e não pelas palavras de tanta gente  que não me conhece, não sabe como é o meu coração.

Eu cheguei em casa, e chorei. Como já chorei tantas e tantas vezes... Porque é uma dor profunda, ver que essas pessoas não conseguem enxergar nada... Absolutamente não conseguem ver o esforço, a dedicação, o amor profundo...

EU CHORO, E QUANDO CHORO, CHORO MESMO, MAS NO OUTRO DIA, ESTOU DE PÉ NOVAMENTE.

Eu não sou masoquista, continuo cuidando da casa, e fazendo das tripas coração. E eu também sei, que existem muitas e muitas pessoas que passam essa mesma situação, vivem isso, fecham a boca, não falam, e a coisa as vezes se torna INSUPORTÁVEL, E INSUSTENTÁVEL...

PARECE QUE A VIDA NÃO TEM SENTIDO. Parece que a vida não tem sentido quando a gente houve de um pai, tantas coisas, que simplesmente não tem absolutamente nada a ver com a pessoa real que nós somos. Isso é horrível. Mas de alguma forma inexplicável, nos fortalece.

Eu resolvi contar estas histórias da minha vida, porque sei que outros tantos gostariam de fazer do mesmo modo, contar, desabafar, falar...

O sentimento em relação ao meu pai, não é ódio. Foi o que eu disse a ele: eu não sinto ódio do senhor, porque se sentisse, não estaria aqui em casa, fazendo tudo o que eu faço. O que eu sinto, quando tudo isso é dito, é uma sensação de vazio, de impossibilidade. Impossibilidade de abrir o coração desta pessoa, de fazer ele enxergar.

A VIDA COMO ELA É, em muitos momentos é dolorida, mas ainda assim, existem outros momentos, e outras pessoas, que nos fazem felizes.

E, a infecção do dente, nestas horas, não significa mais nada...


segunda-feira, 25 de junho de 2012

CONTOS ERÓTICOS - DENISE FRANÇA

CURITIBA, 28 DE AGOSTO DE 1998.


UMA COISA NOVA

Ela esperava por ele nua, sua face refletia a luz que os neons entregavam em púrpura, em laranja, em azul... Isso dava ao seu corpo linhas, matizes até então desconhecidos por Ela. Uma segunda, uma terceira, uma quarta expressão do desejo que aquele homem abrira nela.
E pela janela do quarto escutava as vozes daqueles canais das ruas, esbarrando nas paredes dos edifícios, das casas, nesses umbrais gravitando o concreto de uma cidade.
Helena não o via há muito tempo, e encontrara com ele por acaso. Ele estava só, havia chegado ali a convite de trabalho. Os dois não se reconheciam mais, já passado tantos anos. Ele estava bem mais velho, havia deixado a barba crescer e seus cabelos estavam grisalhos. Mas o sorriso, este não mudara. Luis Augusto era um homem forte, sempre fôra. E Helena não pôde deixar de sentir surpresa quando o encontrou novamente. algum brilho perdido foi reavivado em seus olhos quando o viu, eram amigos naquele tempo que passara, dividiram momentos juntos, mas nunca havia sentido por ele nada senão amizade.
Talvez por estar sozinha como ele, precisasse falar, contar esse tempo que havia ficado ali, contar as coisas que lhe haviam acontecido. E Luis tinha por Helena muito respeito e muito apreço pela forma como Helena se conduzira através da vida.
Neste dia, sentaram-se no Bar e foram relatando um ao outro os projetos, as incertezas, os anseios. E foram aos poucos sentindo alegria no que estavam podendo dizer nesse momento. De vez em quando ele lhe segurava as mãos, num ímpeto mais forte de aproximação e Helena sorria ainda com mais vivacidade. Como aquele homem podia ser tão amigo, tão sensato nas coisas que lhe dizia. As horas foram passando e eles nem perceberam, não perceberam muita coisa, senão o agradável prazer que os envolvia naquela conversa.
Então começaram a se encontrar todas as sextas-feiras naquele mesmo lugar, e foram aprofundando mais e mais o que falava e o que sentiam. Mas não sentiam ainda outra coisa. Não se insinuavam como um homem e uma mulher, mas estavam sózinhos e isso incutia uma falta e um desejo em cada um. Helena nunca fôra o tipo de mulher pela qual Luis Augusto se interessara. Ele gostava de mulheres mais delicadas, mais sensuais e Helena era um tipo rude, traços pesados, mas de uma conversa e de um diálogo aberto e franco. Luis Augusto, do seu lado, também não correspondia ao que Helena esperava de um homem, ele não era um homem propenso a relações regulares, e gostava de aventuras passageiras. Mas estavam ali, e foram ficando.
Um dia, resolveram dar extensão à conversa, na casa de Helena, próxima aquele lugar. Helena mostrou a ele seus trabalhos, suas esculturas e desenhos, e Luis Augusto, sentiu pela primeira vez algo mais forte por Helena,não sabia dizer o quê, mas ao tocar com as mãos aquelas formas, sentiu como se estivesse tocando no corpo de Helena. E um súbito frêmito de calor lhe subiu pela nunca e lhe deixou atordoado: aquela mulher lhe escondia uma outra natureza que ainda ele não havia percebido. E talvez, nem ela mesma percebia.
Nessa noite, Luis Augusto não conseguiu dormir e nos poucos momentos de sono, vieram-lhe sonhos onde Helena se descobria de suas vestes e lhe entregava uma rosa e ele, ao se aproximar de Helena para tocá-la, ela se transformava numa das esculturas e ele aos poucos ia sentindo em si uma rigidez e um profundo vazio. Ele não sabia o porquê daquilo e acordava suado, ardendo em desejo.
Passou a evitar Helena por alguns dias, pois não queria deixar transparecer suas emoções: já não eram mais as mesmas. Helena achou que ele havia encontrado uma outra mulher. E por isso, não se preocupou.
Luis Augusto no entanto, procurara realmente outra mulher na tentativa de aliviar o que estava sentindo, mas nada passou de uma transa e, depois, voltava à solidão e a seus pensamentos em Helena. E resolveu encontrá-la novamente. Foi até sua casa, e lá olhou mais uma vez Helena, olhou agora com mais interesse pra ver se não estava enganado quanto aquilo que sentia. Helena lhe servia um vinho enquanto percebia  que ele estava mais silencioso e expectante. E perguntou a ele se lhe acontecera alguma coisa, algum problema onde ela pudesse ajudá-lo.
Luis Augusto então lhe confessou que estava sentindo algo diferente por ela e contou-lhe os sonhos. Helena, no primeiro momento, ficou surpresa e disse a ele que estava enganado. Mas Helena no fundo, não queria admitir que ele pudesse sentir isso por ela. ela esperava dele, apenas amizade. Helena não admitia muitas coisas em sua vida, não acreditava em homens, acreditava só em amigos. Mas depois, ao pensar melhor, viu. Ela apenas não acreditava que ele sentisse isso. E passou a ficar com raiva dele, porque também não queria dar  o braço a torcer.
E eles apesar de não se separarem e continuarem amigos, começaram a brigar. E brigavam cada vez mais, pelas coisas mais bestas possíveis. Só para contrariar o que um dizia ao outro.
Helena passou um tempo sem produzir mais nada, porque quando produzia, parece que estava fazendo isso para Luis Augusto, em direção a ele. E Luis Augusto, do seu lado, saiu com todas as mulheres que podia, deitou e rolou. Mas eles continuaram amigos.
Aos poucos parecia que estavam esquecendo do que sentiam, embora não soubessem bem o que sentiam um pelo outro.
Até que um dia surgiu o Flávio e a Elvira na vida dos dois. E eles então começaram a se encontrar com mais calma e já não brigavam tanto. Helena falava de Flávio e Luis Augusto falava de Elvira, e um não escutava mais o que o outro dizia porque estavam apaixonados e só sabiam falar do amor que sentiam. Agora eles eram mais amigos do que nunca.
Helena então apresentou o Flávio ao Luis Augusto e esse lhe apresentou Elvira. Mas havia aí alguma discordância, porque quando sentavam à mesa para conversar, Elvira conversava com o Flávio e Luis Augusto ficava olhando Helena e não sabia o que dizer, senão que ela fizera uma boa escolha. E entre eles foi nascendo um profundo vazio e uma tristeza sem nome. Estavam tristes um com o outro. Mas já não conseguiam mais arranjar motivo para se falarem ou estarem juntos.
No último encontro, Luis Augusto disse que iria se casar e mudar de cidade. Helena ficou feliz por ele. Helena por sua vez, estava com Flávio que era um bom sujeito.
Mas nesse último encontro, havia muita chuva e Luis Augusto resolveu levar Helena em casa. Quando subiram as escadas do edifício, a luz apagou e Luis Augusto escutou o barulho de algo cair, quando abaixou para tentar pegar o que havia caído, chocou-se com Helena que fazia o mesmo movimento. Ele não a enxergava e nem ela a ele, mas ele sentia que havia tocado ali alguma coisa, e Helena do mesmo modo. Os dois ficaram procurando pelo chão o que havia caído. Em silêncio escutavam a respiração um do outro e essa respiração parecia que ia se juntar em algum lugar, num silêncio mais profundo. E a luz não vinha. E um dizia ao outro: "Não consigo achar." E aí, começaram a rir, porque na verdade o que estavam procurando estava mais perto. Sentaram na escada e seguraram a mão um do outro e agora já não riam mais. Então Luis Augusto pediu desculpas à Helena e Helena pediu desculpas a Luis Augusto.
A luz finalmente acendeu e os dois subiram a escada nos degraus que estavam faltando. Luis Augusto entrou, olhou Helena e viu que ela já era outra e Helea olhou Luis Augusto e viu que ele estava grato, estava agradecido por alguma coisa. Os dois então se beijaram e se abraçaram, e foram indo mais adentro no que procuravam. E já estavam se amando, ele já estava dentro dela e ela gozava de não ser mais a mesma, e ele beijava e procurava o corpo dessa mulher e ela lhe dava o que podia dar, dava-lhe prazer, e assim ficaram até o amanhecer, sem entender mais nada.
Ao acordar, se despediram. Luis Augusto foi embora e Helena produzia como nunca. E foram em frente, permanecendo apenas amigos.
Aquele mulher que estava no quarto e via o neon através da janela, essa mulher continuou assim, esperando por ele, mas ele não veio.




terça-feira, 19 de junho de 2012

A COMPOSIÇÃO DO BEIJO (11) - DENISE FRANÇA

Curitiba, 19 de junho de 2012.

"ENSAIO DE LUZES" (FICÇÃO):  TEXTO DEDICADO AO DOUTOR FLÁVIO GIKOVATE.

INSPIRAÇÃO DÉCIMA E UMA:  ROXO


Considere os making-off , COMO FICÇÃO.

A FELICIDADE NÃO É UM BEM QUE SE MEREÇA?!

Chove por aqui... aquela sensação do outono aos poucos se esvai, dando entrada ao inverno.  A sala está vazia, passeio entre as cadeiras, chão de tacos de madeira. Não há poeira, lembro de crianças correndo, e isso me traz muita alegria. Transmitir calor humano a alguém, aquece nossos corações.

Gikovate apoiava a mão no encosto da cadeira, enquanto olhava o ambiente, lembrava da palestra que administrara naquele lugar. Embora a sala já não fosse a mesma, guardava aqueles mesmos detalhes do passado. Os quadros permaneciam ali, muito bonitos, contavam a história do lugar. As cortinas de veludo  foram substituídas por outro estilo mais suave.

Relembrar passagens desta história, desta vida. Os pingos de chuva começaram vagarosamente e agora formam pequenas lagoas  nos declives da grama. A concretude da natureza se faz, a transformação é lenta e gradual. Fico pensando no esvaziamento da sensibilidade, cada quadro, os contornos das montanhas, por exemplo, a luz do sol impactando nas fissuras, nas rochas, revelando o extraordinário fenômeno ótico.

E esse mesmo fenômeno da transformação, a mesma alquimia se revela na natureza humana quanto a pessoa amada. Esse trabalho de transformação dos elementos se mostrava na escuta, na maneira de tocar, na maneira de olhar, naqueles infinitos momentos de aprrensão do perfil amado...  

O PERFIL AMADO.  O amado não é alienado no amor de quem ama, se amado for.

À saúde do equívoco, GIKOVATE resolvera visitar esta livraria, e lá estava Helena. Sentada a escrivaninha antiga, com uma variedade de livros ao redor.  Sempre belíssima Helena, sua imagem jamais se apagara de sua lembrança. "Não costumo anunciar a minha chegada, Helena...", disse ele. Ela virou-se repentinamente, ainda sentada, deu um suspiro longo e disse: "Mas eis que surge este homem, vamos lá, tenho aqui aquela  raridade pra você, doutor...".
De pé, com os braços cruzados no peito, olhou para um lado depois para o outro, estava eufórico e sentia-se vitorioso: "... então Helena, você conseguiu?!" .
Os dois sorriram e conversaram sobre este assunto, o que vale uma obra de arte... Uma autêntica obra de arte...










segunda-feira, 18 de junho de 2012

Cave Of Forgotten Dreams

Dark Glow of the Mountains

Gesualdo-Death-for-Five-Voices-(Herzog 1995).avi

TÉCNICOS EM INFORMÁTICA, DEPOIS DA APRESENTAÇÃO DO PROJETO FINAL... - CEP




DEPOIS da apresentação do Projeto de TI, para obtenção do curso Técnico.... Esses meninos, são os magos da INFORMÁTICA...

A COMPOSIÇÃO DO BEIJO (10) - DENISE FRANÇA

Curitiba, 18 de junho de 2012.

"ENSAIO DE LUZES" (FICÇÃO): TEXTO DEDICADO AO DOUTOR FLÁVIO GIKOVATE

INSPIRAÇÃO DÉCIMA:  LARANJA


Doutor GIKOVATE, os signos e os códigos:  O BEIJO NA BOCA, significa que mudamos de discurso.  Uma boa leitura: "FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO" (Roland Barthes).

A ficção, produção, elaboração do fantasma, é secundária. HELVÍDIO DE CASTRO VELLOSO NETTO, um grande amigo, minha homenagem aqui a você também. A SUA OBRA TODA, é respeito como você mesmo dizia: caridade Freudiana. Você é um dos únicos, senão único, na leitura da obra de Lacan. Meu maior respeito e consideração ao seu trabalho, amigo. AS PULSÕES, LUTO E MELANCOLIA... 



domingo, 17 de junho de 2012

HAHAHAHAHAHAHAHA - DENISE FRANÇA


A COMPOSIÇÃO DO BEIJO (08) - DENISE FRANÇA

Curitiba, 17 de junho de 2012.

"ENSAIO DE LUZES" (FICÇÃO): TEXTO DEDICADO AO POETA E PSICANALISTA, FLÁVIO GIKOVATE.

(aonde estávamos?!  hahahahaha. acabei de chegar de um encontro com um amigo poeta e escritor, MARTINS DAGOSTIM.... hahahahaha.....):))

INSPIRAÇÃO OITAVA: OLIVA

Tá rindo do que?! Perguntei a Gikovate do que estava sorrindo. Não era um sorriso, era uma gargalhada mesmo... "mas que cara-de-pau....". O doutor pensara isso....
Interrompi o riso dele com o que disse a seguir:  Ora bolas, porque isso já foi, já aconteceu. Assim sendo, a insistência prevalece. A contemporaneidade  não é mais a contemporaneidade, fazem 5 minutos.
"Este ano quero paz em meu coração...", convergi desde o início deste ano com senhores de mais de 68 anos, bati de frente com este fato. FATO. A sexualidade na terceira idade, feito a pedra de Drummond... E a pedra virou a pedra monolítica, apocalíptica, champo leônica...

Eu converso com os homens, e eles gostam. Porque eu os escuto.

Cheguei ao Colégio Freudiano de Curitiba (ano de 1998),  o lugar onde se encontrariam psicanalistas... E alguém me procurou na cozinha, o lugar onde se encontrariam cozinheiras... hahahaha. Eu ofereci um café a mãe de uma das crianças, paciente da Rita Marochi. Tomando o café, comigo, ela disse: "Eu acho que a Rita está louca..." (hahahahahaha< só o meu pensamento sorriu, não fiz alarde disto...). E por que? Perguntei eu aquela mãe. E ela disse: "Penso que estou falando sozinha...." .

O telefone na secretaria toca, a Rita Marochi sai correndo, de muletas, para atendê-lo...
(Eu não estou competindo com as demais.... fiquei parada, observando este esforço gratuito, só isso.)

RITA MAROCHI: Aquela que faz a transcrição dos seminários do doutor Velloso, psicanalista. Aquela que   é o braço direito dele, e AQUELA que traz do Paraguai as várias garrafinhas de uísque para ele beber. (O Velloso  abriu uma malinha e disse: está aqui oh, foi a Rita que me deu....).

Mas eu já era amiga do Velloso, e sabia que ele  não parava mais em pé. E eu o ajuntava  e o suspendia do chão, e o conduzia até o carro...  Célia, mulher do Velloso, chegava ao consultório à noite, e me dizia: "O que você está fazendo aqui ainda, Denise?!" E eu lhe respondia: "Ele é meu amigo. Quando ele sair eu saio, e se ele ficar, eu fico."
Quanto ao problema de vocês dois, resolvam em casa.

SE O AMOR ACABAR. Outra a realidade invejada. A vida comum com o teor de exaustão, de frustração,   de manipulação dos sujeitos.
Eu escuto: "Penso que estou falando sozinha."  Eu ESCUTO. Palavras ditas e prontas para serem tingidas de impulso. Não são palavras, são a VIDA destas pessoas. Qualquer impulso a mais ou a menos, atropelo.
Se no ato da fala não houvesse esse SENTIDO, possivelmente não haveriam escansões, risos, pausa, silêncio, o corpo mesmo daquele que fala. DIREÇÃO E PROCURA.

O ACABAMENTO DA ESCUTA. O que você tem a me dizer sobre isto?!  

No meio do caminho, havia uma pedra. Havia uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho  havia uma pedra, havia uma pedra no meio do caminho. 















A COMPOSIÇÃO DO BEIJO (07) - DENISE FRANÇA

Curitiba, 17 de junho de 2012.

"ENSAIO DE LUZES" (FICÇÃO): TEXTO DEDICADO AO DOUTOR FLÁVIO GIKOVATE

INSPIRAÇÃO SÉTIMA: GELO

 Nunca parei de amá-lo, porque não posso. Eu não paro de amar. Sem amparo nenhum sempre sigo em frente, deixando a estrada livre de pedágios ou propriedades. Nada é meu. E eu não sou aquilo que chega, nem o que repasso...
Não é possível  criar a estrada sem o chão, e a poeira, o suor, a sede, a beirada  da estrada. Por que abriria aqui a figura de tudo o que já foi dito, observado e respondido por GIKOVATE?!
Simplesmente porque existe neste vínculo da produção do  sentido, o  inusitado, o repente, esse trânsito que converge na escuta daquele que faz a leitura, daquele que ouve. Através dele, nesta travessia, eu também me revelo enquanto sujeito, e faço um acordo com este sentido que já está delimitado anteriormente.

A relação entre todos os signos, é oferecida. Desde o começo desta escrita, literatura, existe esta oferta preciosa do equívoco, porque também eu passei pela análise, não a do psicanalista, mas a minha análise. Já não são duas, senão uma única. Transcorro, posso concorrer para este lugar, mas resolvo transcorrer.

O gabarito das normas, e regras, se faz dentro de uma sociedade. As coisas são assim...  Funcionam assim... Imediatamente, prepara-se uma revolução, e as coisas param de funcionar, as máquinas são desligadas, e chega-se ao pânico declarado. O desespero do imediato equívoco elaborado pelo outro.
E é com isso que o humano precisa se haver. Precisa antecipar e descobrir suas próprias fórmulas.

Todas as vezes que escutei GIKOVATE,  ele dizia estas mesmas coisas, insistentemente, e repetidamente, em todos os cafés...  INSISTÊNCIA,  persistência, rigidez conceitual, meus queridos.... E as perguntas estavam ali, exatamente as mesmas, ou a claudicação das mesmas, e ele ali respondendo...

O BOTÃO DA FALA, aquele que floresce e é divulgado em cadeia nacional, em rádio, o botão da fala também se desliga. Desligamos o rádio, ou desligamos a internet, ou desligamos o supra-sumo de nós mesmos, desligamos.

Antenada, ligada, esta é a concorrência do nosso veto. Ou VETOR.

Qual é o meu motivo para te amar, assim, amado?! Bem-amado. A felicidade não é um bem que se mereça?!





A COMPOSIÇÃO DO BEIJO (06) - DENISE FRANÇA

Curitiba, 16 de junho de 2012.

"ENSAIO DE LUZES" (FICÇÃO): DEDICADO AO DOUTOR FLÁVIO GIKOVATE

INSPIRAÇÃO SEXTA: MARROM

Lembro-me do ponche e do frio. O significado daquela peça de cristal onde se escondia a sobriedade das horas, prestes a desmaiar com a madrugada. A adolescência das nossas vidas reclama aquela falta de sobriedade e nos entrega a letargia vinda do ponche. 
A substância do artificial, os cubos de açúcar ajudavam na leveza... 
A valsa começava, as meninas escolhiam seus rapazes, e todos eram um único par de  brincos na sociedade.
Pequenos homens de abotoaduras. A sensação da delicadeza do cristal, e o peso maciço do chumbo.

Gikovate dançava muito bem. Fôra até a varanda comprida, ao redor de uma mesa, tocava a transparência líquida, e os pontos nevrálgicos da vida: o que causa  a dor e o prazer.
A intensidade do estímulo, tudo não pode ser dito.

TUDO NÃO PODE SER DITO.

A mansidão com que ele chegou, atropelou todas as minhas horas. Gikovate sabia do amor, suas aparências, a formatação, a destruição dele, e os seus resíduos. A intuição deste outro espaço se abre aos poucos, a compreensão dos signos deste espaço pertence ao espírito, como quando se acomoda uma luva ás mãos.
O tempo passa. Não, o tempo e sua trajetória não definem a vida. A vida é outra coisa, e Gikovate em sua insistência lógica, catou todos os filamentos musculares deste gesto em direção ao outro.
A medicina não era o suficiente, assim como não é suficiente buscar o ângulo aos geômetras.

Eu beijei no beijo dele, o que não era compreensível e nem aceitável a outros homens. 

sábado, 16 de junho de 2012

A COMPOSIÇÃO DO BEIJO (05) - DENISE FRANÇA

Curitiba, 16 de junho de 2012.

"ENSAIO DE LUZES" (FICÇÃO): TEXTO DEDICADO AO DOUTOR FLAVIO GIKOVATE

INSPIRAÇÃO QUINTA: CINZA

Mesmo a cor é fruto de nossa inspiração. A outra pessoa em nossas vidas, colore ou nos deixa desabrigados conforme a posição e a forma com que nos colocamos. Gikovate, estava ali, deitado, dormindo, e eu estava a olha-lo, e pensei, a quem eu via. Mudei minha posição, dei uma volta ao redor da cama, e novamente olhei aquele homem dormindo, a quem eu via.
O sentimento suporta muitos seres, suporta convicções que nos são transmitidas, mas não suporta o ingrediente da manipulação, e nem da desonestidade. Portanto, olhei uma terceira vez para ele, e quantas vezes pudesse olha-lo, a manifestação deste sentimento era alheia a minha vontade, era uma manifestação, como o são as manifestações daquilo que se dá autenticamente, sem o esforço e a prepotência de criar onde simplesmente não existe. A outra pessoa existe.
Esta liberdade de estar e ser, de ir e vir, precisa da renúncia desta imagem ilusória e refratável de nós mesmos, essa imagem de identificação paliativa que nos conduz apenas a um estágio e a uma localidade do corpo do vivente, não se adapta nem à diversidade, e muito menos à veracidade.

A beleza de capturar a expressão do amado, os traços, o gesto, a tonalidade da voz, a brandura das palavras que brotam e se dirigem a nossa pessoa, o reconhecimento.
Reconhecimento não é uma palavra vã, mas elaborada através de décadas, precisa de vida experimentada, vivida.
Observava ali Gikovate e capturava justamente isto: ele era só. Sózinho. Gikovate era capaz e admirável no enfrentamento da humanidade porque conseguira operar esta solidão maior, a de todos nós. E por isso mesmo, capaz no AMOR.
Sua presença era efetiva em razão disso, não importando estar ou não-estar. O animal humano camufla a possibilidade de ser reconhecido diante de si mesmo, e diante dos demais. E isto faz com que a sua aparência suponha que ele tenha alguma consistência , e aí ele se faz real lá onde não se encontra.

Não me despedi dele, não o acordei para isso, porque não estava indo embora.




sexta-feira, 15 de junho de 2012

A COMPOSIÇÃO DO BEIJO (04) - DENISE FRANÇA

Curitiba, 15 de junho de 2012.

"ENSAIO DE LUZES" (FICÇÃO): TEXTO DEDICADO AO DOUTOR FLAVIO GIKOVATE

INSPIRAÇÃO QUARTA: AMARELO OURO

O outono usufruía as folhas de agora, aquelas que relia... O outono despe as árvores de tudo. Como se outrora fosse um engano, as folhas caem. Do mesmo jeito, esquecemos de nós, e nos entregamos a uma imagem alienada e impossível... As folhas antes de cair, de verdes passam a outra escansão surpreendente, e tornam-se avermelhadas, e posteriormente amarelas,depositadas no chão...
Olhei a manta que estava sobre o sofá, senti vontade de calor, deitei, com a cabeça recostada numa almofada com motivos orientais, descansei, fechei os olhos, e escutei o silêncio chegar... Adormeci, e a sala se tornou perdida...
GIKOVATE sabia que as horas foram muitas, talvez não estivesse mais ali. Isso era possível...mas não era provável, pois o tempo desta mulher era aquele exatamente igual ao dele.
Ele já estava na sala, as luzes apagadas, apenas as luzes de fora formavam um tênue movimento acerca deste lugar, se insinuavam, ora ele me via deitada, ora eu deixava de ser visível...
Como um pressentimento, Gikovate foi minorando seus passos, abaixou-se e ficou a examinar esta presença, minha respiração, meu descanso, meus sonhos. Acordei mansamente, com o gosto dos seus lábios, e sua mão que contornava minha cintura.
Porque colocam tanta resistência ao amor?! Eu convidei ele a se deitar ali, ao meu lado por alguns momentos. Ele descalçou o sapato, se estreitou comigo, me abraçou e ficou quieto. Nós dois estávamos, sem saber, cuidando de um bem maior, velando o sonho de nossas vidas, não a ilusão, mas a raridade de um encontro.
Segurava minhas mãos, entrelaçadas as suas, e eu sentia o calor do seu corpo, através da roupa, sentia o coração dele, e sempre nestas horas, não sei porquê, beijar suas pálpebras, seus olhos. Escutei as batidas do coração dele, e senti este mesmo impulso em mim, e senti vontade de me entregar a ele.
Ficamos os dois por muito tempo ainda abraçados um ao outro. Incrivelmente conectados, nenhuma pressa  era necessária, e nenhum artifício também... Outro espaço se abriu, os signos do corpo, os traços do prazer,    a fissura do desejo: eu te quero.
Havia nele outra coisa: a quietude. Administrava meu corpo, e sua quietude me conduzia a uma margem sem reparos, o conhecimento dele, as sensações dele, onde ele formava um outro corpo de palavras, o segredo e o afago de si mesmo dados a uma mulher, sem remediar o homem que ali transparecia, alegre, menino, feliz.



A COMPOSIÇÃO DO BEIJO (03) - DENISE FRANÇA

Curitiba, 15 de junho de 2012.

"ENSAIO DE LUZES" (FICÇÃO): DEDICADO AO DOUTOR FLAVIO GIKOVATE.

INSPIRAÇÃO TERCEIRA: CARMIM


GIKOVATE fechou a porta, eu me sentei em frente aquela pequena lareira, acabava de me conformar ao frio de a pouco... Olhei a estante de livros, me levantei, aproveitei o momento em que ele fôra até a cozinha, para retirar um dos seus livros, e abri-lo. Descalçei os sapatos, e andava através daquele espaço, lendo algumas passagens ao acaso.
GIKOVATE retornou, trazendo nas mãos uma taça de vinho, estendeu a taça em minha direção, e depositou-a em cima da mesinha, deixando-a ali a meu critério. Neste momento, não sei porquê, parecia que ele se detivera em outros pensamentos além daquele espaço, como se repentinamente lembrasse de um compromisso ou a resolução de algum problema.
Eu me sentara numa poltrona, e ele sentou-se a minha frente, olhou-me, reparou que estava folheando e lendo seu próprio livro, sorriu e pediu que eu continuasse... Sorriu, se deteve alguns momentos na minha expressão, e interviu: "Fique aqui, por favor, lhe peço. Sairei e daqui a algum tempo eu retorno, problemas de maior urgência... minha querida...".
Eu fiz que sim com a cabeça, ele se aproximou, me deu um beijo na testa, como era peculiar a sua pessoa, e saiu.
Tanto a sua presença, quanto a sua ausência, sempre me deixaram à vontade para estar e ser... Seus amigos e amigas, os mais íntimos compartilhavam os livros, a música, um pouco de tudo. Havia comigo um outro particular, mais declarado e sensível.
O lugar de alguém na vida de alguém, a lembrança desta passagem, a eficiência e a delicadeza do significado relativo a nossa presença neste endereço paralelo, o outro.
GIKOVATE esteve em mim desde sempre, insuspeitadamente algumas vezes, em outras, declaradamente. Não havia nada em mim que demandasse a necessidade dele, nem que sua presença fosse conveniente a um propósito. Eu confiava na leitura que fizera a partir dele, na escuta de suas palavras, no trânsito fecundo da emoção, sensação, sentimento, intuição, coerência...
Não me apetecia querer algo, procurar por algo, simplesmente representar, através deste meu lugar e espaço, a certeza de que a existência dele produzira muitas coisas boas, e a honestidade de seu caráter eram signos de tranquilidade e paz.



quinta-feira, 14 de junho de 2012

A COMPOSIÇÃO DO BEIJO (02) - DENISE FRANÇA

Curitiba, 14 de junho de 2012.

"ENSAIO DE LUZES": TEXTO DEDICADO AO DOUTOR FLÁVIO GIKOVATE.

SEGUNDA INSPIRAÇÃO: PÚRPURA

Na mesa onde jantávamos, não haviam rosas, arranjo de espécies. Havia outrossim, a palha em artesanato, o trançado. Reconhecemos que a capacidade humana em usar as mãos para criar, transforma a percepção do mundo em espaços organizados, segundo uma lógica própria, totalmente compreensível.
Gikovate pagou a conta,caminhamos até a porta, ao abri-la  ele inseriu  seu paletó em minhas costas, estava frio lá fora.... Neste momento, ele meditou sobre o abandono nas ruas, o humano perdido.
Resolvemos andar juntos. As luzes e a noite nos convidavam a esta caminhada. Não haviam e nem queríamos falar sobre muitas coisas, simplesmente apreciar aquilo que nos era dado e filtrado através deste recurso essencial, a presença de um ao lado do outro.
A presença de um ao lado do outro não nos alienava da solidão, e do real. Antes, era uma partilha em comum, o de ser e estar a sós. Chegamos até um viaduto, paramos, resolvemos olhar os carros, o tráfego de tudo, o vento se insinuava em meus cabelos, e ele delicadamente, afastava dos  meus olhos o excesso, enquanto olhava minha testa, e perguntava se estava bem assim...
Encostei minha cabeça em seu ombro, estava muito bem assim, o prazer de sua companhia, GIKOVATE. Mas eu não disse isso a ele, porque ele pressentia o gesto seguinte, como pressentia que poderíamos rir de qualquer coisa, ou então, chorar sobretudo.
Calçar a vida de significado, remediar o provisório, sentir o prazer de uma vitória. São as flores do bem, e a nobreza do espírito, sem o conformismo, ou a hipocrisia.
Escutava tudo isso vindo dele, no silêncio são paulino. Aquilo que reconhecíamos de um modo concreto, movimentava a emoção que agora atingia em cheio a cidade gratuita dentro de nós mesmos.




A COMPOSIÇÃO DO BEIJO (01) - DENISE FRANÇA

Curitiba, 14 de junho de 2012.

'ENSAIO DE LUZES": TEXTO DEDICADO AO DOUTOR FLÁVIO GIKOVATE.

PRIMEIRA INSPIRAÇÃO: AZUL

Estou lendo os textos do Doutor Flavio Gikovate há algum tempo, e percebo a semelhança do pensamento  e observações a respeito da vida, parecidos com o que eu percebo e vejo... Raridade, e autenticidade, coerência, sensatez, capacidade de visualizar as coisas que virão a partir de ontem, hoje, possíveis e impossíveis. Assim nasceu este ENSAIO DE LUZES, de um beijo numa séria colocação humana, o sujeito em sua vida, questão que se admite, elaboração conceitual, significado, nada fortuito, ou jogado sem este chão da escuta, leitura, partilha. ENSAIO DE LUZES, é poesia, porque precisa da composição, é técnica, é sentido. ENSAIO DE LUZES, TEM DEDICATÓRIA, É A ELE MESMO: FLAVIO GIKOVATE. Qualquer semelhança com fatos ou outras pessoas, é mera coincidência...´E acima de tudo, suportabilidade para escutar, ler e reler, capturar o sujeito e sua vida. E este EU que faz a narração, pode ao contrário, suportar este não sentido e imprevisível, não se trata do meu EU, este que se fez. 
Produção é isto. Não conheço outra produção, e é com o MAIOR RESPEITO, que garanto e autentifico e certifico tudo isto que aqui escrevo, em sua homenagem.  Porque eu acredito que as pessoas devam ser homenageadas não pela VAIDADE e status que representam,  mas pela ruptura desta maleabilidade ordinária da mesmice, para uma possibilidade de outra coisa. 

A coragem não lhe falta, assim como a TERNURA. 

 "ENSAIO DE LUZES" é uma ficção, aperetivo daqueles de entrada, em companhia de alguém com quem se espera estreitar os laços. Mais do que isso, é um jantar a luz de velas, em companhia do Gikovate. Uma forma de AGRADECIMENTO a uma pessoa que eu não conheço, faço questão de frisar isso: NÃO CONHEÇO FLÁVIO GIKOVATE, NENHUMA INTIMIDADE COM ELE, SEQUER O VI PESSOALMENTE. O friso está feito, e mesmo diante DISTO, o carinho e admiração pela SUA OBRA,  que me traz bem estar, por tudo aquilo que acarreta. 

Começa assim:

"A mesa que ele escolheu é uma mesa de canto, um pequeno restaurante, quase um café. O Doutor Flavio Gikovate está sentado, a minha espera, não está ansioso por minha chegada, simplesmente me aguarda e olha através da janela. Hoje ele resolveu chegar bem antes do previsto, porque lhe deu vontade de esperar mais tempo, e portanto, utilizar estes instantes para contemplar seus próprios pensamentos. Um homem maduro, todos o conhecem, carismático, antenado, concorre com todas as verdades, navega nos mares e horizontes, atravessou tempestades...

A tarde começa a cair, são 19:00hs, Gikovate sentado à mesa, pede ao garçon água. Água com gás, sem gelo. Não pensa em mim mais do que a uma amiga, absorve o ambiente, a luz, o silêncio, um casal sentado em outra mesa mais distante. Recupera novamente sua imagem na janela, atravessa essa imagem e vê a luz do luar. Linda noite. Gikovate não me acha uma mulher linda, exuberante, apenas recupera o sentimento e o significado de um encontro, neste momento.

Lá fora ele observa pessoas cruzando as ruas, o imediato, e o material. Não lhe causa mal-estar admitir o mundo e seus ruídos, constata o sujeito humano em cada detalhe, no entalhe da voz, a expressão do rosto, a emoção de querer, de não-saber, a identidade de um confesso, o layout da vida...

Quando entrei, logo o vi, ali naquele canto, e fiquei sorrindo ao reconhecê-lo. E sorrindo eu fui ao seu encontro, e o vi olhando o flagrante das horas, através de  tudo.

Ele então se voltou, levantou-se, segurou minha mão, disse oi. Oi, Gikovate. Tenha a bondade, com estas palavras e a mão voltando-se para o lugar a sua frente, ele disse: sente-se menina. 

Eu me sentei, e ficamos os dois, um olhando os olhos do outro, por alguns momentos. Não foram efêmeros instantes, foram declaradamente os melhores, de muitos. Olhei seus cabelos, olhei a circunvizinhança de algumas mechas, uma lembrança remota me veio a mente, um romano... E eu então sorri novamente por causa disto. Ele retribuiu meu sorriso como um afago, me perguntou qual o motivo deste sorriso. Eu disse: os romanos, e os nós-borromeus. E ele retrucou: nós, somos nós. 

A intimidade, a nossa intimidade se comprazia em revelar que eu estava em companhia de um homem muito conhecido, absolutamente conhecido, e este era o nosso primeiro momento, o de olhar e ver. Enquanto começávamos a conversar, ele me olhava, e colocava as mãos depositadas na mesa, uma sobre a outra, e eu conversava com ele, sorrindo, os cotovelos depositados em cima da mesa, descansando o queixo sobre as mãos.... 

Navegava no uniforme, e me enamorava de sua gola cacharrel preta, de suas mãos sensíveis e rápidas de escritor, do seu punho, aguçado e preciso. 

E ele falava sobre tudo, pairava na névoa sobre lagos difusos, e eu aos poucos adormecia naquela figura humana de um homem espontâneo, tranquilo, versátil, feliz...

O vinho, excelente, vinho tinto seco. O cálice socorria um momento de alerta, e um momento de emoção, jamais vaidade... E ele sorvia o gosto do vinho, enquanto eu olhava seus lábios, e pensava no beijo abstrato do quadro recém terminado de um pintor... Estilo.

Gikovate de repente: movimentou sua mão ao redor das minhas, e segurou minha mão esquerda, virou a palma para cima e tocou com sua mão o centro da minha, assim fez e olhou meus olhos, para entender e sentir minha resposta. 

Eu não recuei, porque sabia que era assim, e assim seria. Mais além do que eu via no olhar dele, a realidade de um amanhecer entre e para nós dois. Gikovate se comprometia espontaneamente com aquele encontro, sem reservas, sem falsas promessas, sem nenhum tipo de artifício, senão o proveito de um encontro vivido.

Conversávamos, ele falava, eu escutava atentamente. Ora seu olhar se movimentava no alinhamento do meu rosto, outras vezes do meu corpo, e inúmeras vezes, de tudo um pouco, formando uma composição do meu perfil,  uma composição acerca dos desafios.



 




terça-feira, 5 de junho de 2012

DESENHO ARTÍSTICO - DENISE FRANÇA

ATELIER DE ARTE DO MUSEU ALFREDO ANDERSEN:  ANO 1981.


DESENHO: RETRATO DE MINHA MÃE, E DO PROFESSOR DE DESENHO, THOMÁS.



DESENHO ARTÍSTICO - DENISE FRANÇA

ATELIER DE ARTE DO MUSEU ALFREDO ANDERSEN.


DESENHO FEITO NAS ESCADAS DA BIBLIOTECA DO CEFET, POR VOLTA DE.... 1981. EU ESTAVA SENTADA, DESENHANDO UM TRABALHADOR...



O PONTO NEVRÁLGICO E O PONTO ESTRATÉGICO DA CRIANÇA - DENISE FRANÇA

Curitiba, 05 de junho de 2012.

O PONTO NEVRÁLGICO E O PONTO ESTRATÉGICO DA DOR

Retomando o viés do enredo, onde fui, lá eu era. Onde o id era, o eu há de vir.... coisas de psicanálise.

CONTINUO NA DESCOBERTA,  novos conceitos....

A lembrança da minha própria vida me enriquece de significados novos... E,hoje de madrugada, ao acordar, me lembrei dos guarda-roupas aqui de casa, na minha infância. Eram pontos estratégicos. Tudo o que era proibido e interessante para uma criança se encontrava em cima do guarda-roupa. Os guarda-roupas de imbuia maciça,  pesados....  Abria uma gaveta, e subia em cima, como uma escadinha. E lá começava a verificar tudo o que era novidade... Depois, eu e meu  irmão pulávamos lá de cima na cama de mola...

No guarda-roupa do meu pai, guarda-civil, tinha a grande mala com o material de polícia... No guarda-roupa da minha irmã, 8 anos mais velha que eu, haviam muitas revistinhas do pato donald, mikei,  ela colecionava com muito cuidado.... hahahahaha. 

A DITADURA. O meu pai era um cara inteligente, com essa "bagagem" toda advinda da ACADEMIA INTERNACIONAL DE POLÍCIA. Mas em relação a ele e a minha mãe, sentia medo e angústia. Homem autoritário, minha mãe também, e nervosa.... Não havia diálogo, não me lembro de ter conversado com o meu pai, a obediência em primeiro lugar. Tinha um agravante ainda  maior,  eu era uma menina, e menina não tem vez. Meu pai praticamente decidia tudo, quando cheguei na adolescência, pobre de mim. Não podia namorar, ele não deixava e dizia: antes de casar, tem que fazer a faculdade. E eu passei a adolescência toda, morrendo de vergonha das minhas amigas que faziam festinhas, e dançavam, e se relacionavam com os meninos, e eu não podia ir, porque meu pai não deixava. Cinema, nem pensar... E era assim, não tem conversa, e pronto. Chegava para minha mãe e perguntava se podia, minha mãe dizia: não tem conversa, e pronto. Por que?! "PORQUE EU NÃO QUERO!". E pronto.

A Escola Técnica, CEFET, foi um grande referencial para mim, um dos mais marcantes e decisivos. Conheci professores, escritores, gente do teatro. Na verdade, os desenhos que fazia nessa época não tinha nenhum teor de RETRATO-FALADO como o meu pai queria que fosse. Eu era uma desenhista que seguia os modelos das Belas Artes, as aulas do FERNANDO BINI me impressionavam, e eu queria mais e mais desenhar e me especializar.... Eu desenhava nos bares, conversando com meu grande amigo Gilberto, e professores, desenhava nas praças, desenhava nas ruas.... E isso atormentava muito o meu pai, e minha mãe. EU ERA UM BICHO ESTRANHO. Quando começei a me decidir neste sentido, meu pai disse: ISSO NÃO VAI DAR DINHEIRO NENHUM... E quanto mais eu tinha talento, e mais escolhia minha direção, mais ouvia do meu pai, isso, não dá dinheiro. BICHO ESTRANHO, DIFERENTE....

FALANDO DE GUARDA-ROUPA, isso foi se tornando um fardo bem pesado, escutar todos os dias os dois falando a mesma coisa, e querendo outro caminho para mim. A força sempre vinha dos amigos, e professores, que reconheciam o meu talento, para desenhar, escrever, etc. Nossa, como eu agradeço esses amigos, que sempre me colocavam pra cima, não deixavam a peteca cair.

EU NASCI EM 1965, DITADURA MILITAR. Meu pai trabalhava na SEGURANÇA PÚBLICA,  e falava sempre no DOPS, os  comunistas.... Um dia, não sei exatamente quando, descobri que minha irmã era uma comunista.....hahahahahaha....... Minha irmã entrou na FACULDADE DE ARQUITETURA, e começou a namorar o Cláudio. O Cláudio era uma figura, ele simplesmente não abria a boca. Eu só me lembro da manteiga que minha irmã comprava, porque quando ele tomava café aqui em casa, tinha que ter a manteiga... coisa rara. E, todas as vezes que minha irmã saía de casa, deixava o quarto trancado. 

Um dia, eu e meu amigo, Gilberto, entramos no quarto com outra chave, e começamos a escutar o som de MPB e música clássica, os discos e a vitrola que só ela utilizava... E é claro, descobrimos muitos jornaizinhos da UNE, no quarto dela, e descobrimos o motivo do Cláudio ser tão calado na presença do meu pai....hahahahahaha.....

Eu e o Gilberto tomávamos o cuidado de não deixar qualquer identificação nos discos, cebolões, dedinhos e coisas do tipo.... Mas, ela acabava descobrindo e brigava comigo.... Eu não sabia quem era minha irmã, porque a diferença de idade entre nós duas era muito grande. Não tenho lembranças da minha irmã, na infância, só do meu irmão com o qual brincava. 

Minha irmã acabou a faculdade de arquitetura e foi embora de Curitiba, procurar emprego.... Hoje,  a Beti é uma grande e famosa arquiteta. Dei um codinome pra ela: BETI PAULISTA. ´Já é cidadã honorária de São Paulo.  A Beti só passa por Curitiba umas duas vezes por ano....

Mas enfim, agradeço a ela, os discos, a oportunidade de escutá-los, mesmo escondida, porque foram de grande valia pra mim. A música hoje é fundamental na minha existência e no meu bem-estar espiritual.

A DITADURA E A REPRESSÃO. As crianças tem os pontos nevrálgicos, de grande dor e sofrimento, e tem os ponto estratégicos. A gente tenta se safar, e lidar com a dor de alguma maneira. Eu, desde muito cedo, aprendi que o meu pai não era o meu pai. O meu pai era meu avô, e era meu avô que me transmitia segurança, paz e tranquilidade. Meu avô estava sempre presente, e me ensinou o ofício de carpintaria, e outras coisas mais.... Era um italiano de paz, amigo, compreensivo. Eu não sentia medo dele, gostava muito de ficar ao lado dele,e sinto muitas saudades deste velhinho. O LUGAR E A SUA FUNÇÃO: O lugar de pai ou mãe, nem sempre são preenchidos pelas figuras biológicas.... 

A NOÇÃO DE SI MESMO: em algum momento em nossa vida, na infância, ou pré-adolescência descobrimos isto, somos nós mesmos. É uma coisa engraçada, mas em algum momento, a criança tem a noção de si mesma. Eu lembro disto. Eu sabia que era uma menina, e desde pequena, meu pai cortava o meu cabelo muito curto, com franjinha. Eu estudava no Colégio de Freiras, e as meninas usavam cabelos compridos e saias. E minha mãe me mandava pro Colégio de cabelos curtos, franjinha torta, e de calças. Nas fotografias escolares, eu saía bem lá no cantinho. Era ali onde as freiras me colocavam... por causa da aparência de menino.

Eu não tinha problemas em estar assim, e nem tive problemas sexuais, porque sempre gostei da convivência com os meninos, e posteriormente com os homens, hahahahaha.... Aprendi sobre o universo masculino bem antes, e isso não me trazia constrangimento, nem aversão, muito pelo contrário, foi ótimo.... O que eu nunca gostei e continuo não gostando, são as conversas entre mulheres, a repetição e a mesmice, o universo feminino, dentro daquele parâmetro cultural, mãe, filhos, nunca me seduziram.... Não dava muito pra acreditar nessas conversas, porque sempre me transmitiram apenas uma sustentação necessária para o feminino, e não uma realidade verdadeira.

Os pilares pelos quais eu cresci, e minhas convicções, partiam de outros pontos: justiça, liberdade, amizade, paz, igualdade, e ultrapassar os limites.... Porque a minha condição, onde me colocavam, ou queriam colocar, exigia de mim que eu tivesse força para suportar e ultrapassar... Lembro de minhas amigas, amigos, sempre prezei muito a amizade, e sempre fui leal, sempre tive conversas verdadeiras com amigos e amigas, procurando a verdade, procurando a origem, procurando a descoberta, e resolução dos problemas.... Nunca fugi disso.

Eu não tinha necessidade de provar aos outros o que eu era. Porque eu sabia que era aquilo ali mesmo. O olhar do meu pai e de minha mãe sobre o que eu era, e fazia, me traziam tristeza, constrangimento, mas eu ia mais adiante, sem deixar de ser e apostar naquilo que acreditava. Sustentava a minha verdade, doesse o que doesse, custasse o que custasse. E garanto aos senhores, não custou pouco, custou muito caro.

Eu não tinha sonhos de casamento, mas tinha sonhos de amor, romance. Não tinha sonhos de me formar e conseguir um diploma, mas sonhos de saber e conhecimento. Sempre fui autodidata, procurava porque queria, e gostava de aprender. Aos mestres, tinha grande respeito, mas não os considerava os detentores de saber. No Cefet, eu namorei dois professores,  na idade de 18 anos, mais ou menos... Um escritor, e outro, psicólogo.  Eu era muito apaixonada pelo escritor, fiquei quatro anos vivendo uma grande paixão, a primeira de todas... E, só a pouco tempo atrás, fui saber que ele também era apaixonado por mim naquele tempo... Naquela época nós nos aproximamos um do outro, nos encantamos, mas eu imaginava que era só do meu lado. E, quando encontrei  ele novamente pela internet, pude saber tudo o que ele realmente sentia por mim naquela época... Puxa vida, como isso é legal, a paixão, o amor...

Eu podia me envolver com professores, mas não era um aluna que usava seduzir para conseguir algum benefício. Simplesmente eu falava a mesma linguagem que eles, e não me sentia inferiorizada, ou achava que eles eram superiores a  mim. Eu não via o saber como uma coisa acabada. Eu via o saber, o conhecimento, com bases na realidade diária, vivida de cada pessoa... 

Dos invejosos, que adquirem conhecimento para outra função, a do status ou a do dinheiro, destas pessoas eu escuto até hoje frases como essas:  "Você não se formou....", "Você não é psicóloga...", "Você nunca acabou o que estava fazendo....".  E, meu queridos, isso é uma abordagem sistemática na minha vida, esse tipo de comentário sempre existiu, e eu tive que me haver com ISSO.

NÃO TENHO QUE PROVAR A NINGUÉM O MEU CONHECIMENTO. O QUE EU FIZ, SEI QUE FIZ...  O DIPLOMA PARA MIM, NÃO SIGNIFICA NADA, EM RAZÃO DAS BASES QUE SUSTENTAM A MINHA VIDA, E A MINHA DIREÇÃO.... 

O contingente de pessoas que se formam, é enorme hoje em dia, advogados, médicos, etc. E, aquela visão que eu tinha aos 20 anos atrás, hoje se comprova nitidamente, o estudo não garante o CARÁTER a ninguém.... O CONHECIMENTO OBTIDO na escola, ou faculdade, não comprova o caráter de ninguém.... E a vida, a vida nos ensina muitas coisas....

A ESSAS PESSOAS QUE PENSAM DESTA FORMA SOBRE A MINHA PESSOA, EU NÃO DEVO ABSOLUTAMENTE NADA. Isto só faz provar a miséria delas, preconceito, e falta de capacidade para absorção do ser-humano  em suas infinitas possibilidades.