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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A LIBERDADE - DENISE FRANÇA

Curitiba, 29 de outubro de 2012.


COMENTÁRIO SOBRE O TEXTO DO DOUTOR GIKOVATE: A LIBERDADE DERIVA DE UMA COERÊNCIA ENTRE CONDUTAS.


Muito me anima a leitura do seu texto... ROMPENDO O CICLO. 

Assim também eu constato a série infinita de lamentações, a série infinita de porquês, a série infinita de trabalhos para se chegar a  outra série infinita.... 

O domínio sobre o próprio corpo, o domínio sobre os outros, o domínio sobre o domínio, o controle inabalável de tudo, e de todos, a morte da natureza.

A natureza humana precisa ser respeitada. A tristeza, a angústia, a ansiedade, o medo, a calma, a tranquilidade, a alegria, o prazer, tudo isso são as vozes da natureza humana. 

Quanto mais nos colocamos no mundo, convivendo e existindo, mais declarado está o absurdo, tanto quanto o irracional, tanto quanto o perdão, tanto quanto a oferta, a procura, o vazio de tudo, o encontro com a morte, a cegueira, o pontapé, o carinho, o amparo, e assim por diante. 

HUMANO: O BICHO HOMEM. Inventaram a esperança, inventaram a felicidade, inventaram... Inventaram inclusive o artifício da dor. Produzem o pânico, se descabelam, produzem a dor, sem o corte, além do corpo, a dor psíquica.... 

As idéias que o ser-humano fecunda, produzem o artificial, a bala-de-banana, o açúcar e o sal. 
A farmácia de possibilidades e novas sensações são produzidas, como a droga por exemplo: porque já havia a drogadição... 

LACAN  FALAVA SOBRE O SUICÍDIO E A ESPERANÇA... 

Freud em "Luto e Melancolia" (FREUD, 1917) de que o suicídio seria uma autoagressão dirigida a um objeto libidinal introjectado, ou seja, um desejo de morte dirigido a outra pessoa que se volta contra o próprio sujeito na forma de autopunição. Em torno deste conceito essencial, a literatura psicanalítica vem, desde então, aprofundando o estudo deste tema. Uma nova contribuição de valor capital no entendimento do suicídio foi feita novamente por Freud em "Além do princípio de prazer" (FREUD, 1920), com o conceito de pulsão de morte e sua íntima relação com a compulsão à repetição em suas diversas expressões clínicas, entre elas o próprio suicídio.


Lacan definiu ainda a pulsão de morte freudiana como "vontade de destruição, de criação a partir do nada, vontade de recomeçar com novos custos" (LACAN, 1988, p.259), articulando num mesmo plano vida e morte, como duas faces de uma moeda. É pela linguagem que o sujeito potencialmente suicida pode encontrar alternativas ao seu ato final, para expressar o seu desamparo. Assim, "a Psicanálise... oferece exatamente a morte, porém, simbólica, para que o sujeito possa viver a vida" (RODRIGUES, 1993, p.11), dando-lhe a chance de escolher entre ato ou diz-ato.
A série infinita que o homem produz nos revela o seguinte: a vida não está em curso...

Nós existimos neste mundo, e não podemos negar este fato. Não podemos escolher vir a esta vida, estamos aí. Não escolhemos nascer nesta ou naquela família, no Brasil, no Japão no Tibet, no centro da floresta Amazônica, ou num mundo bem distante, obscuro, nascemos onde nascemos.

E esta é a realidade de cada ser-humano. Essa condição primeira, que  nos coloca situados em qualquer parte do mundo, deveria, por ser assim nos desmantelar da posição egocêntrica de que somo, sabemos e temos razão sobre tudo o que acontece no mundo.

Essa condição primeira já nos tira deste lugar de prepotência e de pretensão de saber, acerca de tudo aquilo que acontece longe dos nossos olhos.

Podemos fazer uma "idéia" da realidade alheia, podemos estudar a vida de outros povos e culturas, mais ainda assim, se não vivemos o que a outra pessoa vive, não conseguimos substanciar e orientar os nossos sentidos acerca daquela realidade.

Não conseguimos substanciar e orientar os nossos sentidos... Desde crianças, as coisas se dão desta forma, existimos e temos um corpo de sensações, emoções, sentimentos, pensamentos. Interiorizamos tudo aquilo que vêm de fora, de encontro a esse corpo. É claro, quando a realidade é muito cruel, muitas coisas acontecem com esse corpo de sensações, etc...  Muitos são "os destinos das pulsões" como deixa bem claro o doutor Freud.

Esse "destino" nos propicia um "formato", peculiaridade, que determina nossa personalidade. Mas, mesmo assim, nada está determinado, ou acabado. É preciso que consigamos algo mais além disso, "nos ver-vendo", sairmos deste per-curso, realizando um "corte" neste funcionamento, para dar possibilidade a outra coisa.

Transformar a realidade em que vivemos, sem negá-la, rechaçá-la. Ir de encontro a outras realidades, outros modos de existir, aproximar as diferenças, convergir.

Isso é possível, é o que pode ser feito.

Qualquer pessoa que tenha se destacado no horizonte da ciência, das artes, ou seja lá o que for, partiu de algum lugar, ou seja, se predispôs aquilo, teve vontade, passou por crises, enfim, foi em busca. Não é um ser especial, nascido de uma proveta especular, mas se determinou a procurar e ir em frente, em busca de.

Existem pessoas que se destacam na arte, o talento para isso ou aquilo. Mas nada impede que uma pessoa que a princípio não tenha talento para tal coisa, aprenda e desenvolva um modo de ver e captar a realidade que anteriormente não existia.

A angústia humana pode produzir muitas coisas..  A transformação de toda e qualquer força vital caracteriza o ser-humano, e está aí, somos ISSO.



sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A CRUELDADE HUMANA (03) - DENISE FRANÇA

Curitiba, 26 de outubro de 2012.

É desagradável falar sobre o mal. O MAL. O MAL-ESTAR-NA-CIVILIZAÇÃO. Não é apenas uma indisposição, está aí manifesto.

Desde pequenina, eu me lembro que pensava e me entristecia muito. Eu não sabia porquê apanhava de minha mãe, era dolorido. Não sabia porquê no colégio de freiras riam de mim, que usava calça de menino e cabelos curtos... Era assim que me mandavam pro colégio... Eu pensava desde pequenina sobre a injustiça, minha e de outras pessoas....
A minha amizade sempre foi verdadeira... A outra pessoa me preocupava e eu a respeitava...

Uma cena muito cruel me marcou a lembrança:  minha mãe pegou os filhotinhos da cachorra e matou todos eles, na minha frente, batendo-os contra a parede. Acho que ela hoje não se lembra disso, mas eu me lembro desta cena....

Outra cena que ficou em minha lembrança, um cabrito. Um filhote de cabrito foi criado no quintal de casa, como um cachorro, e cresceu... Eu peguei amor no animalzinho... Mas, ele fôra preparado para a ceia de Natal. Meu avô pegou o cabrito, e o conduziu até o porão de casa, amarrou-o de cabeça para baixo, e pegou o machado... E deu um talho no pescoço do cabrito. Eu vi o cabrito se debatendo antes de morrer, os berros, e todo aquele sangue... E depois a satisfação das pessoas comendo o cabrito no Natal.

Chorei desesperadamente, com essa forma de trucidar o animal...

Possivelmente fariam a mesma coisa comigo...

Toda vez que me machucava procurava esconder o ferimento, ou me esconder... Porque era pior mostra-lo, levava uma bronca ou até apanhava...  Lembro de uma febre esquisita que tinha, de vez em quando... parece que era a garganta....  Ficava meio tonta, amortecida...

Ficar doente era um problema porque nossa família era pobre.... Então eu suportava até onde podia, a dor que sentia... ou me curava sozinha...

Como era muito magrinha, quando criança, tinha problema nos joelhos, torcia... E minha mãe fazia um emplasto de mentruz com álcool.  Eu me sentia heroína correndo com aquelas faixas amarradas no joelho...

A crueldade humana me vinha assim quando pequena: eu não conseguia entender.... Me dava um bolo na cabeça, queria compreender porque alguém me machucava sem eu ter feito nada para isso....

Não me lembro de ter feito algum tipo de mal a alguém... Lembro-me que eu e meu irmão brigávamos, de rolar na grama, mas depois estávamos brincando novamente... Brincava mais com os meninos do que com meninas. Só fui brincar com meninas mais tarde... Não gostava de bonecas, gostava de carrinhos, era louca por carrinhos em miniatura, de metal...

Desde pequenina as minhas atitudes em direção ao outro eram de ajudar, entender, cuidar...

Para mim, mesmo com tudo aquilo que já li, com tudo o que vivi, fica ainda assim difícil compreender porquê uma pessoa é cruel, e cruel injustamente... Eu fico pensando: sou uma pessoa legal, boa, e passo a maior parte de minha vida, sozinha... Isso é uma constatação: a solidão e o fato de ser uma pessoa boa.

Não uso de falsidade com as demais pessoas, não consigo ter interesse material no que o outro tem e possa me ofertar..., não é isso que me conduz em direção as outras pessoas. O que me conduz em direção aos outros é o amor, o sentimento, a amizade, o carinho, a simpatia,  o prazer da convivência...

Eu creio que existem determinados atributos a pessoa ruim... Não é de toda ruim, nunca espero por isso. Sempre espero que exista algo ali que seja reversível... E as vezes não é...  Ou pelo menos, espero compreender  porque a atitude dessa pessoa é ruim... E nem sempre isso é possível...

Estou falando sobre a crueldade humana, de forma bem singela, até fugaz, mas é a minha natureza falar dessa forma, porque eu gosto mais das histórias de amor, de reinventar um novo amor, isso me agrada por demais... Agrada a minha alma, a alegria, a inspiração, a criatividade, o bom-humor...

O amor é mais forte em mim do que qualquer outra coisa. A maldade não faz parte da minha alma...

Penso que os sentimentos que inspiram a maldade, são sentimentos de avareza, egoísmo, prepotência, prazer em subjugar o outro, prazer em dominar, causar temor...

E isso me faz lembrar de outra coisa muito importante: nenhum medo existe sem fundamento real. Por trás de todo medo, existe uma ocorrência real, um fato sombrio... A síndrome do pânico, por exemplo, por mais que pareça insólita a algumas pessoas, o sujeito chegar ao ponto de não conseguir fazer o que todo mundo faz, tem uma razão de ser. O medo é real... Não é inventado.

Mas, o que mais caracteriza aquelas pessoas que se veem em tal situação, de colapso nervoso, de medo extremo, sem conseguir explicar o porquê desse sentimento, ao longo de uma investigação, percebemos que a pessoa  filtrou, captou signos de seu ambiente, que revelam essa causa real, no final das contas...

Esses signos muitas vezes se manifestam muito sutilmente, um meio olhar, uma série de condutas percebidas,  que tem um processo ou direção.... Quando perguntamos, o outro pode negar ou desabilitar essa razão, mas ela subjaz intacta ali, presente, e fortalecida em todos os sinais e indicações, que a nossa mente consegue perceber... A nossa consciência talvez não aceite, não consiga assimilar. Porém, no fluir dos acontecimentos, observamos que aquele medo que parecia irreal, na verdade tinha o seu fundamento...


sábado, 20 de outubro de 2012

"LA REINA MARGOT"

Kim Bassinger Russell Crowe are in Love in L A CONFIDENTIAL

Last tango in Paris

Ballet Last Tango (in Paris) Bolshoi Ballet

A CRUELDADE HUMANA (01) - DENISE FRANÇA

Curitiba, 19 de outubro de 2012.


Nossa civilidade em verdade se manifesta através de seu mal-estar.  Um belo texto sobre isso: "MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO".  Texto do Doutor FREUD, mas é atualíssimo....

Já há algum tempo me debato com algumas questões, a crueldade humana é uma delas...

Mais informatizados, mais tecnologicamente providos, a crueldade se tornou mais expressiva, mais manifesta, e em crianças bem pequenas....

Meninos ainda, que não entraram na adolescência descrevem comportamentos cruéis, em relação a outros meninos, ou então em relação a bichos.... comportamentos especificamente cruéis.... que se estendem pela vida afora.

Existem muitos elementos na obra de Lévi-Strauss, antropologia, que falam sobre os povos selvagens... Descrevem a cultura, as formações de determinada sociedade, mas em nada se aproximam da "selvageria" desta sociedade. "Tristes trópicos", uma de suas obras que se refere ao Brasil.


"[...] Ninguna sociedad es perfecta. Todas implican por naturaleza una impureza incompatible con las normas que proclaman y que se traduce concretamente por cierta dosis de injusticia, de insensibilidad, de crueldad. ¿Cómo evaluar esta dosis?"

"Tomemos el caso de la antropofagia, que de todas las prácticas salvajes es la que nos inspira más horror y desagrado. Se deberá, en primer lugar, disociar las formas propiamente alimentarias, es decir, aquellas donde el apetito de carne humana se explica por la carencia de otro alimento animal como ocurría en ciertas islas polinesias."

". Pienso en nuestras costumbres judiciales y penitenciarias. Estudiándolas desde afuera, uno se siente tentado a oponer dos tipos de sociedades: las que practican la antropofagia, es decir, que ven en la absorción de ciertos individuos poseedores de fuerzas temibles el único medio de neutralizarlas y aún de aprovecharlas, y las que, como la nuestra, adoptan lo que se podría llamar antropoemía (del griego emein, “vomitar”). Ubicadas ante el mismo problema ha elegido la solución inversa que consiste en expulsar a esos seres temibles fuera del cuerpo social manteniéndolos temporaria o definitivamente aislados, sin contacto con la humanidad, en establecimientos destinados a ese uso. Esta costumbre inspiraría profundo horror a la mayor parte de las sociedades que llamamos primitivas; nos verían con la misma barbarie que nosotros estaríamos tentados de imputarles en razón de sus costumbres  simétricas."


"Em  Introdução Teórica às  Funções da Psicanálise em Criminologia, de 1950, o psicanalista Jacques Lacan traçou um itinerário que pudesse nortear o diálogo e o estudo “da realidade sociológica do crime e da lei” à luz do supereu e da psicopatologia penal. Os crimes provenientes do supereu, dos quais todos reconhecem a lei e a incidência do castigo, podem ser elucidados pela escuta analítica, de sorte que a psicanálise, pelas instâncias que distingue no indivíduo moderno, pode esclarecer as vacilações da noção de responsabilidade em nossa época e o advento correlato de uma objetivação do crime para  a qual ela pode 
colaborar (1998, p. 129). O sentimento correspondente à vivência do crime é a culpa. Basta lermos nos fatos humanos as significações especificadas como tais. O declínio do pacto social permite que novas formas psicopatológicas enunciem o mal-estar na cultura. O confronto de ideologias carregadas de paixão e as guerras e as mortes de civis exprimem a que ponto o homem é destrutivo para com o seu semelhante. Numerosos sujeitos cometem transgressões e delitos, para isso, procuram no estímulo sexual a fonte da satisfação, mas os mecanismos que os causam podem consistir no transbordamento de uma angústia insuportável. A angústia que espia, saída das trevas do inconsciente, provoca uma sensação de perturbação, conclamando a desordem psíquica e a passagem ao ato."


"Para Lévi-Strauss “o indivíduo mantém uma constante tensão em sua inserção social, cuja cultura produz o ‘mal-estar na  civilização’”. Lévi-Strauss ressalta que “as três fontes da resistência ao desenvolvimento” (uniformidade, temor e repugnância) manifestas na história concreta do desenvolvimento criam as descontinuidades culturais, cujas diferenças profundas se apresentam como causas das resistências ao desenvolvimento globalizado. De modo  geral, pode-se considera-las como: a forte tendência da maioria das sociedades em preferir a uniformidade às mudanças. Há um profundo temor (quase um tabu) pelas forças naturais. E uma repugnância pelo engajamento no devir histórico."



Qualquer leitura do comportamento humano deve ser realizada numa observação atenta, realizada ao longo do tempo. Só assim podemos ter uma noção mais clara das várias direções, vetores que cercam aquela estrutura específica, aquele grupo, aquela realidade. Uma noção do conjunto, e uma noção das partes em separado...

O ser-humano pode reagir de várias formas. Nada nos assegura que um sujeito vá descrever tal comportamento mediante este ou aquele fator. Mesmo quando imaginamos que aquela pessoa nos é grata, as vezes somos surpreendidos por uma conduta agressiva.

Em que condições seria "normal" esperarmos uma conduta "agressiva" de um sujeito?! Imaginamos o básico: uma situação de stress derivada de um ambiente hostil. Uma situação de stress que já se estende por longo tempo e, espera encontrar um estímulo externo para se manifestar.

Uma reação de defesa mediante um ataque inesperado que ocasiona risco de morte. E assim por diante. "Normalmente", a reação agressiva não vai além disso, proteção do espaço físico, proteção da prole, família, pessoas indefesas, bens materiais, por aí...

Não imaginamos que alguém que reage agressivamente para sua própria defesa vá "arrancar o olho de seu adversário", ou vá cortar o pescoço e arrancar sua cabeça, fazer picadinhos do outro, atear fogo, cortar partes do corpo, e tudo aquilo que já conhecemos através das informações que vêm dos telejornais, rádios, internet, relativas a crimes, assassinatos, etc.

Ou mesmo o que já vimos acontecer nos USA com jovens em escolas... Inesperadamente surgem do nada, munidos de armas e executam aqueles que anteriormente faziam parte do seu vínculo social, em determinada instituição, alunos, professores, colegas...

Esses diversos fatores e acontecimentos nos fazem observar  a "crueldade" presente na conduta humana. Com o aparecimento das drogas, o tráfico que tomou conta das grandes cidades, metrópoles, deixa à mercê  todo e qualquer indivíduo. De qualquer classe social, atingindo em maior número adolescentes, e mesmo crianças.

Com o passar dos anos, a indústria do crime se estabeleceu em todos os lugares. Não observamos mais esse acontecimento ser justificado apenas e unicamente pela "injustiça social", mas se dá à deriva deste aspecto e se estende em várias direções.

Existem lutas internas entre as organizações criminosas, o que torna mais grave essa situação. O combate a esses problemas todos, pela segurança, secretarias e órgãos que tratam deste assunto, não conseguem atingir o cerne desse problema. A segurança de um Estado também fica à mercê do Governo, de legislações criadas sem conhecimento profundo de todos esses problemas. E criadas por pessoas às vezes desprovidas e sem a menor noção da realidade que norteia o crime.

O sistema "prisional" da mesma feita, encarregado para educar o criminoso, infrator, sofre de uma falta de estrutura capaz de "realmente" fornecer elementos que atendam a essa necessidade de re-socialização do detento, e infrator.

Muito pelo contrário, observamos que a reincidência no crime se dá logo após a soltura do sujeito, sua saída vai de encontro a realidade que determina que esse sujeito continue tendo a mesma conduta...

Objetivamos: a "crueldade" é um elemento que faz parte do ser-humano, e que o distingue dos outros seres, os animais. Os animais não são "cruéis", não causam dor a  seu opositor pelo simples prazer. Agem de acordo com a sobrevivência de sua espécie.

Assim como observo que a crueldade é uma característica humana, observo também que as crianças pequeninas, desde o seu nascimento, não são cruéis. Que esta "tendência" se desenvolve posteriormente, em razão de tudo o que já foi dito aqui.

Existem ainda outros fatores que me impressionam. A sutileza em formas específicas de comportamentos cruéis. O pensamento, e essa é a DIFERENÇA, o pensamento está presente na conduta CRUEL. A inteligência à serviço desses modos do crime, a ausência de culpabilidade, a crueldade no seio familiar como autoridade.... e aceita moralmente.


OBS.: Esse texto foi escrito enquanto esperava a Apresentação de Dança-do-Ventre, no Teatro Fernanda Montenegro....

O Leão Christian - Versão Longa e Legendada PT-BR

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O CIÚME - DENISE FRANÇA

Curitiba, 19 de outubro de 2012.

COMENTÁRIO EM RELAÇÃO AO TEXTO DO DOUTOR FLÁVIO GIKOVATE: O CIÚME SENTIMENTAL...

Eu diria que na relação a dois, não existe ciúme. O ciúme é derivado de um terceiro elemento...

Inevitavelmente, pelo estado próprio do encantamento amoroso que confere um lugar especial ao outro, particular e único, tudo aquilo que vem do exterior em desencontro a isso, é percebido como risco ao relacionamento.

Não queremos perder esse l ugar, ou não temos capacidade de amar de outra maneira?! Fora da relação, olhando de fora, observamos que não há nada de tão particular ou especial em ambos, as pessoas que formam o casal, para que sejam vistos como "únicos" e ou "especiais".

Nesse sentido, podemos afirmar que o "amor" abre um espaço novo, produz uma linguagem particular entre os enamorados, um OUTRO DISCURSO, que só eles compreendem.

FREUD em sua obra, chamou esse fator de "TRANSFERÊNCIA", e significou esse conceito como sendo um dos conceitos fundamentais da PSICANÁLISE; senão o "conceito" por excelência que caracteriza o início da psicanálise.

Foi em razão do comportamento "particular" observado em suas pacientes, que Freud começou a pontuar o processo psicanalítico. Mas o mais interessante é que Freud determinou esse elemento, a "transferência" como ponto de "RESISTÊNCIA", entrave ao processo da cura.

LACAN, da mesma forma, posteriormente, falando sobre a "ÉTICA" em psicanálise, trouxe no decorrer da leitura das obras dos filósofos gregos, o que era o AMOR... Em O BANQUETE, de Platão, fala sobre o amor entre os gregos... O AMOR AO SABER, o desejo de saber, e a figura do analista... Deste ponto ele parte para elucidar esse elemento particular, a transferência, ou seja, o paciente se sente apaixonado pelo psicanalista..., transfere um quantum de afeto... Depois, Lacan faz a leitura de KANT  com SADE, para ir um pouco mais longe dentro deste conceito e especificar as condutas masoquistas, os pares de oposição que regem a conduta humana.

"O ENCANTAMENTO AMOROSO" acontece ao longo da história, da cultura, em todos os tempos, a todo momento, e caracteriza o ser-humano por excelência.

A RESISTÊNCIA a que Freud se referia e que abre à transferência, mais tarde é entendida como proveniente das primeiras identificações parentais da criança. E se questiona se o amor só se dá sob esse aspecto e condições...

LACAN persegue alguma coisa a mais, diante da metáfora paterna, que contornaria a relação da criança e da mãe, e colocaria este sujeito mais adiante, além destas identificações parentais.... O terceiro elemento, o PAI.  POR ISSO, deixa o aspecto IMAGINÁRIO, as imagos infantis, e prossegue com a metáfora paterna, ou seja a razão funcional do LUGAR DO PAI, nesta relação mãe-filho. O lugar do pai, entendido como aquele que causa a interdição, e proclama a LEI.... O que pode ou não pode ser feito...

Se procuramos no outro, objeto do nosso amor por características já conhecidas em nossa história particular e pessoal, isso é certo.  Buscamos "repetir" o mesmo fenômeno, o mesmo modelo e funcionamento... Daí nasce mais um dos pilares da Psicanálise, o conceito de "REPETIÇÃO"...  E a resistência do sujeito ao processo de cura, por debaixo da DEMANDA QUE O SINTOMA NOS OFERECE... O SINTOMA DO SUJEITO É UM SINAL, indica a direção, o caminho....

Mediante a renúncia a esse lugar, do infante, chegamos a uma outra postura que nos permite AMAR MELHOR.

O CIÚME é derivado das primeiras experiências no seio familiar, quando nos deparamos com um outro irmãozinho, e perdemos o privilégio do nosso lugar anterior. As atenções são divididas, e isso pesa sobre a nossa vaidade pessoal.

Esse vetor "IMAGINÁRIO" que caracteriza a natureza deste amor, é a nossa "imagem" (EGO), que se subdivide em ego-ideal, e ideal-do-ego.   Esta imagem construída paulatinamente através do quantum afetivo, emocional depositado sobre a vulnerabilidade do nosso ser infante.

E, se não bastasse, outros sentimento, emoções negativas, inveja, ciúme, são derivados disso. A privação deste afeto, em razão de um comportamento nosso que não  vai de encontro à autoridade do outro, nos deixa "rebaixados", tristes, invejosos, ciumentos, enfim...

 E, indiscutivelmente, na esfera de todas as nossas relações sociais, familiares, a cultura de um modo geral gira em torno deste funcionamento. E além disso, o afeto manifestado em forma de "carinho", palavras, atitudes positivas, ganha lugar como "presentes", "ofertas" que representem esse benefício infantil, a consolidação deste lugar junto ao outro.

Amamos melhor na medida que vivemos, conseguimos suportar as frustrações, conseguimos avaliar melhor o sentido de tudo isso e compreender que o outro não nos pode dar ou trazer felicidade. E o bem-estar proveniente de uma relação amorosa satisfatória advém de sair deste lugar privilegiado, imaginário, e assumir com responsabilidade que o "melhor" vem do respeito pelo espaço do outro, sua personalidade que caracteriza sua individualidade. Quanto mais aceitamos e nos conduzimos como pessoas precárias no desenvolvimento, não nascemos prontos ou acabados, mais conseguimos valorizar o outro, seu universo.

Isso não é utópico, é o que nos resta fazer para sairmos dos ENGÔDOS e armadilhas imaginárias.

Desta forma podemos entender O CIÚME como uma "CICATRIZ IMAGINÁRIA", que volta sempre a "enfernizar"....

Sabemos que o ciúme reduz o círculo de contatos do sujeito. O ciúme caracteriza uma postura arbitrária, autoritária, possessiva... Consequentemente e ao contrário, uma vida saudável se dá mediante o direito de ir e vir, estar em contato com  o mundo, descobrindo outras pessoas, se renovando a partir de outras possibilidades existentes, e avaliando outros modos de gostar, estar, se expressar.



DOUTOR FLÁVIO GIKOVATE


NO MEU PONTO DE VISTA, essa conduta caracteriza a possibilidade de um relacionamento amoroso saudável, maduro...., com bem menos ciúme.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

SER AMANTE - DENISE FRANÇA

Curitiba, 16 de outubro de 2012.

COMENTÁRIO A RESPEITO DO TEXTO DO DOUTOR FLÁVIO GIKOVATE, A CONDIÇÃO DE AMANTE....

Respeito por demais os casais e os casamentos, mas o meu respeito vai bem mais além do que tudo isso, do que os chavões e padrões e, portanto, eu digo:  muitos casamentos são de aparência... senão a maioria deles...  E nem sempre a amante é uma mulher PERIGOSA, que está roubando a felicidade do casal... ou ROUBANDO O MARIDO DA OUTRA.... Com isto quero lhes dizer e digo: sou AMANTE DA VERDADE...

Não gosto e nunca gostei desde a mais tenra idade, de chavões como esse: ROUBAR O MARIDO DA OUTRA... E lembro muito bem, na minha adolescência, onde haviam poucas mulheres desquitadas e divorciadas, falarem tão mal da condição delas, a ponto de mulher desquitada ser a mesma coisa que "vagabunda"...

Meus senhores, fica a critério de cada um viver uma VIDA DE MENTIRAS,  ou, ser honesto e consciente, encarar os sentimentos com SERIEDADE, como é a única forma de viver um sentimento: ou a gente sente, ou a gente não sente. E se sente, devemos respeitar o que sentimos, respeitar a pessoa, causa deste sentimento.

Existem situações e situações... tudo pode nos acontecer nesta vida, para o bem e para o mal. E o amor algumas vezes nos vem de ENCONTRO com uma aparência contraditória, e de difícil aceitação, isso não quer dizer que seja RUIM ou MAL,  mas que possamos assimilar outros modos, e outros processos de existir e de amar...

Há casos e casos... A situação de amante é uma situação delicada, mas acredito que a Amante sabe de sua real condição, e pode dosar o seu papel, se está sendo usada, se está se enganando, se realmente aquilo que está vivendo é uma ilusão.... Ninguém é completamente ingênuo a ponto de não sentir, ou captar os "sinais" dentro de uma relação amorosa. 

E isso vai como um alerta em razão da minha própria experiência de vida. DEEM VALOR A ESTES SINAIS... A minha intuição nunca falhou...  Mesmo em situações onde aparentemente tudo parecia estar bem, eu percebia estes sinais, e me colocava em alerta... depois mais tarde, fui ver a verdade de tudo o que estava acontecendo. Minha intuição não falhou...

Nós temos capacidade de perceber as coisas, não precisam ser ditas e declaradas, na relação a dois.... Seria melhor que a pessoa falasse e deixasse tudo bem claro e compreensível, para que possamos nos situar na relação amorosa.  Mas, mesmo quando o outro não fala, se omite, ou se coloca na reserva, temos a capacidade de perceber sinais que nos indicam se está acontecendo algo ali que não bate com a verdade... com a realidade.

Existem também pessoas que gostam desta posição de AMANTE, valendo para o homem ou mulher... Procuram relacionamentos deste tipo, pelo risco, pela aventura, ou por outras razões...

Eu ACEITO ESTA CONDIÇÃO, no seguinte sentido: quando o envolvimento com um  homem é real, é sentimental, e não sexual apenas... Quando acontece apesar de todos os esforços para que não acontecesse... Quando se tem consciência e interesse em não estragar o casamento desta pessoa. Quando a aceitação é real a ponto de não haver ciúme... e por ai afora.

Eu digo EU ACEITO, porque realmente não me preocupo em nada com o modelo e padrão social... Me preocupo com a verdade do  sentimento, EU COM AS COISAS QUE VIVO, com a pessoa, com a qualidade do relacionamento... RESPEITO PELO SENTIMENTO, e não em razão daquilo que os outros possam pensar a meu respeito... É neste sentido que eu aceitaria uma relação assim, caso acontecesse...

Não posso falar pelas demais pessoas... Mas acho que o ciúme, num caso destes, da posição de amante, já deixa tudo a perder.... Porque não dá para viver esta situação e sentir ciúmes... Mesmo porque, o CIÚME já indica uma postura de imaturidade,  paixão, ou seja, possessividade, que contraria a qualidade do sentimento, no caso de ser ou não amor.

E, a condição de amante, geralmente é uma condição de princípio... Porque o relacionamento anterior não está bem, e por isso aconteceu esse fato... E ninguém sustenta essa condição por muito tempo... imagino que seja assim...

Em casos esporádicos mas reais, AMA-SE DE VERDADE A AMANTE, E AMA-SE TAMBÉM A ESPOSA....  EU PERGUNTO: E DAÍ, dá para alguém medir a capacidade de amar outras pessoas, ou colocar entraves.... ou julgar desta forma:  ELA ROUBOU O MARIDO DA OUTRA???!!!!

NÃO, NÃO CONSEGUIMOS MEDIR O QUANTUM DE AMOR, entre os casais, Se esse amor vale ou aquele não vale....

EXISTEM OUTROS ASPECTOS MAIS RELEVANTES:  Normalmente, ainda nos dias de hoje, o homem que tem uma amante, não sofre os revezes da sociedade, retaliação, nem da própria família...  A mulher porém, que aceita esta condição, sofre esses revezes tal qual fosse uma prostituta ou coisa do gênero. Se descobrem o relacionamento do casal, normalmente, é a mulher que seduziu o homem, marido da outra, a ponto dele cair em tentação... 

Considero o seguinte a se pensar: DESENVOLVER UM PENSAMENTO CRÍTICO, UM JUÍZO VERDADEIRO, depende de vários fatores, um deles é largar mão dos inúmeros preconceitos e chavões sociais, e culturais... Do contrário, nosso critério de justiça e verdade estará longe da realidade dos fatos, e da verdade tal qual ela se manifesta....





domingo, 14 de outubro de 2012

SENSIBILIDADE - DENISE FRANÇA

Curitiba, 14 de outubro de 2012.

COMENTÁRIO A PROPÓSITO DO TEXTO DO DOUTOR GIKOVATE, SOBRE A SENSIBILIDADE...

Sensibilidade, pessoas sensíveis e insensíveis....   A nossa vida está INSCRITA em nosso CORPO.  O NOSSO CORPO NÃO É UMA APARÊNCIA. 

Não é possível desconectar o corpo da mente, a mente do corpo, o espírito da mente, a mente do espírito, e assim por diante, intermitentemente...

ME ANIMA ESCREVER, ME ANIMA AMAR, ME ANIMA CANTAR, ME ANIMA  BEIJAR...

ÂNIMA, alma.  O CORPO ANIMADO....  Aquela pessoa é animada... Nossa, olha só o jeito dela...  

Pois é, uma pessoa hipersensível não significa que seja histérica, louca, insana, exagerada, escandalosa... NADA DISSO. Da mesma forma como uma pessoa forte, não é uma pessoa insensível....  Estas coisas foram mal colocadas, ou informações leigas, sem propósito verdadeiro.

A consciência do nosso corpo, esta é a questão que nos importa. Se estamos subordinados a condutas promíscuas, possivelmente o nosso corpo responderá a isso... Se bebemos e nos tornamos alcoólatras, também. Se usamos drogas, da mesma forma...

A DESSENSIBILIZAÇÃO DO CORPO faz com que não tenhamos mais noção do que nos acontece...  Mesmo uma aparência bonita, ou uma estética de modelo, pode esconder uma bulimia ou uma anorexia que conduz o sujeito à morte.

A SENSIBILIDADE DE UMA PESSOA, é a forma como administra os estímulos e informações  do mundo exterior, assimila as percepções  e também como administra a sua própria vida, obviamente.  

A SENSAÇÃO, A EMOÇÃO, O SENTIMENTO, O PENSAMENTO, O ESPÍRITO.  A CAPACIDADE QUE UMA PESSOA ADQUIRE DE ASSIMILAR E TRANSFORMAR ESSES ELEMENTOS, ISSO DIZ RESPEITO A SUA SENSIBILIDADE.

EU CHAMO ESSA CAPACIDADE DE ALQUIMIA. POIS SE TRATA MESMO DE UMA TRANSFORMAÇÃO, A PARTIR DA CONSCIÊNCIA DO QUE É PERCEBIDO, DE SUA ASSIMILAÇÃO E DE SUA TRANSFORMAÇÃO...

O DOUTOR FREUD USOU UMA PALAVRA BEM APROPRIADA PARA O "AFETO":  INVESTIMENTO.

INVESTIMENTO AFETIVO.  

Imaginemos hoje, um USUÁRIO DE CRAQUE.  O corpo deste elemento está sob o comando da droga, não pensa, não sente, não tem como administrar  as sensações do mundo.  24hs por dia a comando da DROGA.  E no período de FISSURA, ESTE SUJEITO REAGE A TODOS OS ESTÍMULOS DE FORMA AGRESSIVA. PROVAVELMENTE AOS ESTÍMULOS INTERNOS DO SEU CORPO QUE PRECISAM DA DROGA.  

Imaginemos o período da DEPRESSÃO logo após uma separação.  A sensação que temos, é de APATIA, desânimo, vontade de nada... Tristeza, melancolia...  E, nos casos extremos, ESVAZIAMENTO.  Precisamos então, de tempo, para assimilar a nova realidade, porque todo o investimento afetivo depositado sobre aquela pessoa, foi-se.... escafedeu-se... (hahahaaha). Temos a impressão que não vamos sobreviver em razão deste impacto em nossas vidas...

Imaginemos agora, a PAIXÃO, aquela sensação de estarmos apaixonados: o friozinho na barriga, a palpitação, o suor, o tremor.... De alguma forma, "dependentes" daquele estímulo que a outra pessoa nos proporciona... Os olhos esbugalhados quando a gente vê o benzinho, ou a vontade de sair correndo... Pensamos na pessoa durante o dia, a nossa concentração decai.... 

Nesses três exemplos, observamos todas as sensações, emoções, sentimentos, pensamentos...  Mas, meus queridos, precisamos aprender a observar o nosso mundo e a nossa vida. E isso só é possível se nos colocarmos em outro lugar.  NÃO NOS DEIXARMOS TRAGAR PELAS EMOÇÕES, SENTIMENTOS, ETC. 

Isso não significa sermos "duros", frios... MUITO PELO CONTRÁRIO, significa um outro patamar da sensibilidade.  Quando administramos as nossas emoções e conseguimos um bem-estar relativo, amadurecemos para a vida, convivemos melhor com as frustrações, com os problemas que aparecem...

SÃO VÁRIOS OS PATAMARES DA SENSIBILIDADE DE UMA PESSOA. E TUDO ISSO PASSA PELA ASSIMILAÇÃO LENTA E GRADUAL DO MUNDO, DO NOSSO CORPO, DA RELAÇÃO COM OS DEMAIS....




O CORPO NÃO NOS PERTENCE!  A VIDA NÃO NOS PERTENCE!  E precisamos aprender a respeitar isso. Se aprendemos a respeitar esta condição, conseguiremos RESPEITAR O ESPAÇO DO OUTRO. E A VIDA DO OUTRO ESTARÁ ILESA DA AGRESSIVIDADE, DA VIOLÊNCIA.... 





COMPOSIÇÃO 14 - DENISE FRANÇA

COMPOSIÇÃO 13 - DENISE FRANÇA

sábado, 13 de outubro de 2012

Astor Piazzolla & Josè Angle Trelles - Se potessi ancora

A COMPOSIÇÃO DO BEIJO (34) - DENISE FRANÇA

Curitiba, 13 de outubro de 2012.

ENSAIO DE LUZES (FICÇÃO):  TEXTO DEDICADO AO DOUTOR FLÁVIO GIKOVATE.

INSPIRAÇÃO 34ª:  ROSA 

Meu amor, GIKOVATE, abria as longas cortinas quando a noite chegava quente, cheia de luzes, estrelas, tudo... TUDO, apagava as luzes, ficava em silêncio, olhando tudo aquilo, enquanto custava-lhe o sono aparecer... Escutava as músicas que gostava, pegava as taças de vinho, abria-o, e me permitia escolher enquanto me beijava a boca... Enquanto estava junto a ele assim, não criava um cenário para uma história de amor, simplesmente tudo isso era um pacto maior que a nossa vontade.
O vento entrava suavemente pela janela, e ele me assaltava aos beijos enquanto me conduzia em seus braços e trocava passos de dança, no escuro vivíamos as sombras de tudo o que foi e tudo o que viria, iluminados pelas estrelas, luas, o brilho de seus olhos....

Nenhuma contrariedade nos admoestava... Esse caminho do amor brotava ao trocadilho de uma graça e de uma paixão inconsolável... Ora nos beijávamos loucos e afins, ora numa suprema melancolia ou tristeza esquecida... Passavam por nós muitas histórias, leituras, pessoas e sonhos transfigurados... Nosso corpo assim entregue ao amor e prazer designava o nosso modo, éramos amantes desconhecidos, perdidos e encontrados nesse instante. Fazíamos acontecer o inexplorado, o abissal, o supremo, o secreto, a insustentável passagem de um a outro no momento do gozo.

GIKOVATE me amava como se já houvesse me perdido... Vivia em mim sua possibilidade e sua transitoriedade, e produzia a eternidade como um alquimista nas tramas da minha pele...





Meu amor, que me cause a saudade, ou a morte por sua importância, acreditar ou não-acreditar... Sorrindo no desterro da crença ou no abandono insípido do fim, chamar a tua presença e velar tua solidão em meu colo.
O amor, do amado ao amante interrogando esta expressão no sentido de sua descoberta, tudo e a todo significado seu ENCONTRO, ÚNICO, ABSOLUTO, profundamente incompreensível por sua natureza particular entre um ser e outro, entregues à reciprocidade das ondas, embate da tempestade, alma e aliança, palavra soerguida à instância de VOZ.

COMPOSIÇÃO 09 - DENISE FRANÇA

COMPOSIÇÃO 10 - DENISE FRANÇA

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O ERÓTICO 3: TRANSGRESSÃO - DENISE FRANÇA

Curitiba, 10 de outubro de 2012.

COMENTÁRIO EM RELAÇÃO AO TEXTO DO DOUTOR GIKOVATE SOBRE A TRANSGRESSÃO...


A TRANSGRESSÃO na esfera afetiva... A transgressão nos eleva a uma condição mais genuína. Enquanto ficamos presos em identidades e preconceitos, não conseguimos assumir outras possibilidades e diferenças.
Quando nos submetemos a uma ordem, por exemplo, não podemos caracterizar a nossa autonomia de pensamento e de escolha.
Convivemos com as pessoas dentro de determinados comportamentos, padrões, normas, conceitos... Ao mesmo tempo que observamos esse mal-estar-social, o fastígio da rotina, sequer conseguimos modificar uma centelha em tudo o que fazemos todos os dias. Por que?! Por medo da novidade, porque acreditamos que o "controle" deve estar na mão de alguém, a quem chamamos autoridade. Seja a autoridade que nos instrui desde pequenos, nossos pais, seja a autoridade dentro do ambiente de trabalho, seja a autoridade que nos ensina, nos educa...
E quase sempre esta autoridade se dá em razão do medo que temos em perder o nosso "controle", porque desconhecemos grande parte deste ser que somos...
As regras de conduta seguem este funcionamento e padrão. Porém não abastecem a nossa vida com entusiasmo e não enriquecem a nossa criatividade.
Transgredir não é encher o caneco de bebida, tomar todas, e sair dirigindo até bater o carro e perder a vida. ISSO NÃO É TRANSGRESSÃO. Isso representa a impossibilidade do sujeito conseguir transgredir, é exatamente o contrário.
Quando o adolescente está em uma balada, é novato, e se sente inseguro, começa tentando se vincular a um grupo para se sentir mais seguro e posteriormente, repete a conduta dos demais... Se todos enchem a cara, ele também fará a mesma coisa... O que ele não consegue fazer, e que significa transgressão, é sentar-se com os amigos, e ao invés de beber uísque, tomar uma soda limonada....
Toda atitude genuína, e inovadora, criativa, passa por um processo de elaboração mental. Assimilar o processo atual, analisa-lo, robustece-lo com outras condições, caminhos, hipóteses... Fazer outra coisa.

O NOSSO CORPO, o prazer derivado das sensações vem do significado de que tudo aquilo que vivemos ao longo da vida. O nosso corpo é um tabuleiro, onde tudo é colocado. A ansiedade e a angústia nos mostram que existe algo ali travado, parado, encapsulado... O movimento do corpo sempre tem direção... Vai de encontro a algo ou alguém... E o móvel do prazer é a excitação.
Quando estamos juntos a alguém que gostamos, nos cercamos da pessoa, olhamos, gostamos, tocamos a pessoa com palavras, com o tom da nossa voz, carinhosamente, sensualmente, com ternura....  Esse estímulo chega até nossos ouvidos, e produz sensações gostosas no nosso corpo, o prazer.
Estendemos nossa mão e tocamos a outra pessoa. O corpo do outro.

Nesse momento, o momento em que tocamos o corpo da outra pessoa, entramos em contato com a particularidade e especificidade de tudo aquilo que envolve a outra pessoa. Esse gesto torna-se ao longo da vida, tão habitual e comum que não percebemos sua extensão, e a riqueza de impressões sensoriais provenientes deste gesto tão simples...
Deveríamos REAPRENDER a tocar o outro, e se deixar tocar pelo outro.
O terreno que cerca a outra pessoa, que não é o nosso, sempre será IMPRÓPRIO. IM-PRÓPRIO, tomado, roubado, apossado. Por que?!

Naquele espaço ali, o do outro, percebemos que nos acarreta uma série de sensações agradáveis, de prazer, etc e tal, e precisamos da autorização da outra pessoa para que isso aconteça outra vez, e mais uma vez e assim por diante, e mais a fundo.... Vamos mais a fundo naquilo que estamos sentindo ali, junto ao corpo da outra pessoa...

A outra pessoa permite que a toquemos, porque ela também sente a recíproca... Mas existe aí, entre o toque, e seu destino, outra coisa: o segredo, o tesouro, a revelação.  O apropriar-se disso para mim, ou seja, transgressão de um sentido, em direção a outro.

A TRANSGRESSÃO SEMPRE ABRE UMA NOVA CONDIÇÃO...

Os amantes não cessam de recuperar isso em outras TERRAS. Sempre para além....

E, TODOS NÓS SABEMOS DISSO: NO AUGE DA EXCITAÇÃO, ANTES DO GOZO, TEMOS UMA FANTASIA RECORRENTE DE POSSE DO OUTRO, POSSUÍMOS OU SOMOS POSSUÍDOS, VENCEMOS UM OBSTÁCULO DE PROIBIÇÃO, OU DE NEGAÇÃO, OU COISA SIMILAR...  PARA GOZAR, ESTA É A CONDIÇÃO.



Somewhere, My Love (Lara's Theme)

O ERÓTICO 2 - DENISE FRANÇA

Curitiba, 09 de outubro de 2012.

A virilidade do homem não reside na agressividade, num comportamento agressivo ou de domínio em relação à mulher, aos filhos... A virilidade do  homem se manifesta em sua preocupação com a mulher-amada, filhos, outros, a vontade de prover e cuidar.
Eu pessoalmente me sinto sensível a um homem que demonstre os seus sentimentos, saiba o que quer. Se não sabe, pelo menos tenha a iniciativa de dizer. Um homem que exerça sua virilidade com carinho e não com mudanças bruscas de humor, beirando à agressividade.

Alguns machos tentam submeter a mulher e os filhos através da chantagem emocional proveniente do dinheiro, e de palavras e atitudes  que os colocam ou os fazem sentir humilhados. E diante do afeto negativo que produzem, tristeza, medo, desrespeito, depressão, etc., conseguem submeter a esposa, filhos e outros.
O que me deixa estarrecida, a certeza de que esse é o comportamento "normal" para um homem e pai de família.
Estarrecida ainda mais pela maneira como muitas crianças, meninos principalmente, são tratados pelo pai. Apanham, são vítimas de buling, quando não aguentam mais e choram, o pai o chama de "viadinho", "bambi", menina, coisas do gênero. E ainda diz que "tem que aprender a ser homem"...
Essa criança aos poucos vai guardando toda essa hostilidade contida, porque não pode responder ao pai. Hostilidade que se volta contra ele próprio, corrói seu íntimo e aos poucos vai transformando sua conduta dócil e amável de crianças, numa conduta agressiva e cruel, com amigos ou crianças menores que ele, ou ainda bichos, cachorros, gatos, animais indefesos....
Quando essa hostilidade contida não pode ser manifesta por razões óbvias, resta-lhe ainda a bebida, o álcool, e as drogas. Passam a fazer parte de um grupo que bebe, fuma, se revolta contra todos e contra tudo.
Fico estarrecida com o andamento e processo de desenvolvimento de uma criança nessas condições... E também, porque vivi situações semelhantes que muito me angustiaram...
Tornar uma criança dócil e carinhosa não seria mais interessante, não seria bom para todos?! O carinho e a amabilidade de uma criança são a sua condição natural. É desta forma que elas agem normalmente, e se conduzem assim diante de um adulto que  por sua vez, tem a sua contrapartida na agressividade em relação a essa criança, humilhação, rechaço do amor.

Tendo em vista esses aspectos, volto a questão do erótico, dizendo que a "agressividade" não tem relação absolutamente nenhuma com o AMOR.
O sexo pelo sexo, da mesma forma, é um exercício de competitividade, submissão, anulação do sujeito. As pessoas amáveis, tornam-se pessoas eróticas no sentido de que o seu corpo já está INVESTIDO  com emoções, sensações, sentimentos positivos. E essas pessoas tornam-se "abertas" e receptivas ao mundo, a tudo o que está ao seu redor, são pessoas menos defensivas, e menos desconfiadas, não vêem com ESTRANHEZA E SUSPEITA as pessoas de fora do seu convívio familiar, são adaptáveis à mudanças, e a outras realidades diferentes da sua própria, aceitam inclusive a diferença..... E sendo assim, tais pessoas se comprometem num relacionamento sério, honesto, autêntico, sensível, abastecido no amor.




segunda-feira, 8 de outubro de 2012

SOBRE O EROTISMO - DENISE FRANÇA

Curitiba, 08 de outubro de 2012.

MAIS UMA VEZ, APROVEITANDO UMA DEIXA SOBRE O TEXTO DO DOUTOR FLÁVIO GIKOVATE, O EROTISMO....

Eu penso que antes de pensarmos o erotismo no casal, devemos pensar o CORPO, o nosso corpo.
Observo que o corpo erótico não nasce de um olhar sexual, com segunda e terceiras intenções. O corpo do erótico está para a capacidade da pessoa sentir prazer em tudo, em todas as coisas que faz. Isso desde muito cedo.

Infelizmente, hoje, as crianças são erotizadas antes de ter qualquer capacidade para viver a sexualidade, antes mesmo de saber o que é isso. As meninas, desde os 10 anos de idade começam a ter um comportamento sedutor, usam roupas sensuais, usam maquiagem, sapato alto, e muitos outros aparatos, e o fazerm em razão de todas as informações que a televisão passa, a internet, e outros meios.
Essas meninas, são crianças. Desconhecem a sexualidade, mesmo que tudo isso seja repassado a elas em forma de informações, não são assimilados de forma adequada...
Rompe-se um ciclo de existência, o corpo feminino é usurpado de um sujeito, e o corpo do feminino fica entregue a uma forma esvaziada de conteúdo e qualidade.
Quanto mais é permitido a uma criança, viver sua infância, mais ela está capacidade a viver uma vida erótica plena. Já acontece o contrário, com uma menina que é erotizada precocemente, torna-se apenas um boneco para exibição, e a tendência das mulheres que sucedem a isso, é viver uma sexualidade sem prazer, são sedutoras, belas, magníficas, seguem carreiras de modelos, atrizes, etc e tal, mas são frias, e emocionalmente imaturas.... Não estou generalizando, sempre há excessões...
FREUD deixou isso bem claro em sua época, é um fenômeno cultural, a sexualidade.

Quanto à MULHER, o que podemos dizer dela??? Eu posso falar por mim mesma, aos 48 anos de idade, não é nada fácil ser uma mulher, amadurecer como mulher, com tantos entraves assim...
O CORPO DO FEMININO, não é a bunda da mulher, nem os seios da mulher, nem as cochas da mulher, o CORPO DO FEMININO, é outra coisa, a ser SIGNIFICADA paulatinamente por ela mesma.

Mas, não só valendo para a mulher, mas também para o homem, o CORPO de um modo geral é rechaçado desde sempre. Se não é rechaçado, sua condição é relegada a uma exploração comercial...
Poucas são as pessoas que vivem bem com o seu corpo. Se sentem perfeitamente "ENCAIXADAS" nele. E isso já nos faz antever que não somos o nosso corpo. Este corpo é efeito de uma série de coisas, de modos, comportamentos, atitudes, etc e tal, adquiridos e assimilados ou não ao longo dos anos.

A sociedade ocidental tende a fazer do corpo um produto como outro qualquer....  Já em outras culturas, a assimilação do corpo está submetida a outros processos. Nós enfrentamos no decorrer da vida, todo um mecanismo de engessamento deste corpo, em razão de todos os modos e posturas a que somos submetidos.

Sentir o corpo, gostar do corpo, sentir prazer no corpo, compartilhar este prazer com outro parceiro, viver o prazer a dois, tudo isso é algo a ser aprendido.

Uma mulher bela, que chega aos seus 50 anos de vida, se pergunta se ainda é atraente?!

O erótico, ERÓTICO, NÃO É AQUILO QUE CAUSA ATRAÇÃO pela aparência, mas é o despreendimento  que se desdobra do mental, emocional, para o corpo, e pode ser percebido e sentido por outra pessoa, principalmente numa relação amorosa, sexual... ISSO É O ERÓTICO.

O PORNOGRÁFICO, ao contrário, não tem nada de erotismo, apenas exibicionismo, ostentação, rechaço sexual, amoroso, e exclusão do sujeito como pessoa. É UM JOGO DE PODER, onde se procura vilipendiar o sujeito enquanto pessoa, rebaixando-o a uma condição de objeto.

O ERÓTICO, é lindo, magnífico em todas suas implicações.... A sutileza, o gesto, a sensação, o sentido, o olhar, a permissão, a aceitação, o ENCONTRO entre dois seres, pessoas, e não objeto de uso e abuso...






A BELEZA DE UMA MULHER, não se pretende em razão de sua idade cronológica e sua aparência física. Oh, que ma-ra-vi-lha!!!!   Mas é assim que o homem a vê?????  Provavelmente, nem a vê, começa a admirar outras mulheres mais novas....

E esse também não é o pensamento de um HOMEM, mas a conduta do macho de um modo geral. Olha sua mulher, que não é mais jovem, trabalha, está cansada, cuida dos filhos, etc e tal, e aí, abre a internet, e vê ali os sites de pornografia, aquelas magníficas esplendorosas, e sua falsa modéstia, e acha que aquilo ali é prazer, sexo, tesão, o resto.

Provavelmente não é nada disso, mas é o que a sociedade de consumo joga nos meios de informação, sem dó nem piedade....

Acontece que esse homem, homenzinho, pobre macho, está perdido nesse mundo com todos nós, angustiado, ansioso, tendo que provar o seu poder de macho.... abandona a família, a mulher, os filhos, e parte para uma nova investida....  Coitado.

COMO DIZ AQUELA MÚSICA:  "ESSE MOÇOS, POBRES MOÇOS, AH SE SOUBESSEM O QUE EU SEI....".

Uma mulher que se sente insegura, angustiada, ansiosa, não consegue sentir prazer em nada, e muito menos na cama, ao lado de um homem... E o homem por sua vez, enquanto tenta cumprir esse papel de macho, incansável e exaustivo, não consegue amar uma mulher...

COMO O DOUTOR GIKOVATE DISSE:  "NÓS".  São "NÓS" em todos os sentidos, ela e ele, o casal, ou ela e ele, um nó estigmatizado onde não existe sujeito...

Hoje posso dizer com TODA CONVICÇÃO, quanto mais simples, autêntico e possível se  faz o ENCONTRO ENTRE UM HOMEM E UMA MULHER, mais se torna possível uma relação de qualidade, prazer e respeito entre ambos.....

O RESTO: SITES DE PORNOGRAFIA, BUNDAS MAGNÍFICAS, SEIOS DE SILICONE, LIPOASPIRAÇÃO, TUDO ISSO É ENROLAÇÃO, MENTIRA, INDÚSTRIA DE COMERCIALIZAÇÃO DO SEXO, PROSTITUIÇÃO, ETC E TAL.

Insisto nisso, porque é preciso insistir:   nenhuma mulher precisa acordar toda a vizinhança com gritos fenomenais, para provar que está gozando....  (Pelo amor de Deus, minha gente, o senso de realidade sobre tudo que vemos nos meios de informação deve prevalecer quanto a tudo o que norteia as nossas fantasias...).

POXA VIDA....







sábado, 6 de outubro de 2012

sou do bem - naná vasconcelos

ABC Musical - Suíte nº1 - Naná Vasconcelos

ABC Musical - Suíte nº1 - Naná Vasconcelos

Naná Vasconcelos e Orquestra

Egberto Gismonti & Naná Vasconcelos - Dança das Cabeças - Kaiser Bock Wi...

Egberto Gismonti - Prelúdio Bachiana n4 - Villa Lobos

EGBERTO GISMONTI - O Trenzinho do Caipira

Egberto Gismonti - Bachiana nº 5 - Villa Lobos

Villa - Lobos - Nesta Rua

PRELÚDIO DA SOLIDÃO - HEITOR VILLA LOBOS


Prelúdio da Solidão   

(HEITOR VILLA LOBOS - Letra : Hermínio Belo De Carvalho)

Se um passarinho for picar teu sono
saibas que sou eu
sou eu aurora boreal
pousando em teus trigais.

E se uma estrela incandescesse
no breu dos teus breus
hás de saber então
das trevas que me são mortais.

Hei de vergar-me então
como o mais reles dos plebeus
para dizer-te então que o meu amor
é tão ateu e herege como os fariseus 
que um dia Cristo expulsou do templo
sem lhes dar perdão
chicoteando, escorraçando aqueles vendilhões

E eu me sinto tal e qual um torpe e vil pagão
que nem provou da hóstia e o vinho em santa comunhão
mas que roubou sem dó as cordas do teu coração
e encordoou com elas sua enorme solidão.

Prelúdio da Solidão

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A LIBERDADE - DENISE FRANÇA

Curitiba, 05 de outubro de 2012.

COMENTÁRIO EM RELAÇÃO AO TEXTO DO DOUTOR FLÁVIO GIKOVATE, SOBRE A LIBERDADE.

LIBERTAS QUAE SERA TAMEN.   Liberdade, ainda que tardia...

A LIBERDADE, me remete a um texto de outro Doutor, o DOUTOR LACAN...  Sobre as escolhas do sujeito. Muito bem colocado, entre uma coisa e outra, e entre a cruz e a espada.... Se chegamos a uma situação ímpar, da não escolha, da impossibilidade de escolha, no caso, o que nos reserva é a morte. E ao escolhermos a morte, nesta situação ímpar, o que nos ocorre é que PRESERVAMOS A LIBERDADE DE ESCOLHA.

Nós sabemos, não somos livres. Temos o LIVRE EXERCÍCIO DA PALAVRA, DE IR E VIR, ETC E TAL.... porém, isso não é verdade.

LIBERDADE CERCEADA. Vivemos e nos conduzimos numa linha entre dois pontos limites, essa é a nossa condição existencial. A nossa postura e a nossa noção de justiça também são limitadas, ao nosso espaço circunstancial.

(ATÉ, EM ANTÍGONA. ENTRE DUAS MORTES. A   INTERDIÇÃO E O INTERDITO.

Nossa autonomia, como sujeitos. Estamos propensos a parar de falar, ou a não dizer tudo sobre. Porque em algum momento este ponto nos encurrala contra a parede, nos ata a uma palavra, a um significado, que não podemos suportar porque nos acarretaria a morte.

A ANGÚSTIA É SEMPRE UM SINAL, nos diz esse mesmo autor, UM SINAL.

De outra maneira, a morte nos propicia a liberdade. A severidade da lei, nos expurga de todos os males.

O isolamento, a solidão, o desamparo, é o que nos aguarda quando ESCOLHEMOS ultrapassar o limite imposto. Quando somos DIFERENTES do extrato cultural onde nascemos e vivemos.

OU, quando escolhemos a vida. Escolhemos a vida, e morremos a seguir.

Diz LACAN: O final da análise tem às vezes o sentido de nos avizinharmos do desamparo, é uma posição dialética entre a angústia e o desamparo.

No excesso da paixão dizemos:  ficarei com você até o fim.  ATÉ O FIM!!!


E, o compromisso vai até:  ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE. Chegando mesmo ao assassinato PASSIONAL.

Portanto, isto não é BRINCADEIRA.

A vida ESTÁ SEMPRE PARA ALÉM... A vida é mais do que isto tudo. A compreensão de tudo, ou o resgate de uma atitude moral do homem, não nos garante a vida. Pensamos a LIBERDADE como um excesso, ou a vida, como  RISCO DE MORTE. E A FELICIDADE, COM O PROFUNDO E INSUPORTÁVEL DESCABIDO DESAMPARO. 

Diante de todos esses nós, esses fios do Destino, as três Parcas do Destino, tecem....  Até o momento derradeiro, onde Átropos corta a linha. Chegamos ao fim da linha.... e agora?!

AMOR, MEU GRANDE AMOR, NÃO CHEGUE NA HORA MARCADA...

É o que digo a vocês: não cheguem na hora marcada, esperem o ACASO. Não se precipitem...










UM HOMEM PROIBIDO - DENISE FRANÇA

Curitiba, 05 de outubro de 2012.

De um lado a outro, quase como se estivesse encurralado em uma jaula, sua aflição tomava o lugar de um manto que cobria todo o seu corpo. Para mim, embora se tratasse de uma situação fora do comum, não havia nada ali de extraordinário. Para ele no entanto, estava à beira do abismo, seus nervos a flor da pele, não lhe serviam mais os mesmos critérios de valor, ou de juízo, tudo ali era inusitado.
A aflição dele encontrava minha tranquilidade, eu tentava apaziguá-lo. Disse a ele que o amor não se aprende assim, mas aos poucos, em outro lugar..., DE OUTRA MANEIRA.
Os riscos que cercavam sua pessoa diante de tal acontecimento, tudo demandava calma e tempo. Muito tempo para assimilar esse fato.
A coragem dele me surpreendera. A outros olhos poderia parecer louco e insensato. Esse homem angustiado, perdido naquele momento, me trouxera outra luz: a aceitação do novo. Transfigurado pela emoção do novo, pelo surgimento de uma outra realidade, ele se despojava diante de mim, e me entregava sua nova essência.

Ele abriu a porta, e eu entrei. Sentei a sua frente, e olhei para ele e disse: "O senhor está angustiado?!". Havia percebido isso há algum tempo... Pode me contar porquê.  Ele disse sorrindo, ainda de pé: "Você acha que eu estou angustiado?!"  Depois sentou-se também em outra cadeira, a minha frente. Olhava-me. Eu segurei a mão dele e disse: "Confie em mim, pode me contar tudo."  O coração dele estava aflito. Emergente. Cuidava de escutar o que ele precisasse falar. FALAR.

Ele então, me deu um beijo no rosto, se aproximou ainda mais, e me beijou a boca. E aí eu entendi de onde vinha a sua aflição. E ele começou a falar o que se passava em seu íntimo. Eu escutei.

Eu escutei tudo o que ele dizia, e guardei em meu coração, cuidei de suas palavras, cuidei do carinho que compartilhara, cuidei desse encontro entre nós dois.

Já fazia muitos anos que ele me conhecia de vista, e sempre a minha pessoa chamou a atenção dele, por se tratar de uma "pessoa diferente das outras"...

Eu escutei.

Fiquei me perguntando porquê o sentimento mais modal e humano como o amor, e a atração sexual entre um homem e uma mulher tornara-se de repente, naquela situação, uma faca de dois gumes?!  Eu olhava para ele, ali, e via um homem, um homem como outro qualquer. Em nenhum momento vi neste homem uma marca  de proibição, de impossibilidade.

Mas digo com certeza, ele era diferente de todos os outros homens. Pela coragem, pela decência, HONRADEZ e  honestidade, e pela profunda ingenuidade e desmantê-lo que abalara repentinamente sua condição, sua alma. Com mais de 55 anos de idade, ele se tornara um menino. E assim eu via em seus olhos, um menino surpreendido com emoções inesperadas.

ELE ERA E É UM HOMEM DIFERENTE DE TODOS OS DEMAIS.

Esta lâmina do desejo que já ocupava seus olhos, e transfigurava suas emoções, eu a recebi e sabia que podia dar conta disto. Para mim recebi isto com orgulho, generosidade, e humildade, vindo de quem vinha. E sabia também que não havia ali nenhuma outra pessoa que pudesse receber essa escuta e este suplício humano, sem  fazer disso uma retaliação imprópria e absurda.

Suplício humano, proibição, pecado, castigo. Assim ele estava sofrendo com o que sentia. Outra vez, eu apaziguei o seu espírito, e disse que isso tudo era HUMANO, demasiadamente HUMANO. Não se tratava de um vale de lodo e trevas, chamado INFERNO, mas simplesmente o encontro dele com uma emoção diferente em sua vivência.

Felizmente, eu consigo retirar a CULPA de um ser... Escutar alguém na propriedade de sua vida, a particularidade de seus sentimentos e pensamentos, a extensão de toda sua VIDA, PRECISA E NECESSITA DE SUPORTE. E este homem inusitado, hóspede de uma EMOÇÃO VERDADEIRA e nova, entregava em minhas mãos sua vida. CUIDEI DE ESCUTÁ-LO  e assimilei tudo isso, e a particularidade de sua condição e lugar, me fez reconhecer a razão também da AMIZADE: A NOSSA AMIZADE.

Depurei todos esses sentimentos, e acontecimentos, até que essa ALQUIMIA pudesse se produzir nele, com ele, apesar dele... Minha função única em sua vida, nesta passagem, foi essa: A AMIZADE.

O DESTINO AS VEZES É PROMOTOR, julga e condena.  Mais além da LEI, esse homem cumpria anonimamente o exercício de seu direito fundamental como pessoa humana, sentir, amar, o seu direito inclusive, de desconhecimento do pecado. E era exatamente isso que eu mostrava a ele, através da minha ESCUTA, O SEU DESCONHECIMENTO DO PECADO, o condenava.

Anonimamente, e na marginalidade de sua emoção primeira, se castigava e condenava-se pela paixão do seu corpo, da mesma forma como os homens fizeram e afligiram o CORPO DE CRISTO, sem pecado, sem culpa.

Meu querido e muito amado amigo: PADRE.     MEU MUITO OBRIGADA.





quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A COMPOSIÇÃO DO BEIJO (33) - DENISE FRANÇA

Curitiba, 29 de setembro de 2012.

"ENSAIO DE LUZES" (FICÇÃO): texto dedicado ao DOUTOR FLÁVIO GIKOVATE.

INSPIRAÇÃO 33ª: chocolate


GIKOVATE acordava muito cedo. Levantava, fazia o café, preparava a mesa, não tinha dificuldades em realizar estas tarefas. Dava uma olhada na agenda, fazia uma leitura de tudo antes de sair.  Eu acordava logo a seguir, descalça, caminhava até a cozinha e o via ali pronto, centrado. Aproximava-me dele, tirava seus óculos,  sentava em seu colo, e o beijava longamente. Ele gostava de olhar o meu corpo assim, amanhecido,  sem os detalhes do dia, sem maquiagem.
Gostava de me ver de calça jeans rasgada, e camiseta, com o pincel nas mãos,  realizando o meu trabalho criativo. A delicadeza no olhar dele, o modo como me cercava e observava, me aquecia o espírito, justificava a longa distância, e toda a saudade...
Sensualidade... A sensualidade entre nós dois se dava naturalmente, pela simples presença de cada um, e a honestidade de ambos. Nunca fora necessário que eu fizesse uma "cena" de erotismo, com a intenção de seduzir GIKOVATE. Mesmo porquê eu acho que isso seria bem inconveniente sendo ele do jeito que era, e percebendo tudo com seu olhar apurado.
Convivíamos melhor com a sutileza do gesto do que com o excesso da caricatura. A tranquilidade dele, a ternura do seu olhar, a maneira como elaborava os acontecimentos entre nós dois, isso tudo já me deixava com vontade de estar ao seu lado, dar a ele o mesmo carinho, e o mesmo prazer...
Sentávamos os dois para escutar música, relaxar, deitávamos no tapete, em silêncio com as mãos dadas, o nosso corpo sem palavras exprimia também a vontade e o querer... Essa resposta à presença do outro se manifestava assim, com aceitação e tranquilidade, e repercutia pelo resto do dia, por outros dias.
Todas as vezes que nos tocávamos, a intensidade da emoção tornava aquele espaço um lugar de encontro. Tudo era sentido, tudo era dito, o pedido realizado, a promessa ofertada, o compromisso selado.